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Mas quando nos julgarem bem seguros, cercados de bastões e fortalezas…

Hoje, 40 anos depois de Abril, voltamos a ouvir vozes que colocam em causa o regime democrático consagrado na Constituição de 1976.

Há 40 anos terminava a mais longa ditadura da Europa. Mas ela não foi a ditadura de um homem. A 1ª República foi derrubada por uma oligarquia económica, pela reunião da direita dos interesses e da política. Destruir o movimento operário organizado e eliminar drasticamente a sua capacidade reivindicativa, era condição central para o aumento dos lucros das classes dominantes. A ditadura era indispensável à imposição destas políticas e o discurso contra a política e os políticos, desacreditando as instituições da República e sobre a necessidade de um “salvador da pátria”, um instrumento para destruir a democracia.

Destruir o movimento operário organizado e eliminar drasticamente a sua capacidade reivindicativa, era condição central para o aumento dos lucros das classes dominantes

O pai de Salazar era feitor em propriedades agrícolas. O filho foi o “feitor” dos donos de Portugal, dos grandes grupos económico-financeiros que hoje continuam com todo o seu poder, sempre construído à sombra do Estado. O seu “milagre financeiro”, significou uma drástica redução da educação e da saúde pública e a ausência de proteção social, agravando a fome e a miséria…

Depois de Salazar cair da cadeira, nas “conversas em família” Marcelo Caetano afirmava então, numa televisão a preto e branco, que “ tinha acabado o tempo das vacas gordas”, pelo que havia que fazer sacrifícios. Era uma situação…inevitável! Nas palavras do ditador, a alternativa era o caos, a anarquia!

Mas, afinal, havia alternativa. E não era o caos anunciado, como o demonstraram todos aqueles que construíram e fizeram o 25 de Abril de 1974. E Portugal renasceu das cinzas e rebentou “as portas que Abril abriu”. E o ensino público prosperou, trazendo os excluídos à escola. E o Serviço Nacional de Saúde foi implementado, elevando Portugal, no que se refere à drástica redução das taxas de mortalidade infantil, aos níveis mais elevados do desenvolvimento humano. Desenvolveram-se os direitos do trabalho. O poder local/autárquico, independente do poder central, afirmou-se levando ao desenvolvimento de um País marcado pelas desigualdades…

Hoje, 40 anos depois de Abril, voltamos a ouvir vozes que colocam em causa o regime democrático consagrado na Constituição de 1976. Dizem-nos que Portugal não é um país soberano, que tem de se dobrar à vontade dos “mercados”, que não há alternativa…

A receita foi eficaz. Primeiro construiu-se uma economia de casino, destruindo o sector produtivo, esbanjando crédito pelo imobiliário e consumo. Depois quando tal economia se tornou insustentável e a banca e os especuladores diminuíram os lucros, a resposta foi simples…o Estado e os impostos dos portugueses têm de pagar os prejuízos da banca e dos especuladores privados… esta é a origem da famosa dívida que sendo privada, passou a pública… estava instalada a chamada “crise”…

A chamada “crise” é a principal fonte de rendimento da banca e dos especuladores e justifica o esmagamento dos direitos dos trabalhadores. Não há, obviamente, vontade política de acabar com o negócio da “crise”

Chamam-lhe “crise” para esconder a sua verdadeira natureza, a transferência dos rendimentos do trabalho para o capital, a gigantesca operação de roubo dos dinheiros do Estado e dos impostos dos portugueses em favor da banca e dos especuladores nacionais e internacionais… O capital financeiro quer o máximo de dinheiros públicos num curto prazo. O Estado tem de cortar na saúde, educação ou segurança social, para satisfazer esta gula imensa. Só em juros da dívida pagamos mais que para a educação ou a saúde.

A chamada “crise” é a principal fonte de rendimento da banca e dos especuladores e justifica o esmagamento dos direitos dos trabalhadores. Não há, obviamente, vontade política de acabar com o negócio da “crise”.

Como é que eles (os políticos do “arco da governação”) garantiriam os seus futuros lugares em Conselhos de Administração?

Mas, como diz um poema de José Saramago,

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de ruir em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

Também nos anos anteriores a 25 de Abril, não havia alternativa, o povo vivia com medo, o sentimento de impotência reinava…E tudo isso mudou depois de uma canção que diz que “o povo é quem mais ordena”…

Sobre o/a autor(a)

Professor e historiador.
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