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Festejar Abril

Muito mais do festejar Abril, deverá ser Cuidar Abril! Porque Abril está doente. Muito doente.

De cada esquina, de cada canto, de cada travessa saltaram e continuam a saltar, cada vez com mais ímpeto, predadores que se esconderam, muito bem camuflados, sob as estevas das primaveras, sob os orvalhos das madrugadas e durante os dias de muito sol, escondidos nas cavernas mais profundas, deixando só os olhos de fora, prontos para, verbal e materialmente o atacarem. Com golpes, inicialmente aligeirados e por estes 40 anos fora, com golpes cada vez mais profundos provocando-lhe o atual estado de fraqueza e debilidade em que se encontra.

Mais, para sustentar os seus golpes, seguiram, e seguem os exemplos aplicados pela Europa que foi seguindo e escolhendo os piores caminhos ditados pela especulação internacional da finança.

Os seus curadores, os seus assistentes, a maior parte de nós, esteve desatento aos sinais que iam surgindo, naquela e noutra parte do seu corpo.

A saúde e a pujança de Abril são, mais do que necessárias ao país onde nascemos e onde Abril nasceu

Não fomos capazes de agarrar e coordenar todos os curadores que, mais atentos ao que se estava a passar iam denunciando que Abril estava a ficar doente. Porque uma grande maioria foi achando que eram casos episódicos e que com uma ou outra aspirina, um ou outro paracetamol, a coisa ficava melhor, que eram acidentes passageiros.

Mas não eram. Eram já indícios de infeções mais graves. Infeções que, a maior parte das vezes conduzem, e conduziram, a situações de enfermidades que o tempo, em vez de as estabilizar – e a palavra estabilidade de Abril e em Abril foi sempre uma palavra código – ditada para todos os que sentiam “cuidado, muita atenção” porque a acentuar-se o estado de enfermidade em que Abril se encontra, “não vai longe!”. Será conveniente limpar os campos porque as ervas daninhas estão a matar os cravos de Abril!

E assim fomos sendo, também nós infetados.

Porque a enfermidade de Abril padece, tornou-se agora ainda mais visível e contaminou as nossas vidas. Somos nós também a sofrer esse mal. E pior ainda é que não são só os que o “deram à luz” mas todos os que o ajudaram a criar, ao longo destes 40 anos.

Durante este percurso, são todos os que, com mais 40 anos em cima, se vêm despojados dos órgãos vitais de Abril. Pão, Saúde, Habitação, Segurança Social. São os seus filhos despojados também, dos mesmos órgãos vitais. Pão, Saúde, Habitação, Trabalho, Subsídios de Desemprego. São os netos desses mesmos que se vêm despojados de todos os órgãos de Abril. Pão, Saúde, Educação, Emprego e Estado Social, Futuro.

Por tudo isto me parece que, para além de festejarmos o seu aniversário, temos o dever de, com urgência, tratar e cuidar, com toda a medicação ao nosso dispor e ao nosso alcance para extirpar todos os tumores perniciosos à sua saúde e à nossa. A saúde e a pujança de Abril são, mais do que necessárias ao País onde nascemos e onde Abril nasceu.

Mais do que festejar é urgente Cuidar de Abril. E que ninguém se engane. Preservar a saúde de Abril, é preservar a de si próprio, dos seus ascendentes e descentes. A saúde deste País que é Portugal.

Precisamente para que hoje, amanhã, e no futuro os jovens não tenham que sentir, bem como nós, o que escreveu o enfermeiro Tiago Pinheiro quando partiu à procura de que na sua profissão tivesse a Dignidade que merece.

“Sou hoje no meu País aquilo que a geração de Abril lutou para que os seus filhos não fossem emigrantes, escravos de um trabalho sem direitos, agrilhoado à ausência de sonhos e esperança” – in Esquerda.net (Opinião) – 14.04.2014

Sobre o/a autor(a)

Reformada. Tradutora e Assistente no Depto. Médico duma multinacional americana da indústria e comércio farmacêuticos. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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