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25 de Abril: a guerra para conseguir a paz

Bloqueadas as saídas políticas para a questão colonial, só o derrube do regime poderia pôr fim à guerra. Foi o que aconteceu no dia 25 de Abril. Relato de como foi elaborado o plano operacional e de como ele teve sucesso no dia em que a ditadura caiu.
Veículos militares nos Reatauradores, Lisboa, no dia 25 de Abril. Foto Centro de Documentação 25 de Abril

Às 4h da madrugada do dia 16 de Março de 1974, uma coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha atravessou os portões do quartel, comandada pelo capitão Armando Marques Ramos, a caminho de Lisboa. Tinha como missão ocupar o aeroporto da Portela. Àquela hora, contavam os oficiais sublevados, outras unidades já estariam em marcha para derrubar o governo de Marcelo Caetano. Mas não tinham como saber ao certo o que realmente se estava a passar. O golpe improvisado não contava nem com um sistema de comunicações. Ao entrarem na Estrada Nacional 1, no lugar da Espinheira, não viram a coluna blindada da Escola Prática de Santarém que lá os deveria aguardar para fazerem juntos o caminho. “É muito tarde. Eles já passaram de certeza. Vamos continuar”, decidiu o capitão. E prosseguiram.

Faltavam três quilómetros para chegar à capital quando apareceram os majores Luís Casanova Ferreira e Manuel Monge, que vinham de Lisboa num carro particular e lhes traziam más notícias. “Queriam avançar a todo o custo. Com grande dificuldade, lá os convencemos que estando sozinhos o melhor era retroceder para as Caldas da Rainha”, recordaria mais tarde Manuel Monge. A EPC de Santarém não tinha saído, nem os pára-quedistas, nem a Escola Prática de Infantaria de Mafra, nem havia uma bateria de Torres Novas em posição na capital. Nem o pessoal de Lamego, que garantira que ia sair, se pusera em movimento. O general António de Spínola, contactado, recusara-se a entrar na aventura. Estavam isolados. E à frente tinham, à sua espera, um forte dispositivo envolvendo algumas forças militares, a GNR, a Pide, a Legião Portuguesa.

Eram 10h quando a coluna voltou a atravessar os portões do RI5 das Caldas. Casanova Ferreira e Monge tinham chegado antes. Todos se entrincheiraram e esperaram. Ao meio-dia, forças comandadas pelo brigadeiro Pedro Serrano cercaram o quartel e exigiram a rendição. Começaram as negociações. Monge e Casanova Ferreira afirmaram que só entregariam o quartel a Costa Gomes e a Spínola. Mas só queriam ganhar tempo, na esperança de que alguma outra unidade se revoltasse. Às 18 horas, mandaram abrir os portões e renderam-se. A intentona terminara, com cerca de 200 militares presos.

 “Com um piparote, estas forças são vencidas em dois tempos”, concluiu Otelo. Quarenta dias depois, a história dar-lhe-ia razão.

Para as forças opositoras dentro das Forças Armadas, a derrota parecia pesada. Uma “barracada”, como alguns lhe chamariam nos dias seguintes.

Mas a realidade mostrou ser bem diferente. O fracasso do “golpe das Caldas” foi uma preciosa aprendizagem tanto daquilo que não poderia voltar a ser feito, quanto do alcance que teria a resposta do governo. Em Lisboa, observando a concentração de forças que defendiam o regime, o major Otelo Saraiva de Carvalho verificou a confusão generalizada dos que tomavam posição à espera da coluna rebelde. “Era uma fartura amalgamada de pessoal e de material da mais diversa procedência, procurando encaixar-se nos espaços vazios permitidos pelas margens da estrada”, lembraria. E a juntar-se a esta “bagunça indescritível”, a praça enchia-se de populares que iam para o emprego. Do que observou, o oficial que viria a coordenar o posto de comando do 25 de Abril concluiu que o governo não tinha qualquer plano preparado para se opor a uma ação que fosse bem planeada e que respondesse a um comando centralizado. “Com um piparote, estas forças são vencidas em dois tempos”, concluiu. Quarenta dias depois, a história dar-lhe-ia razão.

A ordem era só aparente

Mas naquele dia 17 de Março, quando os jornais saíram com o comunicado da Secretaria de Estado de Informação, a concluir que as tentativas de rebelar outras unidades não tinham tido êxito e que reinava a “ordem em todo país”, parecia que o governo estava de pedra e cal. Aquele regime, que durava há 48 anos, aparentava manter intacta a sua força, apesar daquela pequena dissensão. Mas era apenas a aparência. Quem olhasse o cenário com atenção, veria que o pano estava esburacado e os atores, os “figurões do regime”, desempenhavam uma péssima pantomina.

A persistência da guerra colonial mergulhara o país numa crise sem saída, mas o regime caetanista, esgotada a sua “Primavera”, estava enredado na própria teia e recusava-se a admitir o óbvio: que a guerra estava perdida, arrastando o país para o abismo económico e político e para o isolamento internacional. Quarenta por cento do orçamento nacional já era canalizado para o esforço de guerra, mas os movimentos de libertação não deixavam de avançar e, em Setembro de 1973, o PAIGC proclamara mesmo, unilateralmente, a independência da Guiné. Três anos antes, o Papa Paulo VI recebera em Roma os dirigentes do MPLA, da Frelimo e do PAIGC, num gesto humilhante para o tão católico governo de Lisboa. Na visita oficial a Londres de Julho de 1973, Marcelo Caetano enfrentara uma manifestação de protesto de grande repercussão internacional. “Este homem tem as mãos sujas de sangue”, diziam os jornais londrinos, referindo-se às denúncias do padre Adrian Hastings que revelara o massacre praticado pelas tropas portuguesas na aldeia de Wiriamu, no Norte de Moçambique.

Três anos antes, o Papa Paulo VI recebera em Roma os dirigentes do MPLA, da Frelimo e do PAIGC, num gesto humilhante para o tão católico governo de Lisboa.

Mas as vitórias obtidas pela luta de libertação nacional das colónias não se limitavam aos avanços em solo africano. A maior vitória de todas era justamente a crise do regime de Lisboa, que teria como consequência final o seu próprio aniquilamento. Esta transferência da crise das colónias para a metrópole teve um agente: o exército português.

Iniciado como um movimento reivindicativo e corporativo, o Movimento dos Capitães, e logo Movimento das Forças Armadas, cedo se politizara e concluíra que não havia saída militar para a guerra. A reação dura do regime ao movimento fizera aqueles oficiais concluírem que “isto só vai à porrada”. A ideia de um golpe, no início aparentemente maluca, ganhava o consenso, particularmente quando a hierarquia militar, numa reação às cegas ao miniplenário do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, em Cascais – onde estiveram presentes 194 oficiais, representando 602 militares - , transferiu administrativamente os capitães Vasco Lourenço, Carlos Clemente, Antero Ribeiro da Silva e David Martelo. Vasco Lourenço, o único deles com responsabilidades no movimento, tivera assim de se afastar, na prática, da coordenadora.

Aquele ano de 1974 ainda mal começara e já tinha ocorrido um turbilhão de acontecimentos.

A 22 de Fevereiro fora publicado o livro “Portugal e o Futuro”, do general Spínola, que caíra no país como uma bomba. Pela primeira vez, um general afirmava que não havia solução militar para o conflito nas colónias, pugnando por uma saída política de tipo federalista, e ainda afirmava abertamente que a guerra estava perdida. O simples facto de ser publicado mostrava até onde já ia a desorientação do regime, até porque só fora levado à imprensa porque recebera a autorização do superior hierárquico de Spínola, o general Francisco da Costa Gomes, que não era outro senão o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (Spínola era o vice-chefe).

Uma semana depois da publicação, Marcelo Caetano ameaçou demitir-se e incitou um dos dois generais a chefiar o governo. Ameaçaria mais uma vez demitir-se quando o presidente Américo Tomás decidiu que os dois generais tinham de ser afastados do seu cargo. Antes que isto acontecesse, houve no dia 14 de Março a reunião da “Brigada do Reumático”, a ida a S. Bento das chefias das Forças Armadas e de Segurança e os oficiais generais dos três ramos para afirmar ao governo a sua fidelidade e apoio à política ultramarina. Apenas três se recusaram a estar presentes: Costa Gomes, Spínola e o almirante Tierno Bagulho. O episódio despoletaria, justamente, a fracassada “intentona das Caldas”.

O primeiro plano operacional, febrilmente desenhado, era o oposto do que viria a ser o do 25 de Abril. Começaria com o bombardeamento aéreo do Palácio de S. Bento, “para escaqueirar logo aquilo tudo”.

Sai uma unidade, as outras vão atrás”

O golpe das Caldas surgiu na sequência da primeira discussão de um plano operacional para o golpe. Os seus principais impulsionadores foram os majores Luís Casanova Ferreira e Manuel Monge, militares muito ligados a Spínola, ambos acabados de chegar da Guiné, que Otelo Saraiva de Carvalho estava a trazer para o movimento. Prevendo a próxima demissão de Spínola e de Costa Gomes, Casanova Ferreira propõe a realização de uma ação para impedir o seu afastamento. O primeiro plano operacional, febrilmente desenhado, era o oposto do que viria a ser o do 25 de Abril. Começaria com o bombardeamento aéreo do Palácio de S. Bento, “para escaqueirar logo aquilo tudo”, nas palavras de Casanova Ferreira. Mas não havia adesão da Força Aérea para concretizá-lo.

Mesmo as versões mais pé no chão do plano acabaram por ser recusadas, no dia 13 de Março, pelos representantes da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e dos pára-quedistas de Tancos, por ser uma aventura. “Isso não é nada, é uma coisa que não chega a ser um plano de operações, é um papelinho com coisas perfeitamente descabidas e nós não podemos alinhar nisso”, disse o capitão pára-quedista Avelar de Sousa. Otelo, que tinha concordado com o plano, mas com muitas dúvidas, decide cancelar tudo naquele momento. Afinal, a exoneração de Costa Gomes e Spínola não iria pôr fim ao movimento, não era um drama que deitasse tudo a perder.

Mas, no dia 14, a reunião da “brigada do reumático” levantou uma onda de indignação. À noite, diante de um telefonema de oficiais do Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego afirmando que iam sair em direção ao Porto contra a demissão dos dois generais, Otelo, Monge e Casanova Ferreira decidem recuperar o plano e pô-lo em marcha. Sem qualquer esquema de comunicações, dividem o plano entre si com a promessa de voltarem a encontrar-se em Lisboa à frente das unidades sublevadas. No fundo, estava subjacente a teoria de que era fácil derrubar o governo, como explicaria mais tarde Vasco Lourenço, numa entrevista ao Le Monde Diplomatique (LMD) em 2004: “Saía uma unidade, as outras iam atrás (...) era a posição do tenente-coronel Luís Banazol, que apareceu a dizer na reunião [do MFA] de S. Pedro do Estoril: 'Eu tenho o batalhão em Évora mobilizado, arrancamos, vamos distribuindo panfletos à população e isto cai de podre, porque os outros avançam a seguir.'”

Teria de ser montado um plano bem gizado, muito detalhado e minucioso, para funcionar. 

Mesmo com a crise do regime, esta teoria revelou-se falsa no 16 de Março. Apesar das promessas, nem Lamego se moveu. Só o RI5 das Caldas ganhou a estrada, mas ninguém o acompanhou. Era preciso mais que voluntarismo para derrubar o governo. Teria de ser montado um plano bem gizado, muito detalhado e minucioso, para funcionar. O que ninguém apostaria, é que depois da “grande barracada” das Caldas, esse plano pudesse ficar pronto e ser bem sucedido em tão pouco tempo.

Vamos fazer uma operação com classe”

Por pouco Otelo Saraiva de Carvalho não cai no 16 de Março. Não é apanhado por um triz pela Pide que invade a casa do major Monge. E consegue convencer o coronel Leopoldo Severo, da Academia Militar, que não se apresentara quando os quartéis entraram em prevenção rigorosa porque estava de fim-de-semana fora de Lisboa, num lugar sem televisão nem rádio, e que só quando voltara é que ficara a saber “que houve por aí uma bernarda monstra”.

Salvo por um triz, encontra-se com o capitão Vítor Alves, da coordenadora, e ambos redigem uma circular do Movimento em que afirmam a solidariedade com os camaradas presos, “que não nos cansaremos de defender seja em que circunstância for. A sua causa é a nossa, embora possamos criticar a sua impaciência.” Por outro lado, a circular garantia que o Movimento iria prosseguir, “com mais segurança e realismo”, e apelava ao reforço da coesão e das estruturas.

No dia 18, Vítor Alves e Otelo encontram-se com o major Ernesto Melo Antunes no café Londres. Melo Antunes estava extremamente pessimista, achava que “o desastre das Caldas” liquidara todas as perspetivas e que a Pide já devia ter ordem para desencadear ações de perseguição que levariam a curto prazo à destruição do Movimento. Vítor Alves, que não entrara, tal como Melo Antunes, na aventura das Caldas, compartilhava o pessimismo, mas insistia que agora mais que nunca precisavam ter o programa político do Movimento. Não era suficiente, dizia ele, saber o que não se queria, era preciso saber exatamente o que se queria. Só Otelo mantinha o otimismo: “Vamos fazer uma operação com classe, desta vez vai ser a sério.”

Os quarenta dias seguintes deram razão ao otimismo de Otelo. A Pide, em vez de pôr em ação o tão temido plano de perseguição ao Movimento, convenceu-se que depois do 16 de Março este ficara desestruturado, e que daquele lado não haveria problemas durante muito tempo. A CIA chegou a retirar agentes de Portugal, porque pensava que durante uns tempos nada iria acontecer.

Só Otelo mantinha o otimismo: “Vamos fazer uma operação com classe, desta vez vai ser a sério.”

Por outro lado, só os cabecilhas da intentona das Caldas ficaram presos; a maior parte dos outros detidos foi submetida a um rápido processo de averiguações e no final foram libertados e transferidos para outras unidades – na maior parte das vezes levando com eles o vírus da agitação.

No dia 18 de Março, no jornal República, um artigo da página desportiva, sob o título “Quem travará os Leões?”, referindo-se aparentemente a um jogo de futebol em que o Sporting derrotara o Porto, em casa, por 2-0, começava assim: "Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da sua estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos dissera um astuto comandante, «perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra»..." O artigo, do jornalista Eugénio Alves, um artifício para fazer passar pela censura uma referência ao 16 de Março, foi visto por Otelo como uma mensagem de confiança. “Era otimista e estimulante", escreveu mais tarde.

No dia 24 de Março, em Oeiras, reuniu-se a Coordenadora do Movimento, com 21 oficiais presentes. Foi a reunião decisiva. Otelo apresenta um relato detalhado do 16 de Março e retira as suas conclusões: que não seria exageradamente difícil derrubar o governo, mas que para isso era obrigatório ter boa organização, um plano de operações bem elaborado, um bom conhecimento da situação do inimigo e um bom sistema de transmissões.

“No Exército, a maioria queria a descolonização, aceitava a tese da autodeterminação, mas tínhamos um grande grupo que, sem ser maioritário, não queria essa formulação”. 

Otelo e Vítor Alves são eleitos, respetivamente, para a preparação militar e política do golpe e combina-se que não haverá mais circulares do movimento, nem qualquer comunicação escrita, para dar ao governo a impressão de que os líderes tinham sido neutralizados e que o movimento se encontrava desarticulado, parecendo assim confirmar-se que “a ordem reinava no país”. Esta decisão de “fecharem-se em copas” seria decisiva para surpreender o governo na “hora H”. Otelo assumiu a responsabilidade de ter tudo pronto para desencadear o golpe entre 20 e 29 de Abril e Vítor Alves anunciou que Melo Antunes, que fora deslocado para os Açores (por um seu pedido anterior), deixara as bases de um programa político do Movimento, que seria ainda trabalhado para estar pronto a ser executado no caso da vitória do golpe.

O plano toma forma

O programa escrito por Melo Antunes ainda seria muito negociado. Como era de esperar, o aspeto mais polémico seria a questão colonial: “Havia quem não aceitasse de maneira nenhuma a autodeterminação”, recorda Vítor Alves na já referida entrevista ao LMD. A Força Aérea não queria a descolonização. Pelo contrário, a Marinha achava que o programa estava muito aquém do que devia ser, e queria que se falasse em descolonização e independência das colónias. “No Exército, a maioria queria a descolonização, aceitava a tese da autodeterminação, mas tínhamos um grande grupo que, sem ser maioritário, não queria essa formulação”. A versão final, lembra Vítor Alves, foi obtida com muita conversa, muitas reuniões e era a plataforma máxima possível de obter.

O programa é depois submetido à apreciação de Spínola. O general sugere emendas, faz sugestões, formula perguntas… Corta palavras que acha terem ressonâncias de discurso do PCP. Desagradam-lhe as palavras “democrático”, assim como a designação de “regime fascista”. Mas aceita o parágrafo que dizia: “Claro reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e adoção acelerada de medidas tendentes à autonomia administrativa e política dos territórios ultramarinos, com efetiva e larga participação das populações autóctones.” Aceita-o, porém, de má fé, porque logo depois da vitória do 25 de Abril, numa discussão que atravessa toda a madrugada de 26, consegue que se abandone essa referência. 

Mas voltemos ao dia 24 de Março. Otelo sai da reunião da Coordenadora com a premência de montar o plano de operações partindo praticamente do zero. Tinha de fazer, em primeiro lugar, um levantamento das forças inimigas, daquelas que na hora decisiva se manteriam fiéis ao governo. “Eu tive que andar numa dobadoura, correndo riscos, a tirar informações sobre essas forças”, lembrará mais tarde. A influência tentacular do Movimento facilita-lhe a vida. De dentro do Estado-Maior do Exército, recebe informações sobre a orgânica operacional de PSP; de várias outras fontes vai recebendo informações sobre o dispositivo da Legião Portuguesa, sobre a Pide, pormenores importantes sobre a GNR, os seus aquartelamentos, as suas rondas.

Eu tive que andar numa dobadoura, correndo riscos, a tirar informações sobre essas forças”, lembrará Otelo mais tarde.

Chega à conclusão que tem de incluir no rol das forças consideradas “inimigas”, em Lisboa, o Regimento de Cavalaria 7 e o Regimento de Lanceiros 2, ambos comandados ou muito influenciados por cunhados do subsecretário de Estado do Exército, Viana de Lemos. Para evitar confrontos inúteis, decide preparar ações de comandos para capturar os comandantes antes que cheguem às unidades, e assim descomandá-las e desorientá-las.

Multiplica os contactos, naqueles dias, nas barbas do regime e sem que ninguém desconfie de nada. Muitos dos encontros são feitos em lugares públicos, como o Apolo 70, o “decano” dos centros comerciais lisboetas. Mas a todo-poderosa Pide não desconfia de nada. A desagregação da disciplina e o espírito de camaradagem do meio militar também protegem o major. Quase todos os contactados aderem com entusiasmo, mas mesmo aqueles que recusam, não o denunciam e asseguram a neutralidade no dia da ação.

O plano terá como base unicamente as forças do Exército. A Força Aérea garante a neutralidade, e apenas um pequeno grupo de oficiais participará nas operações em ações de comando (ocupação do Rádio Clube, por exemplo). Vítor Crespo, capitão-tenente da Armada, estará até ao último minuto a tentar obter a adesão dos fuzileiros navais, mas sem sucesso. Os pára-quedistas também declinam o convite para entrar no movimento, mas garantem que nada farão contra ele.

 “Era como se nós, no posto de comando, estivéssemos comodamente instalados numa plateia às escuras, observando divertidos... a movimentação dos títeres que, no palco, sob as luzes fortes da ribalta, não tendo qualquer possibilidade de nos enxergar, levaram a efeito, ainda sem o saberem, a última pantomina da sua longa carreira no cartaz”, escreveu Otelo. 

A “Ideia de Manobra” que Otelo incluiu no plano de operações dividia o território em duas grandes regiões, Norte (a norte do Douro) que tinha como objetivo central ocupar o Comando da Região Militar do Porto e garantir o controlo das fronteiras, e ficou sob a coordenação do major Eurico Corvacho. A segunda região era o “resto do país”, tinha como centro Lisboa e subdividia-se em Norte, Centro e Sul. Em Lisboa, planeava-se ocupar os pontos fulcrais, do Comando da Região Militar de Lisboa ao aeroporto, passando pelas emissoras de rádio e a RTP (sem esquecer as respetivas antenas), ao Banco de Portugal, a Rádio Marconi e os Ministérios. O objetivo era forçar a rendição do governo e pôr no poder uma Junta de Salvação Nacional (nome dado por Spínola, o nome original de Otelo era “Diretório Militar”) que seria apresentada ao país pela RTP e leria uma proclamação, assegurando a instauração da democracia, a convocação de uma Assembleia Constituinte e os restantes objetivos do Programa Político do Movimento.

Uma rádio com cobertura em todo o país seria a emissora oficial do posto de comando. “Não podia emitir os comunicados do posto de comando, para o preservar: precisava de uma rádio para esse efeito. A Emissora Nacional ia-nos dar uma conotação de direita”, explicaria Otelo. O escolhido foi assim o Rádio Clube Português.

No dia 15 de Abril, a “Ordem de Operações” praticamente pronta foi passada por Otelo ao tenente-coronel Amadeu Garcia dos Santos, para poder juntar-lhe o anexo de transmissões, o plano de comunicações dos revoltosos, que seria uma peça-chave para o sucesso do 25 de Abril. Garcia dos Santos conseguiu que fosse montada uma linha telefónica direta entre a Escola Prática de Transmissões e o Regimento de Engenharia 1 da Pontinha, onde foi instalado o posto de comando, num barracão pré-fabricado do quartel, com as janelas tapadas por cobertores militares, para não se verem as luzes acesas durante toda a noite. Tão bem funcionaram as transmissões, que os revoltosos comunicaram perfeitamente durante toda a operação, ao mesmo tempo que intercetavam as comunicações do governo, dos comandos militares inimigos, da GNR... “Era como se nós, no posto de comando, estivéssemos comodamente instalados numa plateia às escuras, observando divertidos... a movimentação dos títeres que, no palco, sob as luzes fortes da ribalta, não tendo qualquer possibilidade de nos enxergar, levaram a efeito, ainda sem o saberem, a última pantomina da sua longa carreira no cartaz”, escreveu Otelo no seu livro “Alvorada em Abril”.

No dia 23, o anexo de transmissões estava pronto para ser entregue, junto com as últimas instruções, por elementos de ligação, a todos os comandantes operacionais.

Oitenta por cento de probabilidades de êxito

No dia 20, Vítor Alves perguntara a Otelo que cálculo fazia das probabilidades de sucesso. O major respondeu que calculava 80% de possibilidade de êxito. “Boolas!”, respondeu Vítor Alves. “Se me tivesses respondido com 20%, eu tinha achado sensacional! Não estarás, como de costume, a ser otimista?” Otimista, sim, claro; demasiado, não, contrapôs Otelo, dizendo que a margem de 20% é que era exagerada. O major também negou que tivesse qualquer plano alternativo. Não admitia a possibilidade de derrota.

Às 22h do dia 24, Otelo chega ao posto de comando e é informado que o Regimento de Infantaria da Amadora “borregou” à última hora e não vai participar. Eram os tais 20% negativos a manifestarem-se. Sem ele, ficou descoberto o forte de Caxias, onde estavam centenas de presos políticos. Como a descoberto já ficara a sede da Pide, porque o major comando Jaime Neves achara muito arriscado tomar conta do local com um comando de dez homens.

Perto das 23 horas, expectativa para ouvir o 1º sinal, emitido pelo RCP para a zona de Lisboa: a canção “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, entrou pontualmente no ar às 22h55. A partir desse momento, a sorte estava lançada.

Os preparativos começaram imediatamente na zona da Grande Lisboa. Na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, o comandante e o 2º comandante são presos e os oficiais milicianos, os sargentos, furriéis e cabos milicianos são reunidos separadamente para serem esclarecidos sobre os objetivos do movimento. Todos aderem entusiasmados, menos os sargentos, que se recusam e são detidos. Na Escola Prática de Infantaria de Mafra, na Escola Prática de Administração Militar, no Batalhão de Caçadores 5, os preparativos começam.

A hora fora escolhida por Otelo porque “colunas militares podem movimentar-se em todo o país, não há trânsito, circulam à vontade. Às três da manhã não havia Força Aérea que disparasse sobre qualquer coluna, e eu não confiava na Força Aérea. E se fosse possível manter o segredo total da operação até às três da manhã era êxito assegurado.”

Cerca da meia-noite e vinte, entra no ar o segundo sinal, no programa “Limite” da Rádio Renascença, com emissão de alcance nacional: o locutor lê a primeira estrofe da canção “Grândola, Vila Morena”, que logo se ouve com o seu ritmo compassado. A hora H, as 3 h da manhã, já estava perto.

A hora fora escolhida por Otelo porque “colunas militares podem movimentar-se em todo o país, não há trânsito, circulam à vontade. Às três da manhã não havia Força Aérea que disparasse sobre qualquer coluna, e eu não confiava na Força Aérea. E se fosse possível manter o segredo total da operação até às três da manhã era êxito assegurado.”

A partir daquela hora, o telefone começa a tocar no posto de comando, para dar conta que os objetivos vão sendo alcançados no ritmo previsto: A RTP (nome de código Mónaco), o RCP (México), a Emissora Nacional, o Quartel-General da Região Militar de Lisboa. No Porto, uma força do Centro de Instrução de Condução Auto (CICA 1) ocupa o QG da Região Militar do Porto.

Às 3h16, os militares do posto de comando ouvem com risos a conversa intercetada entre o ministro do Exército, Andrade Silva, e o da Defesa, Silva Cunha. Ambos trocam impressões despreocupadas sobre os afazeres do dia seguinte. Ainda não foram avisados de que a revolução está na rua. Andrade Silva chega mesmo a dizer: “Peço-lhe que não se preocupe, pois está tudo sossegado e não há qualquer problema em qualquer ponto do país.”

O último objetivo importante, o aeroporto da Portela, demorou um pouco mais a tomar, de tal forma que o posto de comando teve de decidir atrasar a emissão do primeiro comunicado do MFA no RCP por meia-hora. As forças da EPI de Mafra atrasaram-se: perderam-se no caminho. O capitão Costa Martins já tinha convencido o pessoal do Aeródromo-Base 1 de que estavam cercados, mas era bluff. Quando a EPI chegou, Costa Martins foi à torre de controlo e deu ordens para a interdição do espaço aéreo português. O aeroporto (Nova York) estava controlado às 4h20.

Minutos depois, pela voz do jornalista Joaquim Furtado, que estava casualmente de serviço naquela noite, ouviu-se pelo RCP o primeiro comunicado do MFA: “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas”...

O estado a que isto chegou!

Voltemos um pouco atrás, para acompanhar a mais famosa coluna militar da história do 25 de Abril. À 1h30 da manhã, o capitão Salgueiro Maia manda acordar todo o pessoal da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e formar na parada. Diz-lhes: "Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."

“A unidade mais mediática do 25 de Abril, a EPC, não tinha missão”, recordaria Otelo anos depois. “A finalidade era atrair, como se fosse mel, as forças governamentais. Surtiu efeito. 

Todos querem ir para Lisboa, mas não podem. Dos 500 militares em serviço, 240 seguirão diretos para o Terreiro do Paço.

“A unidade mais mediática do 25 de Abril, a EPC, não tinha missão”, recordaria Otelo anos depois. “A finalidade era atrair, como se fosse mel, as forças governamentais. Surtiu efeito. Eu disse ao Salgueiro Maia: 'Traz-me o maior número de blindados que possas arranjar. Pões a tropa toda em cima, com os arreios à maneira, capacete, arma, metralhadoras, tudo. Vens pelo itinerário mais importante da capital: chegas às cinco da manhã com aquele estardalhaço todo… e acampas no Terreiro do Paço. Pões ali a tropa toda'. 'E o que é que faço depois?', pergunta-me ele. 'Pões um pelotão a guarnecer o Banco de Portugal, outro a guarnecer as instalações da Marconi e ficas ali'. 'Para quê?'. Lá lhe explico: 'Para atraíres gente, vem Cavalaria 7, as unidades todas da capital, a PIDE… e tu aguentas com os blindados. Se por acaso vires algum ministro num gabinete do Terreiro do Paço, vais lá e prendes o tipo'. A missão para cumprir era esta.”

Às 5h30, a coluna de Salgueiro Maia entra em Lisboa e antes das seis toma posição no Terreiro do Paço. Um pelotão da RC 7 e dois do RL 2, que tinham sido enviados para defender o Ministério do Exército, aderem imediatamente ao movimento e põem-se às ordens de Salgueiro Maia. A 1ª Divisão da PSP também aceita as ordens do capitão para descongestionar o trânsito.

Reação atabalhoada

Àquela hora, o alarme já fora dado e as forças governamentais tentavam montar uma resposta. O primeiro alerta ocorrera às 3h30, quando o comandante da PSP do Porto, coronel Santos Júnior, tomou conhecimento da ocupação do QG da Região Militar Norte e comunicou com o Comando da GNR. Ao mesmo tempo, nem todo o plano corria bem: em Lisboa, as operações de comandos para intercetar os comandantes do RC 7 e do RL 2 falharam quase todos, exceto uma que apanhou o major Saraiva do RC 7 e o levou detido ao posto de comando. Foi justamente a partir desses dois regimentos, como Otelo previra, que se montou a principal reação das forças governamentais.

Às 6h45, sai da Ajuda uma força de cinco carros de combate M/47 e autometralhadoras Panhard rumo ao Terreiro do Paço, comandadas pelo brigadeiro Junqueira dos Reis. Ao mesmo tempo, uma força da GNR com 12 Land Rovers é enviada para atacar as forças de Maia a partir do Campo das Cebolas. Mas o primeiro pelotão de reconhecimento das forças governamentais, comandado por Ferrand de Almeida (um dos que escapara da ação de comando), rende-se; e as tropas da GNR dão ao capitão Maia garantias de que não irão atacar.

O capitão poderia ter detido de imediato os ministros da Defesa e do Exército e outros membros do governo que estavam no Terreiro do Paço, mas pede ao posto de comando o envio de um oficial superior para poder fazer as prisões: “Informo considero preferível motivo eu ser só capitão”, diz, pelo rádio. “Ó c’um caraças, precisas de um oficial superior para prenderes o general? Estamos em revolução, pá”, terá respondido Otelo, mas acede ao pedido e envia o tenente-coronel António Correia de Campos. Tarde demais. Os ministros mandam abrir a picareta um buraco na parede que separava o Ministério do Exército da biblioteca do Ministério da Marinha, e fogem, do estacionamento deste último, para o RL 2.

 “Ó c’um caraças, precisas de um oficial superior para prenderes o general? Estamos em revolução, pá”

Por volta das 9h, o efeito de isca exercido pelas tropas de Salgueiro Maia volta a funcionar. A fragata Almirante Gago Coutinho, que integrava uma força da Nato, recebera ordem do Vice-Chefe do Estado Maior da Armada para abandonar a formatura e vem colocar-se frente ao Terreiro do Paço, ameaçando as forças revoltosas. Do posto de comando, Maia recebe ordens para abrigar as suas tropas debaixo dos arcos e avisar a multidão que já ali se concentrava do perigo que corria. Ao mesmo tempo, a bateria de artilharia de Vendas Novas, que tomara posição na colina do Cristo-Rei para ameaçar alvos como o quartel do Monsanto, onde se esperava que se refugiasse Marcelo Caetano, recebe ordens para se preparar para fazer fogo sobre a fragata. O comandante do navio ordena então que seja dada às peças a máxima elevação, para mostrar às tropas do Terreiro do Paço que as suas intenções não são hostis. O próprio almirante que dera a ordem à fragata cancela-a, persuadido pelo comandante Vítor Crespo, que fala com ele diretamente do posto de comando. Mais uma ameaça séria fora debelada.

Às 10 horas, dá-se a última tentativa das forças do brigadeiro Junqueira, que avança pela Avenida Ribeira das Naus. Salgueiro Maia dirige-se a eles com um lenço branco. O brigadeiro ordena-lhe que vá para a retaguarda da sua força. Salgueiro Maia propõe que falem a meia distância. O brigadeiro, fora de si, ordena ao aspirante Sottomayor que abra fogo, mas este recusa e de imediato ouve voz de prisão. Dá de seguida a mesma ordem aos apontadores dos carros de combate que não obedecem. Isolado, Junqueira vai à Rua do Arsenal, onde estava o resto da sua coluna, e bate em retirada.

"Senhor Presidente, a Revolução está na rua!

Marcelo Caetano fora avisado às 5 horas da manhã pelo diretor da Pide, Silva Pais: "Senhor Presidente, a Revolução está na rua! O caso é muito grave. Os revoltosos ocuparam já as principais emissoras de rádio e a televisão e tomaram o Quartel General da Região Militar de Lisboa. Caçadores 5 está com eles." Pouco depois, recomenda-lhe que “vá para o quartel do Carmo, que a GNR está fixe." Marcelo, desorientado, aceita.

O largo do Carmo será, assim, inesperadamente, o cenário do desenlace final da revolução. O local era o pior possível: a GNR não tinha poder de fogo para enfrentar os revoltosos, e não havia acesso aéreo. O quartel era facílimo de cercar. Marcelo Caetano fora-se meter numa ratoeira. Depois de entrar, só conseguiria sair se a revolução fosse derrotada. Ou preso.

Às 11h30, as forças de Salgueiro Maia, muito reforçadas pelas rendições do RC 7 e do RL 2, já nada tinham a fazer no Terreiro do Paço. Não havia mais forças governamentais a atrair. Tratava-se agora de conseguir a rendição do governo. As forças do local dividem-se, e, enquanto uma parte vai para a Penha de França garantir a rendição da Legião Portuguesa, Salgueiro Maia desloca-se para o Carmo com as suas tropas, seguido de uma enorme multidão. Por essa altura, já todos os acontecimentos eram seguidos por milhares de pessoas, que ignoravam os apelos dos comunicados do MFA para que ficassem em casa. O golpe contava com um apoio popular entusiástico.

O posto de comando orienta o capitão Maia a dar um ultimato com megafone e, se não for atendido, disparar “para verem que é a sério”.

O posto de comando entra em contacto com o chefe do Estado-Maior da GNR, coronel Ângelo Ferrari, para lhe exigir a rendição e a entrega de Marcelo Caetano a Salgueiro Maia. O coronel tenta ganhar tempo, diz que o presidente do Conselho “quase de certeza não está aqui.” O posto de comando orienta o capitão Maia a dar um ultimato com megafone e, se não for atendido, disparar “para verem que é a sério”.

Salgueiro Maia cumpre a ordem. Manda disparar rajadas de metralhadora para o alto, só para partir vidros e assustar. Mas não resulta. Prepara-se para abrir fogo pesado e destruir as paredes do quartel, quando surgem inesperadamente dois autonomeados “mediadores” que dizem ter credenciais do general Spínola: Nuno Távora, chefe de gabinete do Secretário de Estado da Informação e Turismo, e Feytor Pinto, Director Nacional da Informação, que pedem para ser conduzidos a Marcelo Caetano. Salgueiro Maia acredita e leva-os à porta do quartel. Marcelo Caetano, que estava acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, e pelo adjunto militar, aceita render-se a Spínola, afirmando que: "assim o poder não cai na rua".

Os dois “mediadores” vão então a casa de Spínola, num jipe cedido por Salgueiro Maia. O general aceita a incumbência, mas despista os “mediadores”, dizendo que só aceita ir ao Carmo se for contactado por alguém do Movimento com posto superior a tenente-coronel. Foi uma maneira de se ver livre dos dois, que saíram em busca de um impossível coronel ou brigadeiro do MFA, enquanto Spínola ligava diretamente para o posto de comando e recebia de Otelo, depois de rápida consulta, o mandato de aceitar a rendição de Marcelo Caetano.

Às 19h30, já escurecia quando saiu do quartel do Carmo a autometralhadora Chaimite levando Marcelo Caetano, Rui Patrício, César Moreira Baptista e outros membros do Governo. A multidão, eufórica, comemorou. Foi o momento simbólico da queda do regime.

A jornada, que até então decorrera sem baixas, não termina sem um episódio sangrento, justamente devido a um dos pontos em descoberto do plano de operações. Agentes da Pide, vendo a sua sede cercada pela população que gritava “Morte à Pide”, abriram fogo de metralhadora, matando quatro pessoas e ferindo 45. A Pide só se renderia às 9h do dia 26.

Seis dias depois, a grande manifestação do Primeiro de Maio em Lisboa mostrava que o golpe de Estado desencadeado pelos militares rebeldes se transformara numa grande revolução. Mas isso já é outra história.

Versão reduzida de artigo publicado originalmente no último volume da coleção “Os Anos de Salazar”, edição da Planeta Agostini e Correio da Manhã, e do artigo publicado pelo autor na coletânea “Revolução ou Transição? – História e memória da revolução dos cravos”.

Artigo publicado a 23 de abril de 2014 no esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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