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António Barreto e o crime social do “cabrito com batatas”

Barreto, a meio da entrevista, revela o seu síndrome Medina Carreira e esclarece-nos que a tormenta principal da nossa vida coletiva é o “cabrito com batatas”. Não, não é um erro de citação. Segundo o próprio, este desvio gastronómico empurra-nos para o abismo.

A crise tem sido fértil na produção de frases feitas e da atualização enriquecedora do senso comum. A formulação extremamente simplificada de conceitos e noções gerais sobre a vida em sociedade, em todos os seus campos, mas principalmente no tocante à crise económica e aos seus fundamentos atingiu, nestes últimos anos, o seu auge. 

Se por um lado, são exemplificativos como a elite não tem pruridos em reproduzir mentiras facilmente absorvidas, através dos seus aparelhos ideológicos, por outro, na sua maioria revelam pelo conteúdo a tida simpatia pela ordem similar à de outros tempos de um setor que, sendo amplamente minoritário, domina os principais canais de transmissão de ideias na sociedade portuguesa.

Do “não há dinheiro” ao “vivemos acima das nossas possibilidades”, os soundbytes mais curtos que uma sms ou um tweet, culpabilizam o desgoverno individual pela falha coletiva, atribuindo uma coerência geral ao momento de crise que o país enfrenta. Ou seja, de forma sucinta a mentira repetida fez crer que um pequeno país periférico como Portugal, historicamente mal qualificado nos demais indicadores sociais europeus e mundiais, com mão-de-obra barata e de rendimentos baixos, necessitou de um “resgate” financeiro por que “cada um de nós” gastou demasiado dinheiro e, por isso, tínhamos que ser castigados, o que se traduz em redução salarial direta e indireta.

Para essa noção geral, o contributo de personalidades reputadas do bloco central português foi determinante, chegando em vários momentos a atingir a provocação mais grosseira e violenta, recordemo-nos do banqueiro Ulrich com o seu “se o país aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta!; ou “não podemos comer bifes todos os dias” de Isabel Jonet, e a sua mais recente explicação para o desemprego: “o pior inimigo dos desempregados são as redes sociais. As pessoas ficam desempregadas e ficam dias inteiros agarradas ao Facebook, a jogos, a amigos que não existem”.

A revista sobre o 40 anos do 25 de abril do Expresso da passada sexta-feira (18-04-2014) brinda-nos com mais um cabaz de ideias feitas e afirmadas com uma simplicidade cristalina, que não sendo novidade, demonstra-nos como alguém que de formação é sociólogo pode, sem pestanejar, discorrer tanto disparate conservador numa só entrevista.

Em jeito de balanço dos últimos quarenta anos de democracia e da revolução de abril, António Barreto aponta no que na sua autorizada opinião são as razões de todos os nossos problemas.

Para aperitivo, afirma imediatamente que a Constituição portuguesa, como não era de esperar outra coisa, é “um absurdo, é arcaica, obsoleta e não resolve problemas”. Porquê? Para além de até o PSD ter dias em que a defende, elucida-nos umas linhas à frente que promove um “regime político que faz-se deixando toda a gente viva, o que é uma coisa boa, mas impedindo que haja sidonismo, comunismo, liberalismo, propriedade privada a não ser que seja muito limitada”.

Lidas estas declarações do senhor da fundação Pingo Doce, ficámos certamente todos curiosos em descobrir os dados, estatísticas e estudos que demonstram a aparente estrutura estatista e dirigista operante num país em que até o mar é privatizado. Não posso, no entanto, deixar de ver com bons olhos os elogios do Dr. Barreto ao facto de em Portugal se deixar “toda a gente viva”. Pelo menos, seguindo a análise do supracitado, temos essa vantagem em relação à Constituição da Guiné Equatorial.

Mas, às vezes mesmo quando a esmola é pequena vale a pena desconfiar, lamenta-se ainda por ser “proibido ser racista” e “propagandear o fascismo”. No seu entender, apesar da ressalva de ser contra o racismo ou o fascismo, considera que “estas coisas não se proíbem”, porque “esta coisa” de o Estado estar obrigado a combater a discriminação e a promover o tratamento igual independentemente da “razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”, é uma bodega arcaica. E os carpidos “curiosos” continuam, apesar de nas próximas eleições termos 18 partidos a concorrer às eleições europeias, Barreto entende sublinhar que “nós temos tão pouca sociedade civil e tão pouca vontade política que nem extrema-direita temos”. Por isso, façamos todos o favor de olhar cheios de inveja para as sondagens francesas.

Para não defraudar expetativas, Barreto, a meio da entrevista, revela o seu síndrome Medina Carreira e esclarece-nos que a tormenta principal da nossa vida coletiva é o “cabrito com batatas”. Não, não é um erro de citação. Segundo o próprio, este desvio gastronómico, que nos empurra para o abismo, significa que “há um conjunto de razões que nos levaram a falhar. A voracidade económica, política e social nos primeiros dez ou 20 anos da democracia… Os portugueses portaram-se como se não tivessem filhos ou netos, como se não viesse ninguém atrás. E era muito fácil passar cheques com dinheiro da Europa ou com o dinheiro das reservas que ainda havia. (…) Houve realmente a ilusão de que o dinheiro chegava para tudo. Criou-se a ilusão de que podíamos viver à custa da Europa, dos empréstimos e da dívida. Depois houve uma voracidade política. Há uma total impossibilidade de conseguir acordos, nos variados momentos difíceis que temos vivido. Todos os países europeus viveram momentos e que foi preciso juntar 3, 4 partidos. A democracia portuguesa fundou-se na base da demagogia, da pura promessa eleitoral, do cabrito com batatas. Prometer o que não podes dar, paga com dinheiro que não é nosso, etc…”

Talvez conviesse ter em conta, principalmente para quem faz da sociologia profissão, algumas convenções políticas que marcaram determinantemente o rumo do país e moldaram o regime. Todas as revisões constitucionais foram fruto de acordos parlamentares interpartidários alargados, é necessária uma maioria de 2/3 para o efeito, o mesmo se passou com a subscrição de todos os tratados europeus e consequentes fases da integração portuguesa na atual União Europeia e, ainda recentemente, o memorando da troika foi subscrito por três partidos, PS, PSD e CDS. Ou escapou também este pequeno detalhe ao Dr. Barreto, ou não lhe basta para nos livrarmos definitivamente desse culto obsoleto do cabrito com batatas.

Por isso já sabe, se na presente quadra festiva estiver pela Beira Alta, pense duas vezes antes de comer este prato típico, pode estar a compactuar “com as razões que nos levaram a falhar” ou a negligenciar os “seus filhos e netos”.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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