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Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiveres triste

Gabriel Garcia Marquez visitou Portugal em 1975. Viveu um país onde “toda a gente fala e ninguém dorme”.

Um país singular, onde se ambicionava “inventar um socialismo à portuguesa”, que Garcia Marquez, otimista, achava possível concretizar. Escreveu nesses anos que “o desafio é enorme, mas estou convencido, modestamente, que vão consegui-lo”. Eram tempos de esperança, esses, que já fazem quarenta anos. Poucos anos depois da Revolução de Abril, Portugal debateu-se com a possível adesão à CEE. Garcia Marquez dizia a esse propósito que “Portugal está condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo”. Tinha razão.

Gabriel Garcia Marquez dizia, a propósito da adesão à CEE, que “Portugal está condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo”

Os tempos que se seguiram à adesão de Portugal à CEE vieram marcar muito do que somos. De facto, a adesão exprimia socialmente um desejo de abertura ao mundo, depois de meio século fechados no cinzentismo assassino de uma ditadura fascista. Por essa altura, em 1981, os acabados de chegar à música portuguesa Grupo Novo Rock (GNR) exprimiam essa vontade no seu single de estreia, em que “queriam ver Portugal na CEE”. Esse single vendeu 15 mil cópias e trazia um rock de influência europeia que inaugurava um cosmopolitismo na música portuguesa até então apenas presente em grupos algo marginais da década de 70 como os Arte & Ofício ou os Tantra.

Mas se para os GNR chegar à Europa significava ter PA´s para vozes, ter uma Fender e fazer música cosmopolita, para Portugal a Europa foi muito mais que isso. Foi um projeto que nos prometeu a urgência de uma civilização desenvolvida assente numa ideia moderna de Modelo Social Europeu. Um projeto que se baseava na promoção da paz, em Estados Providência fortes para proteger os mais pobres, economias sustentáveis e combate às desigualdades. Essa promessa foi sempre, como escrevia Pessoa, um “cadáver adiado que procria”.

Enquanto se foi oficializando a morte da Europa da solidariedade entre povos, procriaram-se políticas de destruição absoluta do aparelho produtivo português, apoiaram-se as guerras mais absurdas do mundo contemporâneo e desenvolveu-se uma Europa a várias velocidades, controlada por um capital financeiro especulativo que condenou os países periféricos à miséria. Foi esse projeto liberal de Europa que a Esquerda sempre combateu. Contra um projeto da finança europeia cujo objetivo era (e é) destruir a Europa. Portugal, como escrevia Garcia Marquez, sentado à mesa dos ricos com sapatos rotos e casaco remendado, foi assistindo, quase sempre complacente, à sua destruição económica e à consumação do fim de qualquer ambição democrática para a Europa.

Para Portugal a Europa foi um projeto que nos prometeu a urgência de uma civilização desenvolvida assente numa ideia moderna de Modelo Social Europeu. Essa promessa foi sempre, como escrevia Pessoa, um “cadáver adiado que procria”

Nestes quarenta acelerados anos, Portugal mudou muito. Longe vai esse Portugal onde Gabriel Garcia Marquez viu um “erotismo que invadiu os cinemas, os quiosques de jornais, fazendo com que milhares de espanhóis atravessem ao fim de semana a fronteira para poderem ver o filme mais proibido em Madrid, ‘O Último Tango em Paris’”. Longe vai esse Portugal onde os portugueses andavam tão contentes com a liberdade que “deixaram de respeitar os semáforos”.

Na Quinta-Feira passada fugiu-nos Gabriel Garcia Marquez. Mas continuará vivo, nas páginas que escreveu e que inspirou e nos sonhos que ajudou a cultivar. Deixa-nos a solidez de uma literatura sem fronteiras e um otimismo imenso: nos livros, como na vida, é possível vencer o destino e ser determinante. Há quarenta anos, o povo português soube também ser determinante. Dessa determinação deu conta Garcia Marquez. Durante esses anos conquistou-se a vida. Conquistou-se o direito à educação, à saúde, ao voto, à liberdade na sua plenitude, à segurança social, à democracia cultural e à igualdade. Hoje é também de determinação que se precisa. Uma corja de gente que governa este país e esta Europa tem um projeto claro para destruir a Constituição Portuguesa que nos protege os direitos, para arrasar os serviços públicos e para acabar com a justiça social.

Celebrar 40 anos de Democracia é também lembrar aquilo que Garcia Marquez nos deixa. Como ele dizia, “nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiveres triste, porque nunca se sabe quem se pode apaixonar pelo teu sorriso”

Celebrar 40 anos de Democracia é também lembrar aquilo que Garcia Marquez nos deixa. É certo que vivemos retrocessos imensos e que a vida se torna desesperante. Mas, como ele dizia, “nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiveres triste, porque nunca se sabe quem se pode apaixonar pelo teu sorriso”.

Perante a destruição do nosso país, perante a devastação dos direitos sociais e perante o autoritarismo de uma Europa controlada pelo capital financeiro, é preciso lutar, sorrir e dar esperança. O conformismo e o medo encontram sempre no otimismo da vontade o seu mais difícil adversário.

 

Mesmo nos tempos de derrota, se os lutadores e os justos não cultivarem a esperança, o mundo será um lugar ainda pior. É contra esse mundo pior que nos erguemos hoje. Foi também contra esse mundo que se ergueu Gabriel Garcia Marquez.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e investigador
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