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Emigramos mas não desistimos

De nós nada se espera. De nós se diz que desistimos, que fugimos dos problemas do nosso país. Ou então, diz-se que somos jovens aventureiros, novos rebeldes desbravando o mundo fora da “zona de conforto” por puro hobby. Mentira. Fomos expulsos.

Esta semana foi lançado o manifesto Emigramos mas não desistimos, fruto da organização de um grupo social de que não se espera nada, de que todos se esquecem. Os novos emigrantes portugueses, que desde há alguns anos começaram a se espalhar pelo mundo, eram os grandes ausentes do debate político nacional. Como se fosse possível ignorar o número oficial recorde de 121 mil emigrantes, só no ano passado, que já ultrapassou os números dos anos 60, estudados nas escolas como sendo a maior onda emigratória portuguesa.

De nós nada se espera. De nós se diz que desistimos, que fugimos dos problemas do nosso país. Ou então, diz-se que somos jovens aventureiros, novos rebeldes desbravando o mundo fora da “zona de conforto” por puro hobby. Mentira. Fomos expulsos. Somos exilados a quem, por deliberada opção política da classe dominante, não se permitiu fazer parte da vida em Portugal. As políticas de austeridade impostas pelo Tratado assinado por PS, PSD e CDS destruiu o que restava da nossa débil economia, tornou a precariedade regra e impediu-nos de devolver ao nosso país o que a Educação Pública nos ofereceu.

Temos que chamar os bois pelos nomes. Passos Coelho, Paulo Portas, José Sócrates e José António Seguro, entre outros. São eles os culpados. Já chega de meias palavras, falsas promessas, austeridade “inteligente” de partidos socialistas que se venderam abertamente ao capitalismo. Queremos regressar e não perdoamos quem cortou as pernas ao nosso futuro. Reconhecemos que a única forma de regressar é aproveitando as ferramentas que o mundo de hoje nos dá para nos organizarmos. Gente de Paris, de Berlim, de São Paulo, de Londres, do Cambodja, construiu este manifesto com uma vontade e uma certeza: se todos batermos o pé, Portugal vai sentir.

Esta é a nossa oportunidade. Vamos construir uma força social à esquerda que recuse o estado depressivo a que as coisas chegaram. Vamos construir algo novo, uma política nova, que derrube o obscurantismo da austeridade, que combata as separações familiares que tanto nos doem, as saudades das amizades que tanto prezamos. As eleições europeias são a oportunidade de começar esta marcha em direção à solução. Um primeiro passo é irmos votar, e não votarmos nos nossos capatazes, aqueles que fazem pais morarem na Suíça para pagar as propinas dos filhos, que fazem filhas irem para o Brasil fugir dos estágios não-remunerados. Nós emigramos mas não nos calamos, e tu?

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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