You are here

Paulo Macedo: cortar é comigo

Ao contrário da propaganda governamental não está em curso qualquer reforma do SNS. Fechar e concentrar serviços e hospitais não é reforma. Atrasar a criação de novas USF não é reforma. Adiar a rede de cuidados continuados não é reforma. Não fazer qualquer investimento no SNS não é reforma. Artigo de João Semedo
Foto de Nuno Veiga/Lusa
"Claro que há quem aplauda Paulo Macedo, os hospitais privados e as misericórdias". Foto de Nuno Veiga/Lusa

A estratégia do governo em matéria de saúde é simples: reduzir o SNS a uma miniatura e caricatura daquilo que é hoje, para reduzir a despesa do estado com a saúde dos portugueses. O governo aumenta os impostos mas reduz os serviços públicos à disposição dos cidadãos contribuintes. A oferta pública diminui para ir, gradualmente, aumentando a oferta privada e os seus lucros. Por exemplo, o grupo BES Saúde regressou aos lucros, em grande parte devido ao aumento do número de doentes que vão aos hospitais do grupo BES mas, sobretudo, como reconhece a sua administração pelos ganhos obtidos com a gestão e exploração do novo hospital de Loures construído em PPP.

O governo fez três orçamentos. No conjunto cortou 1,6 mil milhões no SNS. Diz o ministro da saúde que alguns cortes são mesmo uma obrigação, são mesmo uma questão ética. A que se refere o ministro? Há alguma ética em cortar nos transportes dos doentes ou em  racionar medicamentos contra o cancro? Qual a razão ética para fechar a MAC? Poupar na saúde e bem estar dos doentes é o contrário de qualquer ética. Paulo Macedo está mais preocupado com os credores do que com os doentes.

Ao contrário da propaganda governamental não está em curso qualquer reforma do SNS. Fechar e concentrar serviços e hospitais não é reforma. Atrasar a criação de novas USF não é reforma. Adiar a rede de cuidados continuados não é reforma. Não fazer qualquer investimento no SNS não é reforma. Nada disto ajuda o SNS, tudo isto prejudica o acesso ao SNS. Menos acesso e maiores listas de espera são hoje as marcas desta governação.

Paulo Macedo é um ministro politicamente fraco, que anda a reboque dos acontecimentos e não tem capacidade para conduzir o SNS nem para se impor ao primeiro ministro e à troika batendo o pé a mais cortes na saúde. Gerir um orçamento é uma coisa, gerir o SNS é outra bem diferente. Paulo Macedo tem sido um mau ministro da saúde. Cortar, cortar, cortar, não faz uma política de saúde.

O que falta a Paulo Macedo em política de saúde, sobra em promessas: novo hospital em Lisboa, todos os portugueses com médico de família, entre as mais sonoras promessas. Antevendo-se o fim do mandato, não é difícil prever que todas ficarão por cumprir.

Claro que há quem aplauda Paulo Macedo, os hospitais privados e as misericórdias. Os privados porque não param de aumentar os seus lucros, apesar da crise, e as misericórdias porque vão receber, sem saber ler nem escrever, uma série de hospitais para gerir e explorar. Sem esquecer a troika, em nome da qual Paulo Macedo desgoverna o SNS.

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
(...)

Resto dossier

Troika: Há 3 anos a tratar-nos da Saúde

Com o intervenção da troika intensificaram-se os cortes orçamentais, os despedimentos de profissionais do Serviço Nacional de Saúde e a precarização laboral. Neste mesmo período, os grupos privados de saúde viram os seus lucros a subir. A receita da troika e do governo da direita colocou o SNS à beira do colapso e com isso agravou a saúde dos portugueses.  

VIH e políticas de saúde

Gastamos em tratamentos (medicamentos, análises, pessoal técnico de saúde, etc.) mais de 300 milhões de euros por ano e alocamos menos de 5 milhões na área da prevenção. Tal como noutras situações, continuamos a reagir em vez de prevenir. Artigo de Luis Mendão, Daniel Simões e Rosa Freitas

Governo agrava a saúde dos portugueses em nome da austeridade

Cortes orçamentais, intensificação do despedimento de funcionários e profissionais do SNS e crescente precarização laboral, favorecimento dos grupos privados. Esta é a receita da troika e do governo PSD/CDS-PP que se traduz na delapidação do SNS e no agravamento da saúde dos portugueses.

Paulo Macedo e a defesa do Serviço Nacional de Saúde

Durante uma audição na Comissão Parlamentar de Saúde, o ministro da Saúde afirmou que “o Governo tem orgulho de ter salvo o Serviço Nacional de Saúde”. Haverá limites para a desvergonha? Artigo de António Rodrigues.

Paulo Macedo: cortar é comigo

Ao contrário da propaganda governamental não está em curso qualquer reforma do SNS. Fechar e concentrar serviços e hospitais não é reforma. Atrasar a criação de novas USF não é reforma. Adiar a rede de cuidados continuados não é reforma. Não fazer qualquer investimento no SNS não é reforma. Artigo de João Semedo

A crise das urgências veio para ficar

A recente vaga de notícias sobre a demora no tempo de atendimento não é sazonal, não é um epifenómeno. É o resultado de decisões políticas que cortam oferta de cuidados de saúde no momento em que as pessoas mais precisam deles. Artigo de Bruno Maia.

Saúde Precária

A crescente precarização das relações laborais faz-se sentir sentir também na área da saúde: falsos recibos verdes, empresas de trabalho temporário, contratos de emprego inserção ou externalização de diversos serviços são algumas das atipias laborais que grassam também no Serviço Nacional de Saúde. Artigo de Cristina Andrade

Carta Aberta sobre a Crise da Saúde Grega

Esta carta é uma tentativa feita por individualidades e médicos gregos de diversas áreas académicas de especialização para fazermos ouvir as nossas preocupações no que se refere ao actual estado extremo dos Serviços de Saúde na Grécia.

Crise no Sistema Nacional de Saúde Irlandês

A privatização e o neoliberalismo não melhoraram os padrões de cuidados de saúde na Irlanda. Com efeito, criaram novos tipos de ineficiências que custarão vidas. Artigo de Mark Bergfeld