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O Meu País

Algumas semanas após o candidato da extrema-direita holandesa, Geert Wilders, o líder do partido da liberdade (PVV), ter afirmado sem pudor, “menos marroquinos na Holanda!” (já no ano de 2013 o governo tinha decidido cortar 40% das pensões dos cidadãos marroquinos), eu assisti ao que se chama o reverso migratório.

Nos dias que correm, certos líderes partidários europeus apelam à expulsão de cidadãos marroquinos, elevando à diabolização da população magrebina que até aqui estava protegida por tratados firmados nos idos anos 60. Tratados que os protegiam de qualquer tipo de discriminação em troca do seu suor a 5 florins nas unidades fabris ou nos quintos dos minérios. Foi muito interessante, por tudo isto, constatar que no outro lado, nesse país do Magrebe, o reverso migratório se constrói com a proeminência económica de Marraquexe ou Tânger, cidade singular na sua riqueza, cidade próxima desse céu que nos protege, universo de Paul Bowles, com a dinâmica portuária que liga e aproxima o continente europeu do africano. Falamos do principal porto marítimo de Marrocos. Principal devido à sua posição estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Consequentemente, existe agora uma emigração de franceses e espanhóis rumo a Marrocos e este fenómeno é possível numa economia enfraquecida com regras incompatíveis com o crescimento, com frontex’s que alimentam o espectro da xenofobia e o protecionismo fronteiriço.

As fronteiras deixaram de ser estanques e os aventureiros, que nas terras não têm puto vintém, lançam-se e investem com a folga do sul, sem a burocracia asfixiante e impostos, que impedem o crescimento económico e a possibilidade de reestruturar não só a dívida mas restaurar o ser humano e o malogrado sonho europeu. Durante a minha estadia com companheiros francófonos tive a oportunidade de debater o fim do ciclo Roland Barthes - Claude Lévi-Strauss. Um companheiro, professor de filosofia em Paris, que evita nestas terras a decadência do seu país natal, com os olhos sempre pousados no austro, abandonou a cidade da sua juventude estudantil, centro do estruturalismo e do fervor político para passar a ser, literalmente, uma república perdulária e escandalosa nas mãos do FN e seus seguidores. “Prefiro estar aqui com os meus próximos, agora que já não são apenas événements (há décadas atrás os conflitos nos vários países do Magrebe eram mencionados como événements). Passou a ser o meu país real.”

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e escritora a residir em Bruxelas. Candidata independente do Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu
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