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O capital no sanatório de Davos

As personagens que se reúnem no carnaval de Davos regozijar-se-ão ao escutar as suas fantasias sobre a globalização. Mas o resto do mundo estremecerá ao entender a mensagem: as coisas não vão mudar, a estagnação veio para ficar durante bastante tempo e a desigualdade continuará a piorar. Por Alejandro Nadal
"Berghotel Sanatorium Schatzalp", referido na novela “A montanha mágica” de Thomas Mann – Foto wikimedia
"Berghotel Sanatorium Schatzalp", referido na novela “A montanha mágica” de Thomas Mann – Foto wikimedia

Os ricos e famosos juntam-se em Davos para o Fórum Económico Mundial. A reunião deste ano iniciou-se ontem com uma retórica manipuladora. O triunfalismo continua intacto, mas agora encontra-se convenientemente temperado. Impõe-se a mensagem central de que a economia mundial recupera. Mas esse anúncio é suavizado com um alarde de falsa humildade, pois reconhece-se que fazem falta estruturas de governo para canalizar melhor a globalização. Nada melhor para desviar a atenção que admitir que a globalização neoliberal tem algumas falhas e que é necessário corrigi-las.

Desde há três anos fala-se com insistência em Davos dos rebentos verdes, testemunho da recuperação da economia mundial. Esses supostos rebentos vão desde a redução no desemprego nos Estados Unidos até ao facto de que já não se fala da saída da Grécia da área do euro. Diz-se que outros sinais de que a crise passou à história são a tímida recuperação na economia norte-americana e o anúncio de que a Reserva Federal continuará a reduzir o seu programa de compra de ativos e de injeção de liquidez. Por último, insiste-se em que o dinamismo dos mercados emergentes constitui um fator promissor para a economia mundial. As personagens que se reúnem no carnaval de Davos regozijar-se-ão ao escutar as suas fantasias sobre a globalização. Mas o resto do mundo estremecerá ao entender a mensagem: as coisas não vão mudar, a estagnação veio para ficar durante bastante tempo e a desigualdade continuará a piorar.

A análise dos sinais vitais da economia mundial confirma que os rebentos verdes são uma ilusão ótica. Primeiro, a economia dos Estados Unidos ingressou numa fase de semi-estagnação que durará vários anos. A principal causa é que os agentes não páram de sair do sobreendividamento e a redução da alavancagem continuará a travar o consumo. O sistema financeiro norte-americano mantém a mesma estrutura que gerou a crise. Além disso, a guerra contra os salários continuará a ser o fator chave para explicar o colapso da procura agregada e a queda no investimento produtivo.

Ao crescimento medíocre seguir-se-á uma profunda deterioração do mercado laboral nos Estados Unidos. O desemprego em sentido amplo (que inclui os que abandonaram a procura de emprego e os que desejam um emprego a tempo completo mas não o encontram) ultrapassa hoje 14 por cento. A desigualdade nos Estados Unidos expressa o falhanço da teoria neoliberal de que a riqueza acaba por passar das camadas mais ricas para os pobres. Ou como disse o mestre do cinismo, a teoria do gotejo (trickle-down) é sempre válida porque na medida em que os cavalos dos ricos comam abundantemente, à sua passagem deixarão sempre alguns grãos nos montes de esterco.

A economia na Europa não está melhor. Enquanto a integração neoliberal não se modificar de raiz, a estagnação persistirá. A assimetria europeia está pior que nunca. A Alemanha manteve o crescimento do PIB per capita, mas o resto da Europa está estagnada ou em queda livre (sobretudo Grécia, Espanha, Portugal, Itália e até França). A austeridade travou o crescimento e levou a um problema de desemprego estrutural inédito.

A China tem um problema de forte vício de crédito. O capitalismo chinês não é diferente: o endividamento foi o motor do crescimento, mas o excesso acabou por criar uma cascata de bolhas que constitui uma grave ameaça para toda a economia. As reformas na China devem passar por um aumento da procura agregada interna. Mas isso passa por aumentar salários, o que prejudicaria a competitividade internacional. Ainda que a dita transformação estrutural tenha êxito (e isso está por se ver) na transição o crescimento será muito menor ao experimentado nas últimas duas décadas.

A importante novela de Thomas Mann A montanha mágica (1924) desenvolve-se no sanatório Berghof em Davos. Aí iam os consentidos do sistema curar-se, como recordava Naphta a Hans Castorp. Hoje o capitalismo mundial é que precisa uma cura, mas não encontrará em Davos.

O principal problema da economia chinesa é o excesso de capacidade instalada. O indicador chave é o nível de capacidade instalada não utilizada que atinge os 20 por cento numa amostra de 3.500 empresas industriais. Os piores exemplos estão na indústria de cimento, alumínio, vidro, construção naval e aço. Para enfrentar esta parte do problema, a direção chinesa impôs condições severas, entre as quais se destacam a travagem de novos investimentos. Não é a melhor receita para promover o crescimento.

Assim caem os (muito) mal chamados mercados emergentes. A Índia e o Brasil não podem constituir-se em motores da economia global. Ambas as economias enfrentam sérios problemas internos. Em Davos falar-se-á de México e Indonésia, como os novos emergentes. Mas nem são tão novos nem estão em boa saúde. As suas contradições impedem-nos de crescer de maneira sustentada.

A importante novela de Thomas Mann A montanha mágica (1924) desenvolve-se no sanatório Berghof em Davos. Aí iam os consentidos do sistema curar-se, como recordava Naphta a Hans Castorp. Hoje o capitalismo mundial é que precisa uma cura, mas não encontrará em Davos.

Artigo de Alejandro Nadalpublicado no jornal mexicano La Jornada. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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