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A faculdade deles

A faculdade baseada em políticas de direita imposta nos últimos anos, através dos sucessivos cortes e consequente aumento de propinas, é uma faculdade elitista, que exclui os estudantes que não tenham possibilidades de a pagar.

Segundo o Público, em 2006, o investimento público no ensino superior correspondia a 0,38% do PIB. Nos seis anos subsequentes, este valor manteve-se entre os 0,39 e os 0,28%, valor atingido em 2012 (o último ano para o qual existem dados). Estes dados confirmam uma tendência de desinvestimento no ensino superior assumida pelos sucessivos governos, sejam eles PS ou PSD/CDS. O desinvestimento no ensino superior não corresponde a uma medida economicista, na tentativa de cortar em tudo. Corresponde antes a uma visão ideológica do Estado-Providência e especificamente da Escola, do que deve ser e para quem deve ser.

Este desinvestimento no ensino superior levou as instituições a terem de sobreviver com receitas próprias, nalguns casos perfazendo metade das receitas globais e, nas instituições analisadas pelo Público,a média é de 40%. O Estado desresponsabiliza-se da sua função de financiar e garantir o funcionamento do ensino superior público, vendo-se as próprias instituições obrigadas a assumir esse papel. Há duas formas principais de uma faculdade ter receitas próprias: financiamentos externos (principalmente oriundo das empresas e outras organizações) e propinas (bem como outras taxas cobradas aos estudantes). A minha faculdade não é a faculdade virada para as empresas em que apenas se investe nos cursos que dão ou poderão dar lucro. A minha faculdade não é a faculdade que vira as costas a algumas ciências para se centrar nas que fazem falta no mercado de trabalho. A minha faculdade não é a faculdade que deixa de apostar na ciência e passa a apostar no mercado. A minha faculdade não é a faculdade à qual os estudantes que não têm possibilidades económicas não conseguem chegar. A minha faculdade não é a faculdade em que os estudantes são obrigados a trabalhar para poderem estudar. A minha faculdade não é a faculdade que os alunos abandonam porque já não conseguem pagar.

Mas essa é a faculdade de Nuno Crato, em grande parte de Mariano Gago e de muitos outros. A faculdade deles levou a que o Estado diminuísse cerca de 30% do investimento por cada aluno. A faculdade deles levou a que, segundo um inquérito da Comissão Europeia, cerca de 38% dos jovens queiram prosseguir os seus estudos mas não tenham possibilidade de os pagar. O governo deles levou a que 31% dos jovens não tenham tempo para estudar porque estão a trabalhar.

A faculdade baseada em políticas de direita imposta nos últimos anos, através dos sucessivos cortes e consequente aumento de propinas, é uma faculdade elitista, que exclui os estudantes que não tenham possibilidades de a pagar, uma faculdade em que os mercados são mais importantes que a ciência. O Orçamento de Estado para 2014 prevê que esta faculdade se mantenha e se agrave.

Cabe-nos a nós transformá-la na nossa faculdade.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de sociologia. Dirigente estudantil.
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