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Sete livros a metro

Este ano todos os meninos têm de ler, interpretar, caracterizar sete livros. Todos têm metas de prazer automático a cumprir. Mas as escolas públicas não têm os livros, nem sequer dinheiro para as fotocópias.

Tem de se ler muito, mesmo sem gostar. O treino precisa de ser permanente e exaustivo. Quanto mais automática se tornar a leitura, mais hipóteses a criança terá de retirar prazer.”
Nuno Crato, entrevista à revista Veja, Junho de 2013

 

— Este ano, os alunos terão de ler sete livros.

Sete? Porquê sete? Tenho a certeza de que no ano passado leram mais do que isso, todas as semanas iam à biblioteca da escola requisitar livros para ler em casa.

— Mas não podem ser uns livros quaisquer. Há uma lista. As metas para o 3.º ano obrigam a trabalhar esses sete livros na sala de aula. O Ministério diz que faz parte da Educação Literária das crianças.

— Se é obrigatório lê-los, o Ministério fornece os livros, certo? Aqui na escola há esses livros todos?

Serão precisos muitos, é que há quatro turmas de 3.º ano. E agora, com o aumento de alunos, são pelo menos noventa crianças. Para sentir o prazer de ler, é preciso pegar nos livros, folheá-los, ver as ilustrações, sentir-lhes o ritmo.

— É suposto as bibliotecas escolares terem alguns exemplares.

— Sim, mas têm?

— Aqui na escola temos um. Um exemplar de um dos sete livros que serão trabalhados na sala de aula pelos noventa alunos.

Deixem-me ver se entendi: o Ministério da Educação obriga os miúdos a ler sete livros específicos, supostamente para lhes aumentar a Educação Literária, mas não fornece um único exemplar às bibliotecas escolares. Nem tão pouco garante que as editoras têm os títulos disponíveis para quem quiser comprá-los (não têm). Se não fosse tão triste, teria imensa piada. Não bastando impor uma lista inflexível, os livros escolhidos são simultaneamente afastados da realidade de uma criança de 8 anos e estupidamente infantis em alguns casos. São apenas mais uma marca tão típica do ministro da educação mais cinzento e antipedagógico do pós 25 de Abril. Um ministro tão discriminatório. Tão fascista.

Aí está o rigor das metas. Vale a pena lê-las, mais não seja por serem um exemplo tão cristalino da política educativa de Nuno Crato. O tal “rigor” consiste em objetivos impraticáveis, que deitam por terra todo o trabalho já iniciado, com base em argumentos falsos. Ignora-se a realidade dos alunos, dos pais, dos professores, da escola. Faz-se a escola contra a escola. Deseduca-se. Criam-se fossos entre alunos. Trabalha-se para as elites. É o sonho cratiano, que o Ministro já nem tem pudor em disfarçar: “a utopia do igualitarismo, essa que muitos na educação defendem, só seria possível num único e não desejável cenário: aquele em que todos são medíocres”, diz o pior Ministro da Educação dos últimos 40 anos.

Este ano todos os meninos têm de ler, interpretar, caracterizar sete livros. Todos têm metas de prazer automático a cumprir. Mas as escolas públicas não têm os livros, nem sequer dinheiro para as fotocópias.

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