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Apontamento sobre a “alma portuguesa”

Classifico de aterradoras e reacionárias as declarações do Ministro Marques Guedes sobre Eusébio como símbolo “da alma portuguesa”, do “ser português” e da “essência nacional”.

Que fique claro: considero que Eusébio era um futebolista notável que nos deu imensas alegrias. Estava muito além dos vários aproveitamentos políticos que do seu trabalho se fizeram e do paternalismo serôdio com que tantas vezes foi tratado. Não partilho igualmente de qualquer sentimento elitista contra o futebol, nem considero que o Panteão deva ser um mausoléu de ilustres representantes da cultura erudita. Acho apenas que não faz sentido e que representa uma conceção museológica, fixista, bafienta, obsoleta e conservadora de pátria e de imortalidade.

Do mesmo modo classifico de aterradoras e reacionárias as declarações do Ministro Marques Guedes sobre Eusébio como símbolo “da alma portuguesa”, do “ser português” e da “essência nacional”. Não sei o que isso é, mas conheço os usos ideológicos de tais representações como forma de criar uma narrativa (como agora se diz) sobre o consenso capaz de anestesiar os conflitos concretos e de fazer esquecer memórias sombrias. A “alma portuguesa” inclui a guerra colonial e os massacres de Wiriyamu e Juwau? O “ser português” contempla o racismo, a xenofobia e a persistente discriminação de contornos étnicos? A “essência nacional” são os “brandos costumes”? Os que nos dirão sobre isto os negros, os ciganos, os pobres?

Todos estes usos visam paralisar a história e o que nela é polémico, assim como promover uma amnésia coletiva sobre os mecanismos de produção de preconceitos e dos próprios sistemas de desigualdades. Por isso a esquerda não pode compactuar com estes discursos, sob pena de anular a sua razão mais radical.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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