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Lições de António Balduíno para 2014

Agora que se inicia um novo ano, aprendamos com António Balduíno, lutemos para nos libertar!

António Balduíno, baiano, foi criado no morro. É nas raízes das tradições desse local que frequenta macumbas, que ganha fé no candomblé, que aprende a harpejar e a apreciar – e um dia, mais tarde, a compor – sambas; é aqui que se torna amigo de pai de santo...

António Balduíno é um negro pobre no Brasil da década de 30. Fica sozinho depois da tia enlouquecer e depois de ter sido expulso da casa do comendador por causa de uma intriga que envolvia Lindinalva, que será sua paixão permanente, independentemente das muitas mulheres com quem se relacionou.

Na rua, depois de expulso da casa do comendador, Balduíno juntou-se a um grupo de outros rapazes como ele: pobres, sem-abrigo ou de famílias negligentes. Pediam na rua, armavam esquemas, procediam a pequenos roubos. Cresceram e António Balduíno foi boxeur, depois quase escravizado numa plantação de tabaco. Fugiu e tornou-se saltimbanco, acompanhando um circo falido, de gente pobre.

Balduíno era um indigente, talvez aquilo a que Marx chamaria lumpemproletariado. Odiava o trabalho, a política, claro!, desprezava os que, ainda que da mesma condição e classe, se vergavam perante um trabalho regular. Balduíno vivia de esquemas e biscates, queria uma vida de noites fartas em mulheres e cachaça.

É então que, a muito custo, se emprega como estivador. Isto depois de reencontrar Lindinalva que no leito de morte lhe confiou o seu filho. Perante a necessidade, tornou-se óbvia a condição materialista de sua vida também, o que o levou a empregar-se no porto, carregando a carga dos navios.

Estoira a greve na cidade e Balduíno torna-se um dos seus líderes.

E, Jorge Amado, autor do romance Jubiabá, onde fomos buscar a história de António Balduíno, diz assim, no fim desta epopeia de negro heroico:

“Aqueles homens, que António Balduíno sempre desprezara, como escravos incapazes de reagir, paralisaram toda a vida da cidade. António Balduíno pensava que ele e os seus malandros, desordeiros que viviam de navalha em punho, é que eram livres, fortes e donos da cidade religiosa da Baía. E esta sua certeza fizera que ele ficasse triste e quase suicida quando teve que trabalhar nas docas. Mas agora ele sabe que não é assim. Os trabalhadores são escravos mas estão lutando para se libertar”.

É uma convicção de que o trabalhador se liberta na luta de classes, de que o indigente pode parecer livre mas não o é, de que o trabalhador pode parecer escravo, mas que a sua libertação está na luta feita no seio do trabalho! Balduíno passa da condição de subproletário a proletário, é na experiência da luta coletiva que é a greve que ganha consciência, é aqui que se forma identitariamente. É com a greve e com os seus feitos na greve que ganhará, finalmente, o seu sempre desejado ABC.

O romance, em si, não passa disso: um romance! Mas conseguimos olhar em redor, na realidade austeritária, neste modelo que o capitalismo quer impor, e fazer tantas comparações, paralelismos...

Veja-se só a relação sujeito-trabalho-liberdade. António Balduíno aprendeu com a sua vida e a sua experiência que a liberdade não era o que tinha no tempo de vagabundagem. Que a liberdade era a luta no seio do trabalho.

Hoje é, efetivamente, a falta de trabalho que escraviza. E não é por acaso que o capitalismo quer tornar o desemprego estrutural, nem é por acaso que se têm reduzido (prevê-se que se queira reduzir ainda mais) os apoios àqueles que estão desempregados. Não é para os libertar, obviamente. É para os prender. Para que se escravizem. No Japão, não estão a utilizar desempregados e sem-abrigo para fazer a limpeza de lixo nuclear? Não estão a utilizá-los, pagando abaixo do salário mínimo, expondo-os a um perigo mortal, sem qualquer proteção ou medida de segurança? Porquê? Porque a falta de trabalho escraviza!

Mais presos, frágeis e escravos estão também todos os que se individualizaram, os que se alhearam da participação política e social, os que não têm consciência de pertencer e partilhar condições com outros iguais a si: a sua classe! Lembremos que o lumpemproletariado de Marx não era uma categoria que se definia apenas pelos baixíssimos rendimentos ou pela falta de salário (abaixo dos rendimentos dos proletários, entenda-se); definia-se também pela falta de consciência de classe, pelo individualismo (às vezes oportunista, outras vezes meramente niilista).

Vem isto a propósito de uma peça no jornal Públicosobre a geração mais qualificada de sempre, mas que parece estar a afastar-se da política e da participação política. A ser assim, está então condenada a um maior servilismo. Porque é isso que acontece quando nos individualizamos. Não ganhamos liberdade, acumulamos servidão!

Agora que se inicia um novo ano, aprendamos com António Balduíno, lutemos para nos libertar!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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