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Morreu o "pai do planeamento familiar"

Albino Aroso, médico fundador da APF, responsável pela introdução das consultas de planeamento familiar nos centros de saúde, e que em muito contribuiu para a queda da mortalidade infantil em Portugal, morreu nesta quinta feira em casa, no Porto, aos 90 anos.

“Viveu uma vida muito cheia e morreu serenamente”, avançou Miguel Aroso, um dos oito netos do ginecologista, citado pelo jornal Público.

Nascido em Canidelo, Vila do Conde, em 22 de fevereiro de 1923, numa família de lavradores, Albino Aroso Ramos era o terceiro de uma família de seis filhos que cedo ficaram órfãos de pai.

Concluindo a licenciatura em Medicina em 1947 com 16 valores, ingressou, em agosto de 1948, no Hospital Geral de Santo António, onde mais tarde veio a desempenhar o cargo de Presidente do Conselho de Administração.

Em 1953, beneficiou de uma bolsa da Organização Mundial de Saúde, e, em 1956, da Santa Casa da Misericórdia do Porto, tendo oportunidade de estagiar em vários países europeus, passando por Inglaterra, Holanda, Alemanha, Suécia, Suíça e Áustria.

Regressado a Portugal, Albino Aroso participou, em 1967, na criação da Associação para o Planeamento da Família (APF), que era olhada com desconfiança pelo governo de então e pela Igreja Católica.

Dois anos depois, criou a primeira consulta pública e gratuita de planeamento familiar no Hospital de Santo António, numa época em que era proibido receitar contracetivos. Já como diretor do Serviço de Ginecologia do hospital, determinou que as mulheres que chegavam aos serviços de urgência do hospital na sequência de complicações após um aborto, e que até então eram tratadas “a frio”,  passariam a ter direito a anestesia antes da evacuação do útero.

Em 1976, então Secretário de Estado da Saúde do XI Governo Constitucional e Presidente da APF, assinou o despacho que permitiu que o Planeamento Familiar fosse introduzido nos Centros de Saúde.

Em 1987, liderou o grupo de trabalho "Comissão de Saúde Materno-Infantil" que operou a viragem nos indicadores de saúde referidos, o mais significativo dos quais foi o de tirar Portugal dos últimos lugares da Europa no indicador de mortalidade infantil para os cinco primeiros lugares do mundo, à frente de países como a Inglaterra, França e Estados Unidos da América.

Albino Aroso foi condecorado por três presidentes da República, sendo a primeira personalidade a ser galardoada com o Prémio Nacional de Saúde, em 2006. Em 2005 já tinha sido considerado pela Associação Médica Mundial um dos 65 clínicos "mais dedicados" às causas públicas em todo o mundo.

Participou ativamente na campanha de defesa do direito ao aborto no referendo de 2007.

Albino Aroso foi professor jubilado de Ginecologia/Obstetrícia no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, liderou a Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia, foi membro-honorário da Sociedade Portuguesa de Senologia e da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e também membro emérito da Academia Portuguesa de Medicina, membro da National Geographic Society e da New York Academy of Sciences.

Numa Moção aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal de Vila do Conde, em 2008, e que visava a atribuição do nome Albino Aroso, “ao espaço mais honroso (rua ou praça) nas imediações do futuro Centro Hospitalar que servirá os concelhos de Vila do Conde/Póvoa de Varzim”, a organização local do Bloco de Esquerda referia-se desta forma ao pai do planeamento familiar:

"Enquanto médico e cidadão sempre pautou a sua vida por um sentimento de grande humanidade e elevado sentido ético, tendo persistentemente defendido a dignidade e os direitos das mulheres acima do preconceito e do conservadorismo, resistindo às pressões da igreja católica e da ditadura, distanciando-se mesmo das posições do seu partido na defesa desses valores. Albino Aroso foi sempre um lutador incansável pelo direito à maternidade como escolha e à sexualidade como direito"

O corpo de Albino Aroso está em câmara ardente na capela mortuária da Igreja da Lapa. A missa está marcada para esta sexta feira, às 15h, na Igreja da Lapa, de onde o funeral sai para Canidelo, Vila do Conde.

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