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A implosão de Nuno Crato

Dia 18 de Dezembro 2013, entre as 8.30h e as 9h da manhã, em dezenas de escolas de todo o país aguardam-se concentrações de professores à porta, contra a famigerada prova/vexame aos professores contratados com menos de cinco anos de serviço.

Concentram-se professores requisitados que recusam vigiar os exames-humilhação dos seus colegas e outros que, não sendo requisitados, têm uma folga no seu horário. Quem vai levar a melhor?

 

Nuno Crato prometeu, ainda antes de ser ministro, fazer “implodir” o ministério da educação. Desde que tomou posse deitou mãos à obra: fazer regredir o país ao tempo de Salazar: privatizar o ensino e desmembrar a classe profissional mais numerosa da administração pública.

A pretensa prova prevista para dia 18 constitui uma humilhação dos profissionais da escola pública: neste ano será para os mais jovens e desprotegidos, cerca de 13.500, que são professores, fizeram cursos superiores, estágios profissionais, quando deram aulas foram avaliados, ou seja, fizeram tudo o que era exigido. Já trabalharam em escolas a centenas de quilómetros de suas casas, muitas vezes em duas ou três escolas ao mesmo tempo, distantes dezenas de quilómetros, para completarem, ou tentarem completar horários. Trabalharam alguns meses e logo foram para o desemprego. Todos os anos recomeçam este calvário. Quase todos estes professores estão à espera de umas horas em qualquer parte, está desempregados neste momento e com poucas ou nenhumas hipóteses para este ano letivo. Não contente com isso, o tirano Nuno Crato quer mais.

As regras passam nomeadamente por só poderem fazer exame “os professores que se apresentarem com caneta de tinta preta indelével”. E quem infringir o novo Acordo Ortográfico e regras de pontuação corre sérios riscos de vir a ser considerado inapto para a profissão: definitivamente desapossado de todo o investimento de uma vida de escola, universidade, mestrado, em alguns casos doutoramento: roubados da sua “carteira profissional”!

Esta estratégia é conhecida: o mesmo tenta fazer, por exemplo, o governo de direita de Espanha: descredibilizar as escolas e universidades públicas. No caso português, e para começar, particularmente as Escolas Superiores de Educação.

A poucas horas do início do Vexame, Nuno Crato obriga as escolas onde se realizarão as provas a reuniões gerais de professores convocadas de emergência. São requisitados dez, vinte, trinta vezes mais professores vigilantes dos que serão necessários. Nuno Crato joga tudo neste braço de ferro. Sabendo que muitos professores não irão vigiar os seus colegas, e que a greve marcada pelos sindicatos lhes permite recusarem ser cúmplices do carrasco, Crato expõe-se ao ridículo de convocar, por exemplo em alguns casos, mais de duzentos professores… quando os necessários são oito ou dez! Tal é o seu medo e a sua arrogância!

Crato conta com esta desproporção e sabe que é extremamente difícil boicotar a vigilância: basta um pequeno número de apaniguados para que as provas se realizem, mesmo que a adesão à greve seja esmagadora, como se prevê.

Estamos perante uma batalha difícil. Se a indignação é generalizada, só a solidariedade e mobilização poderão travar a implosão da escola pública que se foi construindo ao longo do último século.

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Professor
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