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No Land No Food No Life

Numa viagem entre o Camboja e o Mali, passando pelo Uganda, Amy dá voz às pessoas que querem que a Europa entenda que a produção agrícola destes países, que tem como objetivo a exportação, envolve diariamente a exploração e a violação dos direitos humanos dos seus trabalhadores e trabalhadoras. Por Irina Castro
Os seus documentários não são momentos fixos no tempo, não estão presos em imagens. Pelo contrário. São a abertura a todas as possibilidades de resistência.

Eram 11:30 quando me encontrei com Amy Miller, no hotel Astoria de Coimbra, para o almoço.

Num abraço caloroso, típico de duas amigas, cumprimentamo-nos. Nunca a tinha visto antes. Perguntei-lhe se estava bem, se precisava de alguma coisa. Pediu-me sol, tinha chegado há um dia do Canadá.

Caminhamos então juntas nessa busca pelo sol, uma tarefa que por entre as estreitas ruas da alta de Coimbra se pode tornar num desafio. Enquanto nos movíamos apercebi-me na forma curiosa como observava tudo à sua volta. Não bastou um segundo para interromper este meu pensamento com perguntas sobre Coimbra, sobre as pessoas, sobre as lojas vazias. E houve momentos em que sabia mais do que eu.

Sempre atenta e curiosa procurava o sol sem no entanto se descuidar dos outros elementos que a rodeavam. O olhar de uma pessoa que se habituará a ver o mundo através de uma câmara, mas com os dois olhos abertos.

Pelas ruas jogávamos o jogo quid pro quo. Eu queria tanto saber desta mulher, como ela queria saber de mim, da cidade. No entanto, rapidamente me deparei a falar mais de mim e da cidade. Amy Miller é assim, gosta de ouvir.

Mas também gosta de falar. E fala muito. Apesar de não ser o único modo de comunicação o cinema documental é o seu dispositivo principal. Diretora e escritora dos documentários Myths for Profit(2009), Carbon Rush(2012) e No Land No Food No Life(2013), encontrava-me com Amy por causa deste último.

Amy não é só uma curiosa diretora de documentários, é também uma ativista pela justiça social e ambiental. Inquieta e em nada resignada, a voz documental de Amy é coletiva. E mais do que testemunha Amy é desafiadora. A sua voz não se prende na película 35mm. Os seus documentários não são momentos fixos no tempo, não estão presos em imagens. Pelo contrário. São a abertura a todas as possibilidades de resistência. É cinema em ação.

Desafiando as regras convencionais do cinema, Amy não quer apenas contar histórias pessoais sobre problemas globais, Amy quer ação, organização, resistência.

Em No Land No Food No Life, Amy propõe o fim do "Land Grab", a expropriação ilegal de terras, e revela a necessidade da defesa das comunidades agrícolas e da agricultura familiar sustentável. O documentário dá voz direta às pessoas afetadas, combinando histórias pessoais e mostrando como pequenos agricultores lidam com a perda da terra e o processo de expropriação. Numa viagem entre o Camboja e o Mali, passando pelo Uganda, Amy dá voz às pessoas que querem que a Europa entenda que a produção agrícola destes países, que tem como objetivo a exportação, envolve diariamente a exploração e a violação dos direitos humanos dos seus trabalhadores e trabalhadoras. No Land, faz cinema direto na organização de comunidades para lutar contra pela justiça ambiental e social.

Amy Miller esteve em Portugal no âmbito da Amostra Cinematográfica, Ecologia e lutas sociais: Homenagem a Chico Mendes (1944-1988), que teve lugar entre os dias 4 e 5 de Dezembro em Coimbra. Uma coorganização do Centro de Estudos Socais, da Oficina de Ecologia e Sociedade e da Rede Europeia de Ecologia Política (ENTITLE), com parceria do IGPA PUC de Goyas.

Esta amostra, que esteve também inserida no IV colóquio internacional de doutorandos/as do CES, não esqueceu a homenagem Chico Mendes, seringueiro sindicalista e aguerrido defensor do ambiente e dos povos da floresta. Contou por isso também com a presença de Vicente Rios, cinegrafista dos documentários dirigido por Adrian Cowell sobre Chico Mendes e a luta dos povos da floresta[1].

Durante os dois dias da homenagem relembraram-se ainda a resistência e todas as pessoas que deram as suas vidas na luta pela justiça ambiental. Pessoas como Ken Saro-Wiwa, e o povo Ogoni da Nigéria[2]. Resistência, como a resistência de Wangari Maathaie as mulheres do Quénia[3] ou do povo Odisha na India[4].

Como diz Amy, “se vamos morrer, então que sejamos ouvidas”.

 

Irina Castro é investigadora do Núcleo de Estudos sobre Ciência, Economia e Sociedade do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 


[1] Chico Mendes, eu quero viver (1989), Financiando o desastre: com Chico Mendes (1987) e Matando por Terras (1991) foram 3 dos filmes da série sobre Chico Mendes dirigidos por Adrian Cowell

[2] Delta Force, filme dirigido por Glenn Ellis em 1995 sobre o massacre do povo Ogoni, e o assassinato do escritor e ativista Ken Saro-Wiwa, pelas mãos da ditadura militar de Sani Abacha.

[3] Taking Roots: A visão de Wangari Maathai, dirigido por Alan Dater e Lisa Merton em 2012, retrata a luta de Wangari Maathai e das mulheres do Quénia que desafiaram todo um regime.

[4] Wira Pdika, dirigido por Samarendra Das e Amarendra Das em 2005, aborda a resistência da comunidade Odisha à mineração.

No Land No Food No Life. Trailer

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