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Angola: Polícia reprime marcha fúnebre de opositor assassinado pela guarda presidencial

A marcha fúnebre do jovem militante da CASA-CE Manuel Carvalho “Ganga”, assassinado no dia 23 de novembro pela guarda presidencial depois de detido a colar propaganda, foi marcada pela violência policial. O cortejo foi interrompido por várias brigadas de polícia, que lançaram gás lacrimogéneo contra os manifestantes.
Fotos publicadas no site Maka Angola.

Segundo adianta o Club K, a Policia Nacional angolana colocou um forte aparato de efetivos armados com cassetetes e pistolas ao longo do trajeto entre o salão dos bombeiros, ao lado do hospital militar de Luanda, onde se encontrava o corpo de Manuel Carvalho “Ganga”, e o cemitério de Santa Ana, nos arredores do Comando Provincial de Luanda. A marcha fúnebre terá ainda sido acompanhada por três helicópteros, tanques, canhões de água, cavalaria e por elementos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR).

Filomeno Vieira Lopes, do Bloco Democrático Angolano, contou à Rádio Renascença que “o protesto fúnebre foi interrompido por várias brigadas de polícia, que lançaram gás lacrimogéneo”. A mesma informação foi confirmada por várias outras testemunhas presentes no local, como Manuel Fernandes, vice-presidente da CASA-CE, e o ativista Rafael Marques.

“Durante uma hora e meia o cortejo fúnebre ficou parado por uma barreira policial que disparava gás lacrimogénio diretamente para os membros da caravana. Mas mesmo assim, o que foi extraordinário, foi notar a resistência dos cidadãos”, descreveu o jornalista angolano numa entrevista concedida à DW África.

Segundo relata ainda Rafael Marques num artigo publicado no Maka Angola, os manifestantes entoaram durante a marcha palavras de ordem como “Nós queremos justiça! Ele fez o quê?”, “Zé Dú assassino! O povo não te quer”, “O MPLA matou! O povo revolta!”, “A polícia é do povo, não é do MPLA!”.

A marcha, que foi encabeçada por uma fotografia gigante de Ganga transportada por jovens do Movimento Revolucionário - Nito Alves, Raúl Mandela e Emiliano Catumbela, e que contou com a presença de vários dirigentes da oposição e figuras da sociedade civil, acabou por ser interrompida quando se encontrava a cerca de 200 metros da sede do comité provincial do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

“As pessoas estão a perder o medo”

“As pessoas não tiveram medo. As pessoas prosseguiram mesmo diante da polícia, mesmo diante daquele aparato repressivo”, lembrou Rafael Marques na entrevista à DW África.

“Era uma multidão. Mas essa multidão foi obrigada a dividir-se em pequenos grupos para chegar ao cemitério, alguns a pé, outros de autocarro”, afirmou Abel Chivukuvuku, líder da Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA-CE), em declarações ao jornal Público.

“O regime não está a perceber. As pessoas estão a perder o medo”, adiantou, frisando que “quanto maior é a repressão, mais as pessoas saem à rua. O regime ou cai ou muda”.

Lúcia da Silveira, ativista premiada de direitos humanos e diretora da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), criada em Angola em 2000 em defesa dos direitos cívicos e políticos, afirmou que “as pessoas vão continuar a manifestar-se” mesmo que isso signifique repressão, tortura, detenções e morte.

“As pessoas sabem que chegou o momento do ‘agora ou nunca’”, referiu.

ONG’s condenam morte de Canga e onda de repressão em Angola

A secção portuguesa da Amnistia Internacional (AI) condenou esta quarta feira o assassinato de “Ganga”.

"A Amnistia Internacional condena a morte de Manuel Hilberto Ganga, nas circunstâncias em que ocorreu no último sábado, às mãos da Guarda Presidencial - quando simplesmente afixava cartazes nas imediações da residência presidencial - e apela às autoridades angolanas para abrirem uma investigação imparcial a este incidente para apurarem se o uso da força foi justificado nos termos da Lei e se foi proporcional à 'ameaça' que recaía sobre as forças de segurança nessa altura", adiantou Teresa Pina, presidente da secção portuguesa da AI, em declarações à agência Lusa.

Para esta responsável, os acontecimentos ocorridos no sábado em Luanda são "mais uma vez um exemplo da supressão sucessiva de manifestações pacíficas em Angola",

Já a Omunga, associação da sociedade civil angolana, exigiu “um pronunciamento do Presidente da República sobre o assassínio de Manuel de Carvalho”. A Human Rights Watch pede também uma investigação.

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