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24 de Novembro de 1993

Há exatamente 20 anos, eu tinha 19, e apanhava o meu primeiro enxerto de porrada da polícia. Em 1993, era a brincar — agora é a sério.

Era a enésima manifestação contra as propinas, e ouvimos os insultos do costume até São Bento: vão estudar, cambada de privilegiados, eu não trabalho para sustentar doutores. Era assim que a nossa luta, que teria uns 2 anitos por essa altura, era vista: birra de meninos mimados, elite privilegiada e mal-habituada, que se recusava a pagar mais do que 1.200 escudos para ver o futuro garantido à custa do erário público. E foi preciso uma carga de porrada das antigas para que a opinião pública virasse e o cavaquismo começasse a cair. No dia a seguir, tínhamos passado de parasitas a heróis, e São Bento transbordou. Queimámos ministro atrás de ministro (ó dos santos, anda cá…), até que o Guterres lá foi eleito, e era tudo diálogo e amor, mas as propinas ficaram, primeiro em visão light, porque até tínhamos ganho e tudo… e hoje são um dado adquirido.

Há exatamente 20 anos, eu era muito ingénua. Sabia, tão bem como os meus colegas, que uma coça nos dava um jeito do caraças, porque “anticonstitucional” era um slogan que engasgava, e éramos de facto a elite nas ruas, e só a elite acha que faz sentido que seja a elite a estar na rua a exigir deixar de ser elite; mas tinha a cabeça cheia de abris (éramos a primeira geração a ter feito toda a escolaridade depois do 25 de abril) e a fasquia do que era admissível num estado de direito tão alta como se exige a quem nasceu em liberdade. Por isso, do que me lembro melhor desse dia é de correr pelas escadas abaixo a pensar “o governo caiu, o governo caiu, o governo caiu”. Porque um governo que solta os cães sobre manifestantes não dura o tempo de dizer a palavra democracia. Pois.

20 anos depois, mais cabelo branco menos ruga, estamos cá mais ou menos todos. Nós e eles. O primeiro ministro chamava-se Aníbal, e o ministro da administração interna era o Dias Loureiro (e a Ferreira Leite também fez uma perninha na educação) — oh yeah. Foram-se os numerus clausus, mas continuamos com níveis de formação superior vergonhosos. A minha geração de privilegiados anda há quase 20 anos a saltar de trabalho precário em trabalho precário, e hoje as propinas são apenas um de muitos entraves à frequência do ensino superior. Ou seja: perdemos a toda a linha.

Ou não. Não sei se teremos sido, como se dizia, a geração que acordou (n)as universidades. Mas as propinas deram-nos algo por que lutar (a PGA tinha sido aquecimento), e lutar é uma forma de apropriação. Das propinas à ação social, das normas de avaliação à paridade nos órgãos de gestão, das habilitações para a docência a horários feitos com pés e cabeça, dos estágios ao estatuto de estudante-trabalhador… nada do que se passava nas faculdades nos era alheio. Devorávamos leis, fazíamos propostas, ocupávamos faculdades, insultávamos ministros, organizávamos festas e concertos, respeitávamos argumentos e desprezávamos hierarquias — fazíamos política todos os dias, e só por isso éramos donos dos nossos dias. Como todas as gerações, antes e depois de nós. Se fomos a primeira de estudantes a levar porrada da polícia em democracia, rasca é quem nos bateu.

20 anos depois, mais cabelo branco menos ruga, estamos cá mais ou menos todos. Nós e eles. Quem dizia que estudar era um investimento individual à custa dos outros diz agora que é preciso despedir para ter emprego e que a justiça social só é possível quando ninguém tiver absolutamente nada. E as alternativas em cima da mesa são as mesmas: universidades e restantes serviços públicos gratuitos e de qualidade, pagos por um sistema fiscal justo e progressivo numa sociedade solidária de pleno emprego, ou migalhas para uns à custa da exclusão de outros, numa sociedade cada vez mais desigual — não é, nunca foi, uma questão de liquidez, mas de distribuição. Hoje sentimos todos na pele os estilhaços de não termos ganho a batalha das propinas — o tumor chama-se austeridade, e é maligno. A guerra ganhá-la-emos quando for claro que cada licenciado numa universidade pública é uma conquista para todos nós, se quisermos uma sociedade que tenha mais para dar a si mesma do que desesperança e violência.

Em 1993, era a brincar — agora é a sério.

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