You are here

Austeridade: doença crónica ou aguda?

Esquecemos de refletir sobre aqueles que nos comunicavam os diagnósticos fatalistas. Confiámos naqueles que sabemos enriquecerem com a doença alheia e não com a sua saúde, que inventam as doenças vendendo uma também falsa cura.

Não há cariz mais perigoso na doença que julgá-la como incurável ou inevitável. A doença, enquanto aguda, é um estado transitório, uma breve pausa, e não um estado de perpetuação de sofrimento ou esmorecimento.

A doença crónica é um trilho de sentido único, com pequenas conquistas mas de vitória impossível. É um percurso de minimização de desconforto mas de desengano em relação ao retomar o perfeito bem-estar

Prometeram-nos um dia que a austeridade seria uma doença aguda, uma maleita passageira de moinha ténue. Mas o caso agravou rapidamente; cada orçamento (rasurado e reinventado com a precisão de um merceeiro desleixado) trazia o inesperado: a doença era grave; A austeridade, nefasto cancro, estava para durar, havia invadido demasiado. A rápida recuperação daria lugar ao tratamento paliativo dos sinais que iam surgindo.

Após a assinatura do consentimento para uma intervenção breve, informaram-nos que a cirurgia seria extensa, perigando a nossa vida. Pior, assistiríamos acordados às incisões, aquelas que, dia após dia, ferem de morte os direitos sociais.

Fomos assolados por uma pneumonia, que ao fim do primeiro comprimido de antibiótico nos disseram ser uma doença permanente, requerendo oxigénio e maquinaria vital.

Fomos assolados por um desconforto urinário, que antes ainda da necessária análise, nos diziam ter inutilizado todo o rim.

Fomos assolados por um traumatismo menor, uma inconsequente esfoladela, dizendo-nos, antes do precioso desinfetando, que não mais poderíamos andar.

Fomos assolados pelo menor prurido ocular, diagnosticando uma cegueira antes da coçadela inaugural.

Esquecemos, no entanto, de refletir sobre aqueles que nos comunicavam os diagnósticos fatalistas. As batas pejadas de restos de sangue deviam tê-lo denunciado, afinal confiávamos naqueles que criteriosamente analisaram as nossas análises nos últimos quase 40 anos. Confiámos sobretudo naqueles que sabemos enriquecerem com a doença alheia e não com a sua saúde, que inventam as doenças vendendo uma também falsa cura.

Vamos sendo presenteados com pequenas benesses, resolvendo desconfortos pontuais. Não se trata a infeção, administra-se apenas o antipirético para a febre que causa. Pequenos (e estratégicos) recuos dão um falso alento num prognóstico de empobrecimento eterno.

A austeridade é uma doença ainda com cura. Mas como todas as doenças agudas prolongadas e não tratadas os danos tendem a ser permanentes. É chegado o momento de curar esta anemia que nos deixa exaustos, não com maquilhagem na face pálida, mas com a transfusão de sangue que nos faz pulsar forte novamente.

Os sintomas, a perda de direitos, a injustiça social com a proteção das fortunas, o enriquecimento ilícito do capital, o desmoronamento de um sistema de saúde justo, a dilaceração de sonhos e expectativas, a destruição do emprego digno, são ainda passíveis de tratamento, antes que se tornam parte integrante de nós, fardos eternos.

Resta saber se há vontade de um povo em voltar a ser saudável, de tomar nas suas mãos a sua cura, uma vez que não há melhor conhecimento para os problemas e dilemas do que aquele que emana de quem os vive.

A doença de tudo serve de desculpa, já a salubridade traz obrigação de viver com ambição. Agora, ainda com sequelas recuperáveis, resta saber se ousamos viver para além de sobreviver, se ousamos sonhar para além de subsistir.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
(...)