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O complexo de Sansão

Que o templo está a desmoronar é uma realidade muito além dos nossos esforços para aguentá-lo, mesmo que quiséssemos. Mas não é preciso ficarmos debaixo das pedras quando caírem.

Na Bíblia há a famosa história do herói Sansão. Muitas são as interpretações do significado da lenda em que Sansão, um israelita, e alguém a quem Deus concedeu força, deita abaixo o templo dos (também muito fortes) inimigos filisteus, morrendo ele próprio no processo. Tomo-a como exemplo de um ato que parece irracional (já que Sansão morre no processo) e ao mesmo tempo heroico e bastante sensível, na medida em que se torna a via (possivelmente a única) que leva à derrota do forte inimigo e à salvação do seu “povo”.

Parece que nestes dias temos muitos candidatos a Sansão, que estão a bloquear, ou a procurar bloquear, o que consideram “compromissos” perigosos com o inimigo. Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, diz que um mau acordo é pior que não haver acordo. Refere-se ao que vê como o acordo EUA-Rússia sobre a Síria, e ao possível acordo EUA-Irão. Na Colômbia, o ex-presidente conservador investe contra o atual presidente conservador por este estar a negociar com a guerrilha das FARC sob os auspícios de Cuba e da Noruega.

E é claro as massivas não-negociações em curso nos Estados Unidos, nas quais os membros do Tea Party no Congresso, especialmente na Câmara de Representantes, estão a usar a sua força para vetar qualquer compromisso com as forças inimigas que veem a ser lideradas pelo presidente Obama e o Partido Democrata em geral, com o conluio daqueles que consideram ser o inimigo interno escondido, isto é, todos os republicanos que são a favor de alguma espécie de “compromisso”.

Não é difícil de demonstrar que todos estes Sansões estão a deitar a casa abaixo, não só sobre o inimigo como também sobre eles mesmos. Para eles, contudo, mesmo que isto seja verdade, é uma questão do escolher o momento certo. Têm de fazê-lo enquanto ainda têm força. De outra forma, o inimigo vai vencer e institucionalizar, ou manter, as maldades que eles consideram estarem a ser cometidas.

Esta espécie de luta ideológica, impermeável ao chamado pragmatismo, não foi inventada nos últimos 10-20 anos. É tão velha quanto a socialização humana. Mas agora assume uma característica especial, precisamente porque estamos a viver os espasmos de uma crise estrutural do nosso sistema-mundo capitalista. Numa crise estrutural, podemos esperar dois fenómenos massivos – uma enorme confusão intelectual e, como consequência, reviravoltas abruptas de humores, que por sua vez levam a viragens ainda mais abruptas.

À medida em que aparecem mais e mais grupos prontos a deitar o templo abaixo, mesmo sendo eles próprios esmagados, as pessoas mais confusas e incertas em relação ao que fazer são as do chamado Establishment. Passados são os dias em que elas podiam manobrar cinicamente e seguir o seu caminho. Já não é verdade que “plus ça change, plus c’est la même chose” (quanto mais muda, mais fica tudo na mesma). Ora nenhuma mudança aparente é real; é tudo fachada, uma mera mudança de pessoas.

Que podemos então fazer, se queremos verdadeiras mudanças, um tipo de sistema-mundo diferente daquele onde vivemos nos últimos 500 anos? A primeira coisa que devíamos fazer era não ser apanhados pelos debates e reviravoltas entre os Sansões e os Establishments. Não importa verdadeiramente qual deles sairá vencedor no curto prazo.

A segunda coisa que devemos fazer é não gastar toda a nossa energia lamentando o facto de os que querem mudanças reais (às vezes chamados de esquerda mundial) não parecem estar unidos, ou ter objetivos claros, ou organizarem-se urgentemente. O facto é que eles também foram apanhados na confusão, pelo menos de momento.

Que o templo está a desmoronar é uma realidade muito além dos nossos esforços para aguentá-lo, mesmo que quiséssemos. Mas não é preciso ficarmos debaixo das pedras quando caírem. Temos de tentar evitá-las. Podem ter a certeza de que os mais poderosos membros do Establishment estão a tentar fazê-lo.

Mas como escapamos, e com que fim? Mais uma vez, insisto na escolha do momento adequado, a diferença entre o curto-prazo (três anos ou menos) e o médio prazo (os próximos 20-40 anos).

No curto prazo, as pessoas (99%) estão a sofrer. Temos de lutar para minimizar a sua dor, uma luta que pode tomar múltiplas formas. Pode ser pressionar por leis imediatas ou decisões de agências estatais para fornecer ajuda imediata aos mais necessitados, ou evitar mais danos ao meio ambiente, ou salvaguardar os direitos dos povos indígenas ou das chamadas minorias sociais.

Mas, no médio prazo, temos de tentar clarificar a natureza das estruturas que esperamos institucionalizar, se conseguirmos inclinar a bifurcação a nosso favor. Temos de tentar entender não só os objetivos de médio prazo da “direita” mundial, mas a natureza das suas profundas divisões internas. A chamada esquerda mundial também está profundamente dividida. Temos de trabalhar para superar essa divisão.

Nada é fácil neste tempo de transição de um sistema-mundo para outro. Mas tudo é possível – possível, mas longe de certo.

Immanuel Wallerstein

Comentário nº 363, 15 de outubro de 2013

Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e professor universitário norte-americano.
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