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Pelo fim da violência contra as mulheres

Como sociedade temos que exigir o fim da violência de género. Por isso, é importante a iniciativa da Rede 8 de Março, que convoca toda as pessoas a se manifestarem pelo fim da violência contra as mulheres, no próximo dia 24 de Novembro em Lisboa.

No passado fim de semana, em conversa com uma companheira feminista, ativista pelos direitos das mulheres, que no seu dia a dia ajuda mulheres vítimas de violência doméstica a construir um projeto de vida autónomo e livre de violência, fiquei a saber que o seu contacto com a realidade cruel da violência doméstica começou quando trabalhava junto de diversas comunidades sobre questões relacionadas com a procura de emprego e outros assuntos.

Nesse trabalho de terreno concreto, esta companheira via na pele das mulheres com que se cruzava as marcas da violência física e ouvia os relatos dos combates vividos na conjugalidade e apercebia-se da dimensão do problema. Beneficiando da rede de contactos estabelecida durante a campanha do referendo pelo direito ao aborto confirmou que esta realidade era nacional e o número de mulheres vítimas de violência era esmagador. No seio de uma organização de mulheres iniciou um trabalho sistemático que desde a década de 90 tem vindo a apoiar vítimas de violência doméstica e a desenvolver várias iniciativas no âmbito da denúncia e do combate à violência de género.

A violência contra as mulheres beneficia de uma cultura patriarcal, que veicula papéis de género muito marcados que colocam a mulher numa posição inferior face ao homem nas esferas do doméstico, do trabalho e também do público. O exercício do poder visto como um atributo masculino, a força e a autoridade do pai e do marido no seio da família são característicos de uma organização social que já não encontra reflexo na lei nem em muitas instituições, mas que culturalmente ainda tem uma grande influência na maneira como se vive e como se pensa a violência de género.

Não é só o senso comum que desvaloriza a gravidade das agressões contra as mulheres. Existem sentenças proferidas por juízes em julgamentos do crime de violência doméstica e de outros crimes de agressão sexual contra as mulheres em que podemos ler afirmações sexistas que provam esta legitimação patriarcal da desigualdade entre homens e mulheres, que sendo uma construção social é ainda uma prática comum.

A realidade em 2013 é muito diferente da realidade na década de 90 do século passado. A lei determina a igualdade entre homens e mulheres e a violência doméstica é um crime público. Existem várias associações a trabalhar na prevenção da violência de género e no apoio às vítimas. Cada vez mais mulheres rejeitam os preconceitos da sociedade patriarcal e ser feminista é cada vez mais afirmado com convicção por muitas mulheres e alguns homens. No entanto a violência persiste.

Com os cortes nos financiamentos e a perda de rendimentos das associadas, por causa dos baixos salários e do desemprego elevado, muitas associações têm cada vez menos capacidade para intervir no âmbito da prevenção da violência de género e do apoio às vítimas. Os desinvestimentos públicos em serviços e equipamentos essenciais para a autonomia e sobrevivência das mulheres e as políticas de conciliação entre o emprego e a vida familiar esbarram com políticas públicas de sentido contrário, como o aumento generalizado do horário de trabalho fragilizam ainda mais a situação das mulheres.

A resistência impõe-se, pois o perigo de retrocesso social é real. O caminho da austeridade e a política ao serviço da dívida não contemplam a vida das pessoas. A destruição do estado social atinge em primeiro lugar as mulheres e em particular as mulheres mais velhas que correm um elevado risco de pobreza. A violência prolifera na miséria e o trabalho feito em defesa das mulheres corre sérios riscos.

A resistência exige que saiamos à rua e não deixemos as vítimas desprotegidas e em silêncio. Como sociedade temos que exigir o fim da violência de género e assegurar direitos iguais, a começar pelo direito a uma vida livre de violência. Por isto, é importante divulgar a iniciativa da Rede 8 de Março que convoca toda as pessoas a que se juntem numa grande manifestação pelo fim da violência contra as mulheres no próximo dia 24 de Novembro em Lisboa.

No próximo fim-de-semana, em Lisboa, esta rede propõe um programa para acabar com todos os tipos de violência e cabe-nos a nós multiplicar este desafio. No dia 25 de Novembro, o dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, saiamos à rua novamente, e no caminho para a escola ou para o trabalho vamos levar connosco esta exigência pelo fim da violência contra as mulheres.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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