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Rafael Marques: “Elite angolana, para saquear o país à vontade, precisa do apoio de Portugal”

Numa entrevista concedida à DW, Rafael Marques afirmou que o “governo angolano é praticamente tomado e gerido por ladrões” e frisou que a “elite angolana, para saquear o país à vontade, precisa do apoio de Portugal”. “Mas Portugal tolera isso, porque é a forma que encontrou de ser chamado para participar do saque de Angola”, frisou.
Foto de João Relvas/LUSA.

Em declarações à Deutsche Welle, Rafael Marques falou sobre os atropelos aos direitos humanos a que assistiu quando esteve preso, em 1999, na prisão de Viana, por ter afirmado que o presidente angolano era um ditador e promotor da corrupção no país. O activista falou ainda do recente encarceramento do jovem Nito Alves, referindo o seu “espírito de resistência”.

Questionado sobre se prosseguem as investigações do caso Diamantes de Sangue em Angola, Rafael Marques adiantou que está a investigar “um esquema de desvio dos diamantes de Angola pela família presidencial”.

Segundo o jornalista, “no ano passado, um consórcio entre a empresa estatal de comercialização de diamantes, SODIAM [Sociedade de Comercialização de Diamantes de Angola], e o genro do Presidente da República, Sindika Dokolo, compraram 72% das ações da joalheria da empresa ‘De Grisogono’, que faz as jóias para as celebridades de Hollywood”.

“Este negócio não envolveu um centavo da família presidencial, é em troca de diamantes angolanos”, avançou o jornalista, frisando que “temos aqui um processo em que os diamantes angolanos estão a beneficiar diretamente a família presidencial e não os cofres do Estado”.

“Tenho acesso aos documentos que provam, de facto, mais um ato ilícito por parte do Presidente da República”, garantiu.

Rafael Marques informou ainda que irá “escrever um texto e apresentar ao Ministério Público (MP), com as provas existentes para ver o que o MP pode decidir”. “Em princípio, o MP também já decidiu nas queixas anteriores que os governantes podem saquear o país como bem entendem desde que não apareçam diretamente a gerir o saque”, lamentou.

O ativista defendeuque o que “é fundamental nisso não é mudar o comportamento da ditadura e dos corruptos, é mudar a consciência da sociedade”.

“Porque quando a sociedade perceber o nível de criminalidade dos seus governantes, estes não terão outra hipótese senão fugir do país ou serem presos. Transformaram a corrupção numa instituição. Ninguém pode aspirar a uma vida melhor em Angola sem ser corrupto e é essa mentalidade que é preciso mudar. É um governo praticamente tomado e gerido por ladrões”, referiu.

Sobre os processos judiciais de que é alvo, Rafael Marques afirmou estar “de consciência tranquila”.

“Investiguei com rigor. Tenho as provas documentais de tudo aquilo que denunciei. Tenho as testemunhas. Tenho declarantes, alguns dos quais a Procuradoria-Geral da República recusou-se a ouvir. Estou preparado para ir a tribunal. Já fui a tribunal num caso em que o Presidente da República intentou contra mim e não me permitiu apresentar provas em tribunal”, frisou.

Sobre as acusações que pendem sobre o general angolano “Kangamba”, sobrinho do Presidente José Eduardo dos Santos, que é acusado pelas autoridades brasileiras de ser o chefe da quadrilha que traficava mulheres do Brasil para prostituição em Angola, África do Sul, Portugal e Áustria, o jornalista afirmou que “todos aqueles que conhecem o general Bento Kangamba sabem que é um indivíduo da pior espécie”, que “tem todo o tipo de negócios obscuros” e que “tem sido, durante alguns anos, o chefe da milícia que tem estado a aterrorizar os jovens manifestantes”.

No que respeita ao reflexo dessas acusações dentro do próprio exército angolano, Rafael Marques sublinhou que “tem havido muito descontentamento ao nível do exército porque o exército hoje se tornou num caldeirão de corrupção, onde grande parte dos recursos do Estado é depositada para ser logo desviada”.

“Este ano, Angola tem um orçamento de mais de 13 mil milhões de dólares americanos para o exército. E para a segurança e os soldados não têm botas! É época das chuvas. E os soldados não têm capas de chuva!”, afirmou.

A elite angolana, para saquear o país à vontade, precisa do apoio de Portugal

Durante a entrevista, Rafael Marques adiantou que, “na verdade, não há deterioração nas relações entre Angola e Portugal. Continuam na mesma. Houve um discurso musculado do Presidente da República para consumo interno e como processo de chantagem para que Portugal arquive os processos contra os dirigentes angolanos”.

“Todos os gestores das fortunas da família presidencial, dos generais angolanos são portugueses. Os bancos com quem fazem transações, que utilizam para a lavagem de dinheiro, são portugueses. A elite angolana, para saquear o país à vontade, precisa do apoio de Portugal. Mas Portugal tolera isso, porque é a forma que encontrou de ser chamado para participar do saque de Angola. E é o que está errado”, avançou o jornalista.

Sobre o tratamento dado pela comunidade internacional a Angola, Rafael Marques, lembrou que “o primeiro-ministro britânico [David Cameron] endereçou um convite ao Presidente da República de Angola [José Eduardo dos Santos] para visitar a Grã-Bretanha e também recentemente o presidente francês, François Hollande, enviou um convite ao Presidente para visitar a França” e apelou “às instituições francesas e britânicas, às ONG britânicas, a fazerem campanha para que este indivíduo, se visitar esses países, então ouça as vozes desses cidadãos porque é um ditador e deve ser tratado como tal”.

 

Entrevista publicada em http://www.dw.de/angola-tem-um-governo-praticamente-tomado-e-gerido-por-ladr%C3%B5es-dispara-rafael-marques/a-17223250

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