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Robert Capa: “A melhor foto da minha vida”

Numa entrevista dada, em 1947, a uma rádio norte americana, recentemente recuperada, Robert Capa – cujo centenário do seu nascimento se comemorou (…) a 22 de outubro - relatava as circunstâncias em que esteve na frente de Córdova, em setembro de 1936, quando, por acaso, registou a sua imagem mais célebre e debatida: Morte de um miliciano. Entrevista publicada em Sin Permisso.

Capa: (…) Nunca sabes se tens uma foto de imprensa ou não. E, quando disparas, todas as fotos são iguais. As fotos jornalísticas nascem na imaginação do diretor e do público que as vê.
Numa certa ocasião, tirei uma foto que se tornou mais valorizada que as demais. No momento de disparar, não sabia que tinha captado uma foto especialmente boa.
Foi em Espanha, no principio da minha carreira de fotógrafo e no inicio da Guerra Civil espanhola. A guerra era algo de romântico, se é que a podes ver assim.

Entrevistadora: Não, não posso!

Capa: Foi ali, porque era na Andaluzia e aquela gente estava muito verde. Não eram soldados. Morriam a cada minuto, fazendo grandes gestos. Mostravam que era pela liberdade. Estavam entusiasmados.
Eu estava numa trincheira com cerca de vinte milicianos. Esses vinte milicianos tinham 20 espingardas velhas. E à nossa frente havia uma metralhadora de Franco.
Assim que os meus milicianos disparavam em direção à metralhadora durante cinco minutos, logo se levantavam e diziam "Vamos!". E saíam da trincheira para a metralhadora. Como era de esperar, a metralhadora abria fogo e varria-os.
Os que ficavam, atiravam outra vez ao acaso na direção da metralhadora, que era bastante rápida para não responder e, após cinco minutos, diziam de novo "Vamos!". E voltavam a varrê-los.
Isto repetiu-se três ou quatro vezes, de modo que à quarta pus a câmara por cima da cabeça, sem sequer olhar, e tirei uma foto quando saíam da trincheira. E isso foi tudo. Nem sequer vi ali as fotos. Enviei-as com muitas outras que tinha tirado.
Fiquei mais três meses em Espanha. Quando regressei, tinha-me tornado um fotógrafo muito famoso, porque essa câmara que sustentei na cabeça tinha captado um homem justo no momento em que o abatiam.

Entrevistador 2: Foi uma grande foto.

Capa: Provavelmente, foi a melhor foto que fiz na minha vida. Nunca vi o enquadramento da foto, porque tinha a câmara por cima da cabeça.

Entrevistador 2: Supostamente, há uma condição que tens que criar, tu mesmo, Bob… para poderes conseguir uma foto como essa, deves passar muito tempo nas trincheiras.

Capa: Sim. É um costume que gostaria de perder.
 


*Robert Capa (1913-1954), pseudónimo de Endre Ernö Friedmann, foi um dos foto-repórteres imprescindíveis do jornalismo gráfico do século XX. Nascido em Budapeste, tornou-se célebre graças às suas fotos da Guerra Civil espanhola e da II Guerra Mundial. Morreu, no Vietname, ao pisar uma mina.
 
Tradução. António José André

Publicado em: http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=6409

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