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Medo da deflação leva BCE a baixa histórica nas taxas de juro

A descida das taxas de juro para o mínimo histórico desde a existência da moeda única (0,25%), dá conta de que o BCE não vê nenhum sinal no horizonte de que nos estejamos a aproximar de um final da crise. Por Marco Antonio Moreno.
A deflação, nestes momentos de elevado endividamento, ameaça prolongar e aprofundar a estagnação económica e provocar uma recessão em todo mundo

O medo ao espectro da deflação levou o BCE a cortar novamente as taxas de juro para situá-las em 0,25%, o seu mínimo histórico desde a existência da moeda única. Isto confirma o que tínhamos advertido num anterior artigo, mas além disso dá conta de que o BCE não vê nenhum sinal no horizonte de que nos estejamos a aproximar de um final da crise. Há mais de 80 anos que a deflação era um pesadelo longínquo e já extinto que nem sequer merecia menções nos textos de economia. Os textos de Mankiw não dedicam nenhuma linha à deflação dado que a corrente monetarista que irrompeu no mundo entre os anos 70 e 80 do século passado se encarregou de demonstrar que esse era um mal extirpado do sistema e que o instrumental monetário dos bancos centrais tornaria impossível o seu retorno. Pois bem, o fantasma da deflação percorre a Europa e daí a pergunta crucial que fizemos há cinco anos: Quem ganhou com o controle da inflação?

A deflação, nestes momentos de elevado endividamento, ameaça prolongar e aprofundar a estagnação económica e provocar uma recessão em todo mundo. Quando o Japão desenvolveu a sua espiral deflacionista em meados dos anos 90, pensou-se que se tratava de uma simples peculiaridade nipónica, desligada do resto do mundo. No entanto, vinte anos depois do seu surto deflacionista, todas as medidas do governo e do banco central do Japão têm resultado impotentes para controlar este flagelo. O Japão está há 20 anos em estagnação devido à deflação provocada pela sua bolha imobiliária, na qual os jardins do Palácio Imperial de Tóquio chegaram a valer mais do que todo o Estado da Califórnia. E o percurso do Japão bem pode ser o futuro da Europa.

Uma queda sistemática dos preços

A queda constante e sistemática dos preços vem desde os anos 70. A inflação anual nos países avançados foi de 7,1 por cento anual entre 1970 e 1989, mas apenas de 2,7 por cento anual entre 1990 e 2001. Desde então, os preços reduziram-se ainda mais e no mês de outubro a inflação anual da zona euro chegou a 0,7 por cento, enquanto que em Espanha chegava a -0,1 por cento, em clara tendência de baixa. A queda dos preços dos bens de exportação tem ido ainda mais longe e no mês de setembro, de acordo com os dados do INE de Espanha atingia -2,8 por cento. Isto frustra os caminhos de recuperação pela via das exportações.

A queda dos preços não é uma tendência cíclica. Esta queda constante dos preços dos bens manufaturados e serviços mais comercializáveis é um fenómeno de longo prazo e estrutural, que dá conta do esgotamento do atual modelo económico capitalista. O colapso das bolhas imobiliárias no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, deve ser visto como uma síndrome produzida pela estagnação global do modelo económico baseado nas exportações e no livre fluxo de capitais. À medida que os sintomas desta deterioração se intensificam (desemprego-estagnação-deflação) aumenta o risco de uma recessão mais prolongada.

A deflação não deve ser vista como um “bem” (assimetricamente no sentido de que a inflação “é o mal”). Se bem que a queda dos preços pressupõe um menor custo de vida e um acesso a mais bens, a ideia de que os preços continuarão em descida adia o consumo presente para o futuro e deprime ainda mais a procura atual. A contração dos mercados alimenta o auge do desemprego e a redução dos salários retroalimenta o sistema com uma queda generalizada dos preços que fortalecem a transmissão das forças recessivas.

O efeito mais grave da deflação é que aumenta o peso das dívidas. Por isso, ante um cenário de alto endividamento público e privado, a deflação é um péssimo sinal do estado da economia que ameaça tornar ingovernável a dívida pública e privada. Se a inflação reduz o custo real no pagamento dos juros, favorecendo com isso os devedores, com a deflação ocorre o fenómeno contrário. A deflação favorece os credores, e isto é o que tem ocorrido com as políticas antiinflacionistas implantadas no mundo desde finais dos anos 70. A descida constante da inflação tem favorecido os credores, isto é os banqueiros e os donos do capital, por cima dos interesses dos devedores. A deflação mais não faz do que acelerar este processo que é insustentável, e que só defende os interesses da banca e dos grandes grupos financeiros.

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón

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