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O empregado feliz

Hoje o trabalho tornou-se um totoloto, em que a estabilidade tem menor probabilidade que a fortuna fortuita. Há, no entanto, um feliz trabalhador, de seu nome Austeridade.

Mais do que forma de subsistência, um dia todos ousamos acreditar que trabalhar, desempenhar uma profissão ou ofício, poderia ser uma forma de gratificação. O mérito, a experiência e o desempenho seriam degraus numa escalada de sucesso, de crescimento e de satisfação pessoal.

O trabalho, ambicionávamos, seria seguro, seria incentivador a cada dia bem-sucedido, seria pedagógico nos dias menos conseguidos, seria acima de tudo o resultado da soma diária de suor, engenho e empenho.

Hoje o trabalho tornou-se uma selva de escassas presas e predadores esfomeados. Os antes cargos e profissões tornam-se presas raras, ao passo que os trabalhadores sonhadores tornam-se predadores produzidos pelo desespero daquelas a quem resta subsistir.

Hoje o trabalho tornou-se um totoloto, em que a estabilidade tem menor probabilidade que a fortuna fortuita; tornou-se um caminho pejado de uma nebulosidade tal que não permite vislumbrar o dia seguinte; tornou-se um deserto em que nem o mais meritório ou herculano esforço conduz ao oásis.

Há, no entanto, um feliz trabalhador, de seu nome Austeridade. A austeridade tem tudo o que sonha qualquer empreendedor: apoio do seu patrão, possibilidade ilimitada de explorar as suas capacidades e a garantia de uma segurança na permanência cega no seu posto.

O patrão da austeridade, os arquitetos do desastre social e económico que vivemos, têm permitido a progressão de carreira ao seu empregado favorito. Inicialmente com pequena influência, com uma pequena beliscadela neste ou naquele direito social menos visível, pôde o funcionário estender rapidamente a influência a todos os direitos pilar da sociedade. A eficiência na destruição da vida de algumas famílias foi premiada com a possibilidade de destruir uma porção cada vez maior.

Nos momentos de erro do empregado Austeridade, os patrões reconfortaram, afinal a culpa não é de quem erra mas antes de quem apontou o erro. Premeia-se a produtividade com uma cegueira perante os meios. Afinal o empregado quer-se feliz pois recheia sobremaneira os bolsos dos patrões.

A dedicação tem os seus frutos; aos patrões começa a estar reservado o papel de observador, admirando como o empregado Austeridade gere agora tudo em sua função. Aos patrões resta observar como cresce, já fora do seu controlo, a sua criação, o empregado feliz que a tudo permitiram.

Austeridade passa a ser o corpo dos perversos desejos dos seus empregadores. Perante a intransigente defesa que lhe fazem os seus patrões, age sem qualquer pejo ou moderação. O que deseja cumpre-se sem limites, deixando a moralidade ou a justiça como acessórios dispensáveis. Incentiva-se a criatividade maquiavélica desde que produza lucra.

Na hora do fecho da contabilidade, quando os números teimam em desmentir as palavras vãs, puxa-se a longa carpete que aveluda o chão da austeridade, a tudo permitido. Mas o desamor é momentâneo, e silenciados os restantes, os que constam que Austeridade é o único empregado feliz, logo se reacende a paixão, concedendo um pouco mais de poder que anteriormente. Um dia Austeridade será patrão, um dia prestará ainda menos contas, um dia será lei.

A todos os restantes trabalhadores resta suspirar por um dia seguinte ocupado. Resta aspirar a uma pequena realização com a tarefa diária, resta a subserviência a condições injustas. Afinal, mais do que um emprego, hoje aspira-se a uma fonte de financiamento, seja ela qual for, de uma vida amputada das aspirações de dela desfrutar, de a rechear com prazer, cultura e satisfação.

Hoje sonha-se com a possibilidade de sonhar, enquanto a austeridade guarda em parte incerta projetos da primeira casa, das férias de sonho, da vida perfeita para os filhos.

Outrora trabalhadores, hoje apenas sobreviventes, definha assim uma sociedade, mendiga do seus próprios direitos.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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