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“A Índia tem uma grande influência no Nepal”

Entrevistado por e-mail, socialista nepalês fala sobre as próximas eleições da Assembleia Constituinte e a situação política no país.
Eleições de 2008,, que deram a maioria aos maoístas. Foto de Ashish Lohorung

No próximo dia 19 de novembro, os nepaleses participarão da nova eleição para a Assembleia Constituinte. Após uma profunda mudança histórica, iniciada com a Guerra Popular, em 1996, que levou ao derrube da monarquia e a constituição da nova república nepalesa, a Assembleia Constituinte, eleita para elaborar a nova Constituição do país, fracassou, no ano passado, sem conseguir formular uma nova Lei fundamental para os cerca de 29 milhões que compõem a população do Nepal.

O socialista nepalês B.d. Bista, em entrevista ao Esquerda.net, feita por e-mail, fala-nos sobre a situação política nesse longínquo país asiático.

Esquerda.net: O mundo não tem muitas informações sobre a situação política no Nepal. Pode explicar aos portugueses a situação política no Nepal?

B.d. Bista: O Nepal passa por um período de reação. O levante de 2006, que levou à abolição de 240 anos de monarquia, abriu várias oportunidades para a classe trabalhadora. Mas, a linha menchevique, de colaboração de classes, implementada pelo Partido Comunista do Nepal (maoista) assegurou que os trabalhadores não ultrapassassem a democracia burguesa. Os maoístas falharam em compreender a natureza reacionária da burguesia. Isto, como resultado, fortaleceu as forças reacionárias, que foram capazes de travar a evolução de situações revolucionarias cuja vitória poderia significar a sua queda. Por esse motivo, a estratégia stalinista das duas etapas da revolução, tomada pelos maoístas, levou a sociedade a um estado de reação.

Como é a organização dos trabalhadores, camponeses e estudantes nepaleses?

Os trabalhadores, camponeses e estudantes são bem organizados. Os trabalhadores são organizados em sindicatos. Todos os sindicatos são afiliados aos principais partidos políticos. O GEFONT, um sindicato afiliado ao stalinista e reformista Partido Comunista do Nepal (UML-Unidade Marxista-Leninista) tem o maior número de filiados, seguido pelos sindicatos maoístas e pelo partido burguês Congresso Nepalês. Os camponeses, na sua maioria, seguem os dois partidos maoístas. Existem três organizações estudantis, sendo que All Nepal National Independent Students, filiada aos maoístas, parece ser a maior. As duas outras são a Nepal Students Union, filiada ao Congresso Nepalês, e a ANNISU, que é filiada ao Partido Comunista do Nepal (UML-Unidade Marxista-leninista).

Pode falar sobre as próximas eleições de novembro? Qual a importância dessas eleições para os trabalhadores, camponeses e estudantes nepaleses?

As eleições de novembro não são apenas eleições regulares, mas sim uma eleição para a Assembleia Constituinte que irá, supostamente, redigir uma nova constituição burguesa. A última Constituinte fracassou em cumprir a sua missão. Por esse motivo, serão realizadas novas eleições. Numa sociedade semi-feudal, a bandeira da Assembleia Constituinte tem uma grande importância. Mas a sua importância aumenta ou diminui de acordo com uma dada situação concreta e as mudanças subjetivas que ocorrem. Desde que a burguesia nacional há muito tempo perdeu o seu caráter progressivo, submetendo-se à influência do imperialismo, é praticamente impossível formular uma Constituição através da Assembleia Constituinte. Portanto, as próximas eleições de novembro, não são nada mais que a continuidade de um período reacionário. Do ponto de vista da classe operária, as próximas eleições não têm qualquer relevância no que concerne à luta pelo socialismo. Mas, devido ao oportunismo dos seus dirigentes, a classe operária é empurrada ainda mais para a escuridão.

Por que os governos tem vida curta no Nepal?

Há uma grande influência do estado burguês da Índia no Nepal. A imperialista e expansionista burguesia da Índia tem os seus próprios interesses na região do sul da Ásia, da qual o Nepal também faz parte. A sua agência de inteligência, a RAW, está envolvida em praticamente todo o “trabalho sujo” político quando se trata de formar governos. Eles têm virtualmente pleno controlo sobre os que formam o governo. E, se o governo não corresponde às suas expectativas, o governo cai. É uma situação patética.

Por que os maoístas sofreram um divisão, no ano passado, com a formação de um novo partido maoista pela fração Baidhya?

Uma fação maoísta, liderada por Mohan Baidhya, estava insatisfeita desde o início com a via parlamentar escolhida pelo presidente (do Partido Comunista do Nepal Unificado) Prachanda e Baburam Bhattarai. Chamaram a essa política de “revisionismo”. A principal razão da divisão entre eles foi que a fação Baidhya almeja à mesma “Nova democracia” ao estilo chinês, enquanto a fação dominante busca a via da democracia burguesa liberal. Mas, ambos os caminhos são conduzidos pela conceção stalinista da revolução em duas etapas, que advoga uma aliança com um setor da burguesia na “primeira etapa” da revolução. Portanto, não há um motivo ideológico por trás da divisão, mas, sim, uma compreensão distorcida da teoria marxista, táticas e estratégia.

Qual a importância dos grupos étnicos na política nepalesa?

O Nepal é um país muito diversificado. Existem mais de 80 grupos étnicos. Por mais de dois séculos e meio, todos os outros grupos étnicos foram oprimidos, sob a monarquia, pela nacionalidade dirigente khas-arya. A maioria das suas línguas e culturas sofrem o perigo de extinção. Mas, durante a Guerra Popular, os maoístas levantaram a questão do direito das nações à autodeterminação. Na minha opinião, a emancipação das etnias oprimidas é uma das tarefas mais importantes da revolução nepalesa. Mas, eu também acredito que isso é possível somente sob a liderança do proletariado e não da burguesia.

Tem alguma mensagem aos trabalhadores portugueses?

Sim, eu tenho uma mensagem para os camaradas trabalhadores portugueses. Camaradas, envio a minha saudação e abraço fraternal. Não importa a que país pertençamos, não importa que língua falamos, não importa que cultura seguimos, somos uma classe com um mesmo objetivo, que é o de derrubar este sistema capitalista mundial, opressivo e sanguessuga, e estabelecer uma sociedade socialista onde a opressão de um homem pelo outro constará apenas das páginas da história. No entanto, isso exigirá os nossos esforços comuns. Então, estamos juntos nessa luta. Levantemo-nos juntos e lutemos unidos!

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