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Ramonet: é mais indispensável que nunca recriar o Observatório de Média

Numa reunião internacional de jornalistas, académicos e diversas pessoas relacionadas com os média, realizada no último dia 9 a convite do portal Carta Maior em São Paulo, foi decidido recriar o Observatório Internacional de Média. Entre os presentes, estava um jornalista do Esquerda.net.
Ramonet: O mais fácil é criar o observatório. O mais difícil é que esse observatório produza uma leitura crítica do funcionamento dos média. Foto : Gabriel Bernardo/Fazendo Media

A decisão, proposta por Joaquim Palhares, diretor da Carta Maior, foi aprovada por unanimidade e o Observatório será presidido por Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol e autor de importantes reflexões sobre o tema.

O novo observatório vem renovar, ou recriar aquele que fora constituído no contexto do Fórum Social Mundial e que já há alguns anos estava inativo.

Reproduzimos, em seguida, a intervenção de Ramonet nesse encontro.

Poder financeiro e poder mediático andam juntos”

Queria recordar como foi a criação do Media Watch Global, no contexto do Fórum Social Mundial. Tínhamos criado o FSM como uma resposta ao Fórum Económico Mundial e como uma necessidade de refletir sobre quem tinha o poder no marco da globalização. O Fórum Social Mundial consistia, e consiste ainda – sem ter a mesma força que já teve – no intercâmbio de experiências concretas ou teóricas sobre como combater a globalização.

O que dizíamos era que a globalização significava uma mudança na hierarquia do poder. O poder, hoje em dia, é exercido pelo poder financeiro sobre o poder político, um poder que não está submetido à democracia. O que dissemos quando criámos o Observatório Internacional de Média foi que não era possível conduzir uma reflexão sobre o poderio do poder financeiro, no marco da globalização, sem ao mesmo tempo desenvolver uma reflexão sobre o poder mediático. Dizíamos: o poder financeiro, sozinho, não exerce a mesma influência que com o apoio gémeo do poder ideológico que exerce o poder mediático. E então, dizíamos, combater a globalização é combater o poder financeiro e o poder mediático, porque andam juntos.

Nesse marco, introduzimos uma reflexão teórica, que eu fiz em 2003, porque surgiu a urgência de desenvolver uma resposta ao poder mediático. E porquê? Porque em abril de 2002 tínhamos assistido a um golpe de Estado mediático contra a Revolução bolivariana do presidente Chávez. Vimos como os média, no novo contexto da globalização financeira, tinham feito um progresso descomunal com respeito ao que acontecera em 11 de setembro de 1973, com o Mercúrio contra Allende, ou, anos depois, com o La Prensana Nicarágua contra o poder sandinista. No caso da Venezuela, era um poder descarado, foram os donos dos média que organizaram o golpe contra Chávez.

O Quinto Poder”

Recordam que eu tinha feito uma intervenção, no marco do Fórum Social Mundial, um texto teórico intitulado “O Quinto Poder”. Nele, propunha que se criasse o Observatório dos Média, e propunha como isso podia ser feito – com os jornalistas, professores de comunicação, advogados em direito de comunicação, e também com os consumidores dos média. Como uma organização de consumidores de média que tem também a obrigação de intervir para corrigir o seu funcionamento. Por um lado, era um projeto de fiscalização ideológica ou política, mas por outro lado era uma maneira de melhorar o funcionamento dos média. Porque continuamos a pensar que da qualidade dos média depende a qualidade da democracia. Se os meios de comunicação fazem boa informação, o funcionamento cívico da sociedade será melhor. O debate político será de melhor qualidade. Nesse contexto, surgiu a ideia de organizar concretamente – não só na teoria – o Observatório Internacional dos Média. Com Roberto Sávio, [Joaquim] Palhares, [Carlos] Tibúrcio, Bernard Cassen... foi criado aí mesmo, e teve um êxito imediato.

O contexto de hoje

Esse era o contexto que existia há dez anos. Qual é o que existe hoje? Evidentemente, mudou muitíssimo. Podemos retirar as lições do que aconteceu. Por que, havendo 40 ou 50 propostas de observatórios de média, hoje em dia, no mundo, restam dois, ou três, no máximo. Há uma dificuldade concreta para levar a cabo o trabalho de um observatório de média. Que ninguém tenha a ilusão de pensar que basta criar um observatório para que o trabalho esteja feito. O mais fácil é criar o observatório. O mais difícil é que esse observatório produza uma leitura crítica do funcionamento dos média.

E que média? Em dez anos, os média explodiram. A rádio, a televisão, a imprensa escrita e a Internet. E a Internet é um mundo em si. Os blogs, os sites... sem falar no que acontece no Facebook, no Twiter, nas redes sociais. Há agora uma necessidade de organização concreta de trabalho que passa a ser mais importante.

Segunda consideração para a América Latina: como prevíamos, quando introduzimos a necessidade de refletir sobre os média, há dez anos, o debate mediático é o debate central hoje em dia. A batalha principal é uma batalha mediática. Cada governo progressista da América Latina está a viverbatalhas como essa. A Venezuela vive-a quotidianamente desde há 14 anos. O mesmo no Equador, Bolívia, Argentina. Cada vez que um de nós viaja – como me aconteceu muitas vezes, dando conferências de comunicação em vários países – em cada país latino-americano, o debate central é a questão dos média. Os meios de comunicação que atacam o governo, com todo o tipo de argumentos e falsidades, etc., o governo que responde com Leis dos Média, ou meios governamentais, ou públicos, estatais...

A mudança é que agora há Leis dos Média em vários países. Que agora há meios públicos cada vez mais numerosos. Que há meios do Estado em todos os setores – comunitário, da rádio, da televisão, até da imprensa, embora estes não sejam importantes. E a direita também utiliza os observatórios para precisamente fiscalizar os média públicos, e demonstrar que o governo está a tentar levar a cabo uma política de controlo social ideológico através dos média.

Indispensável recriar o Observatório

Por isso, penso que é mais indispensável que nunca renovar este Observatório. Recriá-lo, como disse o Joaquim Palhares, e que me parece extremamente pertinente. Mas a dificuldade concreta e até política do empreendimento é muito mais elevada que a que existia há dez anos. Não é uma razão, evidentemente, para dar marcha atrás, pelo contrário, é uma razão para avançar, com a consciência de que vencer essas dificuldades é avançar para média que podem contribuir para a sociedade, latino-americana em particular, com um avanço e um desenvolvimentos democrático indiscutível.

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Jornalista do Esquerda.net
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