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A Fed continua a dar respiração artificial à banca à custa de tirar oxigénio às pessoas

A Reserva Federal dos EUA confirmou que a recuperação económica é suficientemente frágil para continuar a aplicar os estímulos monetários inclusive para além do razoável. Estas taxas a zero por cento constituem um verdadeiro subsídio ao sistema financeiro dado que a banca capta o dinheiro a esse juro e coloca-o em títulos de dívida soberana, onde obtém um retorno de 4% ou 5 por cento. Artigo de Marco Antonio Moreno

A Reserva Federal confirmou que a recuperação económica é suficientemente frágil para continuar a aplicar os estímulos monetários inclusive para além do razoável. Não ficou outra alternativa a Ben Bernanke, dado que cada vez que anuncia o fim dos estímulos as bolsas caem e também o dólar. Isto demonstra que o sistema financeiro está totalmente viciado no dinheiro fácil e narcotizado até à medula com as taxas de juro a zero por cento. Estas taxas a zero por cento constituem um verdadeiro subsídio ao sistema financeiro dado que a banca capta o dinheiro a esse juro e coloca-o em títulos de dívida soberana, onde obtém um retorno de 4% ou 5 por cento. É o grande negócio que a grande banca faz em plena crise e com a qual obtém grandes receitas que a ajudam a ordenar os seus balanços cheios de ativos tóxicos. Mas isto consegue-se à custa do desemprego e da precariedade salarial, como mostra o seguinte gráfico: enquanto os salários reais afundam e o rendimento médio das famílias desce ao nível de 1989 (24 anos!), os ganhos financeiros e das grandes empresas chegam a 59% e 42 por cento.

Quem ganha e quem perde com os planos da Fed (gráfico publicado em El Blog Salmón)

É surpreendente o poder manipulador da banca e a única resposta possível para entender o que faz Bernanke, a quatro meses do termo das suas funções no que têm sido oito longos anos, é que não se quer retirar como o desmancha-prazeres que arruinou a feliz vida dos banqueiros. Cada vez que se anuncia o fim dos estímulos monetários são eles que primeiro reclamam e provocam fortes quedas em Wall Street, nas bolsas europeias e no resto do mundo. Mas nem Bernanke, nem ninguém, é claro, tem a mesma atitude negligente face às exigências dos 99% que imploram melhorias no emprego e nos salários. Os planos da Fed impactam negativamente em todo mundo e no dia 18, de um único golpe, o euro cotou-se a 1,32 dólares.

Uma banca viciada no dinheiro fácil

A banca tornou-se viciada na respiração artificial e no grande fluxo de oxigénio, que significam os bilhetes verdes por 85 mil milhões de dólares mensais que na prática não fazem mais que trocar dinheiro real por lixo tóxico de empréstimos hipotecários e derivados financeiros, que provocaram o colapso da banca há cinco anos.

Se bem que ninguém esperava que os planos de estímulo fossem retirados por completo, pelo menos esperava-se uma retirada gradual de 75 mil milhões de dólares e depois de 65 e mais tarde de 50 mil milhões de dólares. Mas nada. Para Bernanke tudo continua igual porque a economia dos Estados Unidos continua em perigo, e assim continuará com estes planos. A atual crise demonstrou a falácia da contrarrevolução monetarista, que entende o monetarismo como uma ferramenta ancorada exclusivamente ao sistema financeiro e desligada da economia real. Este é o grande problema que encerra o Modelo IS/LM dado que é um modelo de conceção walrasiana onde o dinheiro se toma como um mercado mais e faz crer que a taxa de juro é o resultado do fornecimento de dinheiro e da preferência pela liquidez (curva LM). A atual crise derrubou a clássica conceção do equilíbrio entre poupança e investimento (curva IS), dado que um mercado de crédito desregulado está sempre em desequilíbrio.

A gestação e a eclosão da crise esteve justamente nos mercados de crédito financeiro, que potenciaram os desequilíbrios produto da desregulação financeira que começou a ser aplicada desde 1989. Não é estranho que desde esse mesmo momento tenha começado a ampliar-se a brecha da desigualdade entre o 1 por cento mais rico e os 99 por cento restantes. Neil Irwin, nesta nota do Washington Post, mostra que uma família típica dos Estados Unidos, ganha hoje menos do que ganhava em 1989, produto da devastação que a crise significou para os trabalhadores. Fica claro que para a Reserva Federal e para o governo dos Estados Unidos os ganhos da banca são mais importantes que os das pessoas, e que a saúde do sistema financeiro é mais valiosa que os equilíbrios sociais.

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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