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Salvador Allende, um líder do presente e do futuro, por Luis Sepúlveda

O seu confronto com o cinismo neoliberal, que procura despojar os cidadãos dos seus direitos e da sua dignidade, assinou a sua sentença de morte. Artigo do escritor chileno Luís Sepúlveda, publicado em 11 de setembro de 2008
Salvador Allende no Palácio de La Moneda no dia 11 de setembro de 1973, quando a aviação já sobrevoava o palácio presidencial - Foto Santiago Nostalgico/flickr

A tragédia do outro 11 de setembro começou a ser gerada antecipadamente: para ser preciso, a 4 de novembro de 1972, quando um homem de estatura média, enérgico e seguro falou perante a assembleia das Nações Unidas.

Naquele discurso memorável e antecipatório que começava com um "todos os povos ao sul do rio Bravo unem-se para dizer basta", Salvador Allende denunciava o crescente poder das empresas multinacionais que, à margem da legalidade e do controle parlamentar, ameaçavam mesmo a existência dos estados e convertiam-se numa força dominante impossível de controlar com os mecanismos da sociedade civilizada, pois representavam uma ideia puramente mercantilista da existência e os valores lentamente desenvolvidos desde a moral e a ética eram-lhes não só alheios mas também inimigos.

Na América Latina e nalgumas nações do chamado Terceiro Mundo, o discurso de Allende foi aplaudido, mas não compreendido em toda a sua profética magnitude.

Salvador Allende era um líder premonitório, a sua compreensão da história, da economia e da diversidade latino-americana permitiam-lhe crer e ver como possível uma via chilena para o socialismo que não passasse pela insurreição armada e que se baseasse no fortalecimento das instituições que a sociedade civil lhe tinha dado, porque estas eram a expressão de uma legalidade conquistada depois de duros combates pela igualdade e pela justiça social.

O seu discurso nas Nações Unidas foi minuciosamente examinado por três imorais: Richard Nixon, Henry Kissinger e Milton Friedman, um economista de Chicago aplaudido pelos "Varguitas" de todos os tipos e que hoje defendem o liberalismo económico extremo, mas que são incapazes de reconhecer o panorama de miséria humana que ele gera.

16 anos de terror

A 11 de setembro de 1973, os militares chilenos receberam dos Estados Unidos a ordem de dar um golpe de Estado e terminar com a via chilena para o socialismo e com a exemplar democracia chilena. Houve milhares de mortos, desaparecidos, torturados, exilados: o terror prolongou-se durante dezasseis anos.

A guerra suja foi feita pelos militares treinados por assessores norte-americanos especialistas em combater o "inimigo interno", adversário para o qual não existiam convenções de Genebra nem habeas corpus - Guantánamo foi experimentado com os chilenos - e a outra guerra, a mais suja, foi liderada por Milton Friedman e pelo primeiro grupo de economistas neoliberais que aterraram em Santiago de Chile em 1974.

Em 1970, quando Salvador Allende ganhou de forma limpa as eleições que o levaram ao Governo, o índice de pobreza no Chile era de 23 %. A 11 de setembro de 1973, esse índice tinha baixado para 12% mediante políticas de emprego que, longe de prejudicar a indústria, fizeram com que se mantivesse e aumentasse a capacidade produtiva e exportadora.

O Chile exportava cobre manufaturado (o planeta eletrificou-se com arame de cobre feito no Chile) e têxteis, e tinha uma indústria de eletrodomésticos que gozava de prestígio no mercado regional sul-americano.

Friedman sustentava a sua teoria económica na necessidade de manter um "desemprego natural" e no Chile, além de terminar com a indústria nacional, conseguiu que o índice de pobreza subisse até 49% em menos de cinco anos. Nesse breve tempo, conseguiu que metade dos chilenos fossem pobres.

A teoria do neoliberalismo económico inventada por Friedman e pelos Chicago Boys só era possível aplicar num país sem oposição, sem sindicatos, sem liberdade de expressão e com uma população aterrorizada pela repressão.

Basicamente, o neoliberalismo económico propõe que mediante uma elevada taxa de desemprego natural, o trabalho deixe de ser um direito e se converta numa oferta de trabalho à disposição de um mercado no qual nem os governos nem as leis devem intervir.

Quanto maior é a quota de desempregados naturais, maior será a flexibilidade laboral. E para consegui-lo é necessário destroçar a vinculação do Estado com os cidadãos, só assim se entendem privatizações tão aberrantes como as da Saúde pública e da Educação. Assim aconteceu no Chile, assim tentam que ocorra em todo o continente latino-americano, assim também o propõem na Europa.

Multinacionais como Repsol-YPF1, Telefónica, Telekom são empresas multinacionais que reclamam dos governos, dos estados fortes que pressionem para que os estados débeis não se imiscuam na sua ação e exijam garantias para que a taxa de desempregados naturais, de incomunicados naturais, de pessoas que vivem às escuras naturais, de não donos naturais da riqueza energética se mantenha, cresça, pois esse é o seu sacrossanto mercado.

As palavras de Salvador Allende nas Nações Unidas denunciavam a existência de uma força económica cujo único norte era despojar os cidadãos da sua história e dos seus direitos, da sua dignidade e do seu futuro.

Hoje, timidamente, cada governo progressista da América Latina retoma o legado de Allende, pois quase todos os povos ao sul do rio Bravo exigem o fim dos desmandos neoliberais e o retorno a políticas justas que considerem a existência das grandes maiorias, dos despossuídos, dos condenados da terra.

Cinismo neoliberal

A 35 anos2 desse outro 11 de setembro, a lembrança, a imagem, o legado de Salvador Allende crescem, agigantam-se, a sua memória reclama inteligência política, audácia e determinação das esquerdas para terminar com o cinismo dos neoliberais de qualquer tipo, esses que reclamam intervenção estatal para salvar empresas em tempos de crise, mas que ao mesmo tempo recusam qualquer controle do Estado sobre os lucros nos tempos de bonança.

Allende vive em cada escola pública e laica, em cada hospital público, em cada recurso energético salvo da voracidade das multinacionais, na recuperação da dignidade ecológica, no direito a existir das maiorias indígenas e das minorias segregadas.

Esses são os caminhos que conduzem às "amplas alamedas" que anunciou no seu último discurso, sob o fogo e as balas, antes de morrer fiel à sua dignidade de homem e de socialista.

Artigo do escritor chileno Luís Sepúlveda, publicado em 11 de setembro de 2008, disponível em publico.es. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


Notas do tradutor

1 Em 2012, a Repsol foi expropriada pelo Estado da Argentina.

2 Este artigo de Luis Sepúlveda foi publicado a 11 de setembro de 2008.

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