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Stiglitz: “Portugal e Grécia entregaram a sua soberania ao FMI”

No livro "O Preço da Desigualdade", o prémio Nobel da Economia 2001 afirma que "os piores mitos são os de que a austeridade recuperará a economia, e de que uma maior despesa do Estado só faria o contrário". O autor adianta ainda que a Grécia, Portugal e Itália, entre outros, “permitiram que o FMI, a par do Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (todos não eleitos), ditassem os parâmetros políticos e designassem governos tecnocratas para implementarem o programa".
Foto de World Economic Forum, flickr.

Segundo adianta Joseph Stiglitz na sua obra, cuja tradução portuguesa vai ser lançada esta sexta feia, dia 13, os defensores do mito da austeridade, que argumentam que esta permite equilibrar as contas públicas e, consequentemente, elevar a confiança dos mercados, levando a um maior investimento, deveriam, segundo esta mesma ordem de ideias, “apoiar a nossa primeira estratégia de recuperação económica: mais investimento público”.

“Uma vez que existem oportunidades de investimento público unanimemente considerados de alto retorno - muito mais alto do que os juros que o Estado tem de pagar pelos empréstimos -, mais investimento público conduzirá a uma menor dívida nacional de longo prazo; e esta convicção, por sua vez, devia gerar confiança, provocando uma explosão ainda mais forte da atividade económica. Porém, os defensores da austeridade não apoiam mais investimento público", escreve o prémio Nobel da Economia 2001, salientando que "os piores mitos são os de que a austeridade recuperará a economia, e de que uma maior despesa do Estado só faria o contrário".

Austeridade gera recessão e depressão

O economista norte americano refere também que a austeridade imposta pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) converteu as crises económicas da Ásia Oriental e da América Latina em recessões e depressões, e a "auto imposta e forçada austeridade" em vários países europeus, entre os quais se incluem a Grécia e Portugal, está "exatamente" a gerar os mesmos efeitos.

"Tal como os médicos da Idade Média que acreditavam na sangria, e que quando o doente não melhorava argumentavam que o que ele realmente precisava era de mais uma rodada, os sangradores da economia do século XXI nem sequer hesitam. Exigirão ainda mais austeridade, e encontrarão uma miríade de desculpas para justificar os motivos por que a primeira dose não funcionou como estava previsto. Entretanto, o desemprego aumentará, os salários baixarão e os programas governamentais, de que as classes médias e baixas dependiam, definharão", alerta Stiglitz.

Países como Portugal e Grécia entregaram a sua soberania ao FMI

A seguir à Segunda Guerra Mundial, o FMI passou, conforme adianta o Prémio Nobel, a ser o instrumento eleitoral, a quem os países entregavam a sua soberania.

"Uma coisa, são estes acontecimentos terem lugar em países pobres em vias de desenvolvimento; outra é ocorrerem em economias industrializadas avançadas. É isso o que tem acontecido ultimamente na Europa, uma vez que primeiro a Grécia, depois Portugal e Itália, entre outros, permitiram que o FMI, a par do Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (todos não eleitos), ditassem os parâmetros políticos e designassem governos tecnocratas para implementarem o programa", salienta.

"Os mercados financeiros conseguem o que querem. Podem existir eleições livres, porém, do modo como são apresentadas aos eleitores, não existe uma verdadeira escolha nas questões que realmente lhes interessam, as questões da economia", adianta Stiglitz, sublinhando que “diminuir o campo de ação das nossas democracias é exatamente o que as elites do topo desejavam: podemos ter ainda uma democracia de 'um voto, uma pessoa', mas passámos a viver numa democracia que na prática está mais em consonância com o sistema 'um dólar, um voto'".

Foram os bancos que causaram a crise. E foram os banqueiros que se safaram

Referindo-se ao facto de o Presidente Barack Obama e o sistema judicial norte-americano não terem apontado quaisquer "culpados de alguma conduta ilegal" no âmbito da crise instalada, Stiglitz frisa que "a indústria dos fundos de cobertura não provocou a crise. Foram os bancos que a causaram. E foram os banqueiros que se safaram. Se ninguém é responsável, se nenhum indivíduo pode ser culpado pelo que aconteceu, isso significa que o problema reside no sistema político-económico".

Tácito acordo entre os ricos e os outros foi agora desfeito

Na sua obra, o economista afirma ainda que o “slogan 'somos os 99%' pode ter marcado um importante ponto de viragem de debate sobre a desigualdade nos Estados Unidos".

"Houve, durante anos, um acordo entre as franjas do topo e o resto da sociedade: damos-vos emprego e prosperidade, e vocês deixam-nos sair ilesos com os nossos bónus. Cada um fica com a sua fatia do bolo, mesmo que nós fiquemos com a maior. Porém, esse tácito acordo entre os ricos e os outros, que sempre foi frágil, foi agora desfeito. Os 1% levam consigo as riquezas, mas ao fazê-lo apenas provocam ansiedade e insegurança aos 99%", declara Stiglitz sobre o Movimento Occupy Wall Street.

"Na Europa e nos Estados Unidos, os seus pedidos [dos manifestantes] não são revolucionários, mas sim evolucionários. Contudo, de certa maneira, também estão a pedir muito: uma democracia onde as pessoas, e não o dinheiro, é que interessam; e uma economia de mercado que cumpra o que é suposto cumprir", avança.


 

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