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“Baixar salários para criar emprego nunca funcionou e é uma fraude”

Entre conferências e oficinas durante a IV Universidade de Verão da Esquerda Anti Capitalista, Michel Husson explicou ao Público espanhol a sua visão sobre a crise económica, as consequências de abandonar o Euro e outras formas de criar emprego sem reduzir os salários. Entrevista a Michel Husson, por Jairo Vargas.

No seu último livro, O Capitalismo em 10 lições, explica os elementos chave do atual sistema e as suas diferenças face a décadas anteriores. Acha que o capitalismo está a esgotar-se?

Acho que está a esgotar-se nos velhos países capitalistas por uma razão fundamental: a perda do dinamismo na produtividade do trabalho. Os trabalhadores produziam mais para ganhar mais e consumir os produtos que produziam, mas isto perdeu-se ao reduzir-se o nível aquisitivo.

No entanto, poder-se-ia dizer que este dinamismo encontra-se agora nos países emergentes. Mas estas duas partes da economia mundial estão estreitamente vinculadas, de maneira que se há um decrescimento, uma recessão quase crónica no Norte, terá consequências no Sul, com um modelo onde a fonte do seu mercado vem das exportações para os países do Centro.

Há que entender a combinação desses dois movimentos. O que está a desaparecer é a legitimidade social do capitalismo, a sua capacidade de dar uma resposta, em termos de mercadorias, às necessidades básicas da humanidade. Um dos traços que acompanha esta falta de legitimidade é que o capitalismo funciona em quase todas as partes do mundo com um nível de desigualdades sociais muito importante.

Muitas destas desigualdades sociais estão a agravar-se com as medidas de austeridade. Podemos acabar com a austeridade sem sair do Euro?

A minha posição é que para deixar as políticas de austeridade precisamos de uma rutura com as leis europeias. Se num país existe um Governo de esquerdas que propõe uma rutura, uma pergunta que se faria é se é necessário sair do Euro como primeira medida que condicione as outras. Eu penso que não, que é possível uma rutura com as regras europeias sem sair do Euro e que, além disso, a saída à bruta do Euro seria um debilitamento da relação de forças, porque abriria a possibilidade aos mercados financeiros de especular com a nova moeda.

Não há que excluir a saída do Euro como maneira de retomar a soberania nas decisões, mas é uma arma de último recurso. A ideia de que saindo do Euro tudo é possível parece-me incorreta. Prefiro dizer que primeiro fazemos a rutura [com as políticas de austeridade] e, se necessário, podemos contemplar a possibilidade de uma saída do Euro.

Abandonar o Euro é um debate que se abriu, tanto em países do Sul como do Norte de Europa. Que consequências poderia ter para países como Espanha, Grécia ou Portugal; os que mais estão a sofrer com as políticas de cortes?

A primeira é a dívida, que está fixada em Euros. Saindo do Euro vais desvalorizar a tua moeda e a tua dívida aumentará em termos reais. Pode cancelar-se ou reestruturar-se parte importante da dívida sem sair do Euro partindo de uma posição de força.

A segunda consequência é mais técnica, e é a que suporia um perigo real no ciclo desvalorização-inflação-austeridade salarial para impedir uma inflação descontrolada.

A terça é que seria uma solução não cooperativa que retomaria a competitividade com outros países para ganhar mais mercados. Isto não é uma opção para o conjunto dos países implicados, porque se todos desvalorizarem a sua moeda, nada vai mudar. Há que procurar opções cooperativas que possam englobar a Europa no seu conjunto.

No contexto atual temos índices de desemprego muito elevados. Pede-se uma redução de salários para criar emprego. Que alternativas propõe para reduzir o nível de desemprego?

Há duas soluções de fundo que, a nível histórico, têm provado que as coisas funcionam. A primeira é a redução do tempo de trabalho, isto é, uma redistribuição aos assalariados do aumento de produtividade em forma de redução da jornada de trabalho. A nível histórico sempre existiram lutas sociais nesse sentido e hoje trabalhamos metade do que no século XIX.

A segunda medida é criar emprego do nada nos sectores onde há necessidades sociais ou ecológicas. É a ideia de uma intervenção pública.

A ideia de baixar salários para criar emprego nunca funcionou e é uma fraude. Quando observamos aos países do Sul da Europa - Grécia, Espanha e Portugal, não tanto Itália- vemos uma redução muito forte do custo salarial, mas a contrapartida não é uma melhor competitividade em termos de preços à exportação, senão um aumento das taxas de benefício.

Outra das suas propostas é que o Estado seja o último garante do emprego. Em que consiste?

A ideia propô-la o economista Hyman Minsky, que escreveu uma crítica ao keynesianismo vulgar que pede mais crescimento para ter mais emprego. Segundo ele, isto não é suficiente e o Estado deve compensar e criar empregos. Acho que é uma visão potencialmente anti capitalista porque é contrária à ideia de que para que exista um trabalho este tem que ser rentável. Se há força de trabalho disponível há que usá-la para satisfazer as necessidades ainda que não seja o mais rentável. É uma definição de eficiência diferente à que propõe o capitalismo.

No entanto, vemos como em Espanha se privatizam serviços públicos como a Saúde, se despedem professores, na Grécia e Portugal se fecham empresas públicas. Este é um sintoma do esgotamento do capitalismo?

Sim. De certa maneira é uma compensação que procura o capitalismo, reintroduzir tudo o que estava fora da lógica mercantilista. O capitalismo trata de criar de novo mercadorias onde estas tinham desaparecido, refiro-me a serviços sociais. Pode dizer-se que trata como mercadoria inclusive a própria força de trabalho. Todas as reformas do mercado de trabalho procuram fazer da força de trabalho uma mercadoria como qualquer outra, tratando-a como se respondesse às leis da oferta e da procura.

Nas diferenças que aponta entre o capitalismo atual e o de épocas anteriores, destaca que agora se procura obter mais valor através das finanças. O que pressupõe esta mudança?

A teoria do valor-trabalho diz que só o trabalho produz valor. Portanto, é uma ilusão pensar que as finanças podem criar valor. Nas empresas fala-se de criação de valor mediante os acionistas.Na realidade não é criação de valor, senão uma captação, o valor cria-se com o trabalho e o setor financeiro de certa maneira capta este valor à custa dos assalariados.

Se continuarmos a aplicar as medidas atuais, quando poderemos ver o final da crise?

Existiram duas décadas de acumulação de dívida e, se temos de pagá-la mediante políticas de austeridade e programas que vão contra o Estado social, teremos tantos anos de crise como os que foram necessários para acumular semelhante dívida. É uma ideia singela já apresentada por alguns economistas.

 

Artigo publicado em http://www.publico.es/dinero/464553/bajar-salarios-para-crear-empleo-nun... e reproduzido pelo Viento Sur.

Tradução de Mariana Carneiro.

 


*Michel Husson (Lyon, 1949) é um economista e estadista francês, membro do Instituto de Investigações Económicas e Sociais (IRES). Destaca pela sua visão marxista da realidade económica, como mostram vários dos seus livros. Foi durante várias décadas militante da Liga Comunista Revolucionária (LCR) de França e os seus textos são referência para a esquerda gaulesa.

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