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Golpe de Estado de 1973: Um crime sem culpados?

Há quatro décadas os altos comandos das Forças Armadas cometeram graves delitos de sublevação e rebelião ao derrubar um governo legalmente constituído e suspender a Constituição. Paralelamente instauraram um regime ditatorial com uma feroz repressão. Nem os executores do golpe nem os civis com que conjuraram foram julgados, até agora reina a impunidade. Por Víctor Hugo de la Fuente.
Bombardeamento ao Palácio de La Moneda, 11 setembro 1973 - Foto de santiagonostalgico/flickr

O regime cívico-militar, que durou 17 anos, liquidou o projeto de socialismo democrático e instaurou uma ditadura, que foi um laboratório na aplicação de políticas neoliberais no mundo, reduzindo o papel do Estado, privatizando o mais possível, fazendo até da educação e da saúde simples mercadorias. Uma das consequências foi ampliar as desigualdades, sempre a favor dos mais poderosos.

Os que sucederam à ditadura continuaram a administrar o modelo económico e inclusive ampliaram as privatizações (abertura da exploração do cobre às multinacionais, da água...).

Por sua vez, os que deram o golpe de Estado e eliminaram a Constituição, hoje têm a desfaçatez de propor que a Constituição da ditadura só deve modificar segundo as normas que ali se estabelecem. Mais surpreendente ainda é que opositores à ditadura tenham a mesma posição e – juntamente com a direita- se neguem a apelar a uma Assembleia Constituinte para elaborar e aprovar democraticamente, com um plebiscito, uma nova Constituição.

Chama a atenção que no nosso país nos anos da Unidade Popular não sejam muito conhecidos nem reivindicados, mas têm sido denegridos, enquanto Salvador Allende - com razão - tem ganhado em prestígio e é bem mais valorizado, no entanto a grande obra de Allende é, precisamente, a Unidade Popular. As forças políticas que foram participantes desse projeto não o reivindicaram, em parte – seguramente - porque hoje já não têm essas posições revolucionárias de transformação da sociedade, já que nem sequer propõem, para dar apenas um exemplo, a nacionalização do cobre.

Com o passar do tempo, ressalta ainda mais a figura de Allende e a sua clarividência. Basta recordar o seu discurso sobre o começo da globalização neoliberal, na ONU, a 4 de dezembro de 1972, criticando “o poder e o acionar nefasto das multinacionais, cujos orçamentos superam o de muitos países... Os Estados aparecem interferidos nas suas decisões fundamentais - políticas, económicas e militares - por organizações globais que não dependem de nenhum Estado e que não respondem nem estão fiscalizadas por nenhum parlamento, por nenhuma instituição representativa do interesse coletivo”.

Queremos destacar o compromisso e a fidelidade de Allende, até à sua morte, com as causas sociais e políticas dos mais pobres e ao mesmo tempo o seu realismo político, a sua capacidade de agitar, de educar e sobretudo de unir forças em torno de um programa popular, dirigindo esse gigantesco movimento que levou o povo ao governo em 1970.

Há que recuperar a memória de um presidente que fez da ética o seu mais alto valor, que morreu no bombardeado palácio da Moeda, recalcando o seu combate por um socialismo democrático e revolucionário. Allende não é um simples mártir, não se deve esquecer que sob o governo da Unidade Popular o Chile recuperou o cobre, aprofundou a reforma agrária, defendeu o ensino público e gratuito, criou a área social da economia, promoveu a participação popular nas decisões. Com Allende os chilenos recuperaram a dignidade.

Claro, a Unidade Popular cometeu erros e Allende atuou às vezes com certa ingenuidade1, mas os erros não justificam, em nenhum caso, o golpe de Estado, que foi um crime contra o povo e a democracia. Como ficou demonstrado, a Unidade Popular e Além foram vítimas das transnacionais, do império norte-americano, dos grandes empresários chilenos e da traição dos militares golpistas. Jamais se deve confundir as vítimas com os verdugos, nunca o erro de uma vítima justifica o crime contra ela.

O exemplo de Salvador Allende hoje vive nos combates dos estudantes e dos povos, tanto no Chile como na América Latina. O seu exemplo ajudar-nos-á a conquistar esse outro mundo tão necessário e possível com o qual tantos sonhamos.

Artigo de Víctor Hugo de la Fuente, publicado em lemondediplomatique.cl


1 Ver documentário “O último combate de Salvador Allende”. Quando de manhã cedo no dia 11 de setembro de 1973 não consegue localizar a Pinochet, Allende diz a Carlos Jorquera, “Pobre Pinochet, deve estar preso”.

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