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Ser jovem em tempos de crise

A incerteza sobre o futuro a longo prazo é, hoje, característica dos jovens em tempos de crise. Fazer planos a longo prazo é algo fora do alcance da grande maioria das pessoas.

Há quem diga que ser jovem é experienciar a vida ao máximo, “enquanto se pode”; viver relativamente despreocupado, estudar algo de que se goste, viajar para se ganhar experiência de vida, desfrutar culturalmente do que a cidade onde se vive tem para oferecer. Há quem diga, também, que ser jovem é transgredir os limites e as regras impostas pela sociedade, porque essa rebeldia depois passa, quando se tiver responsabilidades e se começar a trabalhar.

Tudo visões de uma sociedade que permitia (quase) tudo e desculpava (quase) tudo por se ter determinada idade. Mas hoje, em tempos de crise, ser jovem é algo completamente diferente. A incerteza e instabilidade para o futuro é, por vezes, insuportável. Com 18 anos, será que queremos decidir imediatamente que área queremos estudar, o que poderá decidir o nosso futuro? Será que vamos ter dinheiro, sequer, para nos candidatarmos à faculdade? Será que, depois de acabada uma licenciatura (tendo essa oportunidade), conseguimos encontrar trabalho na nossa área?

A incerteza sobre o futuro a longo prazo é, hoje, característica dos jovens em tempos de crise. Fazer planos a longo prazo é algo fora do alcance da grande maioria das pessoas. As opções que hoje se nos apresentam estão inerentemente ligadas ao dinheiro que temos para despender em educação; com mais de 1.000€ de propinas por ano, milhares são os que já nem põem essa hipótese ou desistem dela quando estão a meio. Depois de gastos mais de 3.000€ em propinas (já sem contar com o resto), arranjar trabalho afigura-se o próximo passo, mas também esse já não é certo. Muitos e muitas são os jovens que cada vez mais se vão contentando com part-times fora das suas áreas de estudo porque têm que sobreviver.

O aumento de propinas e dos custos inerentes à atividade de estudar, as condições económicas das suas famílias, no fundo, o dinheiro que uma pessoa tem ou não tem determina, hoje, as perspetivas que um jovem pode ou não ter para o seu futuro. Ou seja, numa visão mais profunda, o acentuar da crise, do desemprego, da baixa do poder de compra das famílias, determina que as pessoas, e os jovens em particular, viram reduzidas a sua liberdade de escolha e, até, de expressão.

Deixamos de ter liberdade de escolha quando o acesso à educação tem como barreira uma determinada quantia de dinheiro, cada vez menos suportáveis pelos portugueses. Deixamos de ter liberdade de escolha quando abdicamos de tentar fazer algo que nos dá prazer porque temos que sobreviver e escolhemos aquilo que nos dá um salário mais ou menos seguro ao fim do mês, mas que pouco mais dá para pagar renda e contas. Deixamos de ter liberdade de expressão quando o próprio sistema de ensino é formatado a determinados cânones e daí não podemos fugir enquanto somos estudantes. Deixamos de ter liberdade de expressão quando cada vez mais definhamos a uma vida que não abre espaço à criatividade e pensamento crítico.

Tudo isto porque há uma crise agravada a cada dia que passa por um governo que despede funcionários, corta salários, pensões e reformas, que aumenta propinas, que diminui salários, que encoraja a precariedade e o desemprego, que obriga os jovens a emigrar.

Apesar de tudo isto, ser jovem em tempos de crise tem, cada vez mais, que ser a luta pela liberdade de escolha sobre o nosso futuro, contra os governos do austeritarismo e da passividade.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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