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Microsoft-Nokia: um choque de culturas difícil de vencer

A compra do setor de telemóveis da Nokia pelo gigante informático Microsoft pode revelar-se trágica para os dois lados do negócio. Andre Spicer, professor de comportamento organizacional em Londres, explica porquê neste artigo publicado no portal The Conversation.
Stephen Elop e Steve Ballmer, os CEO's da Nokia e Microsoft que acertaram o negócio tecnológico do ano.

Entre as nações ocidentais será difícil encontrar duas culturas tão diferentes quanto a dos EUA e Finlândia. Os norte-americanos são em geral confiantes e extrovertidos; os finlandeses são bastante mais reservados. Isso até se reflete nas economias de ambos os países: os EUA são a casa do mercado livre capitalista; a Finlândia é o protótipo da social democracia europeia.

Claro que isto são apenas estereótipos, mas dão-nos pistas sobre alguns dos verdadeiros desafios que a Microsoft irá provavelmente enfrentar ao integrar o departamento de telemóveis da Nokia, que acaba de adquirir por 5,4 mil milhões de euros.

A compra foi anunciada com pompa e circunstância tanto pela administração da Microsoft como da Nokia. Para a Nokia, o negócio é visto como uma porta de saída do mercado de telemóveis. Apesar de já terem  dominado esse setor no passado, hoje estão muito atrás dos líderes de mercado, a Apple e a Samsung. Para a Microsoft, esta compra é uma forma de ficarem com um componente de hardware móvel que lhe permita competir em pé de igualdade com a Apple e a Google. 

Embora a retórica em torno do negócio soe bem, a realidade será mais complicada. Os estudos indicam que a maior parte das fusões e aquisições tendem a destruir em vez de criar valor.

De facto, a história da Microsoft na última década é um bom objeto de estudo desta regra básica. Quando o agora ex-presidente executivo (CEO), Steve Ballmer, tomou posse em 2000, a empresa tinha o domínio absoluto na sua área de intervenção e o preço das ações batia recordes. Durante o mandato de Ballmer assistimos a uma série de aquisições, inovações duvidosas e estagnação da cotação em bolsa. Há pouco tempo, um jornalista nova-iorquino ironizava dizendo que Ballmer finalmente encontrara maneira de fazer algum dinheiro – demitiu-se.

Talvez não devamos olhar tanto para a aquisição da Nokia como uma jogada estratégica perspicaz, mas mais como um dos últimos grandes decretos do regime de Ballmer. De facto, há estudos que sugerem que os CEOs tendem a ficar viciados em fusões e aquisições, apesar da sua rentabilidade estar em queda.

A arrogância dos CEOs tem aqui um papel importante. A mania das grandezas leva-os muitas vezes a desenhar cenários cor-de-rosa sobre as aquisições de empresas. E tornam-se mais suscetíveis a negligenciar os riscos significativos que advêm de qualquer aquisição. Tudo isto são notícias pouco animadoras para os acionistas da Microsoft - a acreditar nos estudos nesta área, é pouco provável que ganhem alguma coisa que se veja desta compra da Nokia. Na verdade, é bem provável que sofram perdas.

Mas os acionistas não serão os únicos a perder. O futuro ameaça tornar-se relativamente sombrio para os trabalhadores do setor de telefones da Nokia. Já existem relatos na imprensa finlandesa de que muitos estão preocupados com perder o seu emprego. Isto surge no seguimento de uma vaga de despedimentos nos últimos anos.

Mesmo para quem consiga manter o emprego, viver sob o regime da Microsoft será provavelmente difícil. A fusão das culturas após uma aquisição é quase sempre difícil, senão impossível. Uma consequência comum é a saída dos profissionais cujo talento é crucial para o sucesso da empresa. Os que ficam, muitas vezes tornam-se relativamente cínicos. Isto normalmente dá origem à perda da sua vantagem na inovação - que fora muitas vezes o motivo que levou a comprá-la. Trata-se um um mau prenúncio para o setor de telemóveis da Nokia. A seguir ao negócio da Microsoft, tornar-se-á provavelmente numa zona morta de inovação, empregando cínicos amargurados.

O público em geral é o último perdedor deste negócio. Apesar de toda a conversa sobre a grande competitividade do negócio dos telemóveis, na verdade ele é dominado por poucos operadores. A integração crescente de hardware e software significou que uma pequena mão-cheia de empresas como a Apple, Google e agora a Microsoft estão em todos os bolsos.

Isso levanta grandes preocupações sobre quem detém, controla e vigia os nossos dados pessoais. Afinal de contas, muitos destes operadores não são apenas empresas tecnológicas que estão na berra, são também empresas de vigilância sobre os consumidores. A compra da Nokia pela Microsoft representa mais um passo na consolidação deste mercado. Mas também pode representar um novo passo para a consolidação do controlo dos nossos dados pessoais por parte de poucas empresas.

Se este negócio pode criar tantos perdedores, porque é que avançou? Bom, também haverá certamente grandes vencedores. Para começar, parece que os acionistas da Nokia já ganharam com um enorme salto no preço das ações, logo a seguir ao anúncio da aquisição. Os administradores de topo que fizeram o negócio também ficam a ganhar com isso. Um estudo sugere que quando os CEO's vão às compras - mesmo as mal sucedidas - acabam por ter um chuto nos prémios remuneratórios, bem como uma agradável massagem no ego. 

O último vencedor escondido à espreita é o exército de assessores, consultores e afins, que irão ganhar um naco significativo dos custos da transação que dizem respeito ao trabalho de unir os dois negócios - e a varrer tudo no fim.  


André Spicer é professor de Comportamento Organizacional na Cass Business School da City University London.

Artigo publicado no portal The Conversation. Tradução de Luís Branco. 

The Conversation

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