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A Leste. Afinal, o que há de novo?

Entre 3 a 5 Setembro decorrerá na Polónia o 23º “Fórum Económico”. Trata-se de uma espécie de cimeira de Davos, a qual este ano é dedicada à ideia de um novo “New Deal”.

Seja por um excessivo sentimento periférico, seja por uma dependência em relação ao “establishment” intelectual e financeiro das capitais da “velha europa” que nos estão mais próximas, uma coisa parece certa: em Portugal vê-se mal ao longe. Contudo, hoje algo se move fora do perímetro das nossas referências clássicas. Valerá a pena refletir sobre isso antes de sermos tomados pelo ritmo frenético das convulsões que marcarão a agenda da vida pública em mais uma “rentrée”.

Na semana que agora se abre vai ter lugar um evento de grande escala raramente falado por cá, tão inoculada está no inconsciente a perceção que a Europa é por definição só esta, a ocidental, em que nos inserimos geograficamente. Entre 3 a 5 Setembro decorrerá na Polónia o 23º “Fórum Económico”. Trata-se de uma espécie de cimeira de Davos, a qual este ano é dedicada à ideia de um novo “New Deal”. O objetivo da conferência é criar um clima favorável a um debate sobre o desenvolvimento de novas ligações na Europa até porque o dinamismo relativo dos protagonistas está a evoluir e a tapeçaria das influências cruzadas a transformar-se.

A discussão neste tipo de contexto é habitualmente muito estruturada. Pelo esforço investido na preparação dos trabalhos podemos colher indicações interessantes para o futuro. Afinal que ventos novos sopram a Leste?

Entre os vários assuntos-desafio abordados, que denunciam em parte o pulsar das preocupações e das expectativas em jogo, registamos este: que nova lógica de gestão macroeconómica durante e após a crise global? Um dos tópicos mais centrais é justamente a forma como o sistema financeiro criou riscos impensados e como a política monetária não pode mais ser desenhada na inconsciência (deliberada? perguntamos nós) da atuação da finança internacional. Os organizadores do Fórum julgam que uma arquitetura económica adequada terá de emergir antes do fim da década. Até lá duas formas de comportamento geral poderão ter lugar: 1) ou um reforço da cooperação entre Estados, 2) ou uma concorrência sem freio pela atração de um capital cada vez mais nervoso e móvel.

Isto é, uma leitura pode pelo menos fazer-se: muitas das regras antes vistas como inquestionáveis estão a ser revistas, e isso discute-se abertamente a Leste. O que não está garantido é se as novas regras vão ser melhores que as anteriores. Estes cinco anos de impunidade de especuladores de topo e a persistente falta de transparência nos mercados de dívida e derivados devem ser um alerta. Estes cinco anos de descarado reforço da ascendência alemã em instituições antes tidas como “comunitárias” e esta escandalosa inimputabilidade que se arrasta de modelos económicos sem qualquer aderência à realidade só nos devem preparar para o embate. Pior é sempre possível.

Outro grande desafio que está acoplado ao da governança económico-financeira global é toda a questão do crescimento. Uma pergunta-chave do Fórum é: de onde virá o novo crescimento económico?

Na área dos novos motores de crescimento, um tema muito destacado é o da eco-inovação. É esta área que eu próprio, enquanto economista português convidado, sou esperado introduzir. A ocasião poderá ser entendida em duas vertentes. Em primeiro lugar, os avanços registados em Portugal na área da sustentabilidade não passaram despercebidos aos observadores mais atentos. Em segundo lugar, o convite, que me é lançado enquanto Diretor de uma Licenciatura em Economia, não é por acaso: na Europa as universidades Portuguesas são muito competitivas e atraem cada vez mais atenção. O ISCTE-IUL, por exemplo, atraiu no ano letivo passado nada menos que 1.261 estudantes estrangeiros (mais de metade deles ao nível pós-graduado, mestrado e doutoramento). Destes alunos estrangeiros que nos chegaram em 2012/2013 nada menos que 36% vieram do Centro e Leste Europeus. Aliás, no ISCTE-IUL são precisamente os alunos polacos que mais nos procuram.

Ou seja, Portugal tem setores de base científica que já são bem-sucedidos e serviços públicos que não pedem licença para serem exportadores de alto desempenho. Estes setores estão a ter uma performance robusta e reconhecida em mercados interessantes, sobretudo naqueles poucos espaços que têm tido resiliência à atual crise. (Nota: os estudantes da Europa ocidental que mais procuram os cursos do ISCTE-IUL vêm justamente da Alemanha). Perante tantos bons exemplos entre nós, que faz a Troika? Ignora os progressos. E que faz o cúmplice governo português? Compromete deliberadamente os desenvolvimentos em ciência, inovação e sustentabilidade que tantos anos levaram a construir e que são o fundamento de um crescimento económico equilibrado, inclusivo e duradouro.

Mas, obviamente, o Fórum Económico é mais que um ninho de debates. Este é o local físico que por uns dias é marcado por densas interações, onde se forjam as redes que mais tarde dão verdadeira forma às políticas transnacionais (dentro e fora da União Europeia). A importância deste Fórum suscita a comparência de presidentes, primeiros-ministros, grandes empresários e outros decisores influentes (reguladores, gestores de multinacionais, etc.). O encontro ao motivar reuniões entre diversos ministros (por exemplo da Justiça) tem efetivamente representado um novo círculo de deliberação coletiva inter-Estados. Mas para este novo núcleo de interação são ainda convocadas centenas de jovens vindos de 41 países e que são preparados em múltiplos debates para eles próprios absorverem uma visão mais abrangente do que é uma Europa mais alargada, mais confiante e mais diversificada.

Ou seja, o histórico grupo de Visegrado (a aliança entre Polónia, República Checa, Hungria e Eslováquia) parece realmente ressurgir, mas agora numa versão em expansão. Por outras palavras, se as periferias da Zona Euro têm tristemente fracassado em impor o seu interesse comum junto das potências hoje claramente hegemónicas na União Europeia, isso não tem sido verdade para outros grupos de países mais consequentes no reconhecimento das vantagens e da legitimidade de novas parcerias.

Em conclusão, ainda existe entre nós quem acredite que a saída para Portugal é apenas a Europa. Em particular: que a resposta à crise é “mais Europa”, que a verdadeira utopia continua a ser o “federalismo”, que depois das eleições alemãs é que se poderá fazer política comum “a sério”, etc. Enfim, ainda há gente presa na jaula de ferro de premissas ultrapassadas. Afinal, as perguntas certas talvez sejam estas: De que Europa estamos a falar? Não são as redes flexíveis, nas suas múltiplas interligações, a forma de ação coletiva mais resiliente em tempos de incerteza? E não estão os problemas da Europa cada vez mais parecidos com aqueles de há cem anos?

Versão de artigo publicado no jornal “Público” de dia 1 de Setembro

Sobre o/a autor(a)

Professor de Economia. Diretor da Licenciatura em Economia, ISCTE-IUL Business School.
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