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Os remendos de ocasião

Não há cegueira mais grave que aquela causada pela ilusão.

39 anos de democracia são ainda de uma juventude demasiado inocente para acreditar em promessas para o que os olhos veem hoje, esquecendo o que os olhos viram em todos os dias anteriores.

Os vendedores de ilusões, esses agradecem, prevalecendo na democracia como parasitas, subsistindo dela ao invés de a enriquecerem. Vendem ilusão fáceis, de deslumbre rápido que esbate a qualquer olhar mais atento

Insistem alguns nos remendos sucessivos de uma estrada que não conduz a lado nenhum. O alcatrão que de maneira grosseira camufla um problema atual, atira para o futuro a evidência do seu vazio.

Hoje embelezam-se os jardins, com o dinheiro que ontem nunca existiu. Hoje aproximam-se os governantes dos cidadãos com uma vontade revigorada e fato de gala, quando antes apenas exibiam um desdém vestido do traje de má vontade

Hoje revigoram-se as promessas de sempre, votadas ao abandono como nunca. Hoje escutam-se todas as vozes, enaltece-se a sua importância, quando ontem eram apenas burburinho incómodo.

Hoje promete-se investimento, futuro e esperança quando ontem pouco sobrava para além de um abandono cinzento, desesperado e desesperante. Prometem-se incentivos quando ontem se vociferava a necessidade do galopante e feroz aumento de impostos.

Hoje promete-se união quando o caminho de ontem foi marcado pelos passos de alguns, que a larga distância deixaram as necessidades da maioria, marcando o passo com a cadência que exigiam os seus interesses pessoais.

Hoje ligam-se os aspersores nos jardins degradados, jorram as fontes, quando ontem se impunha uma seca, necessária à cega poupança.

Hoje decide-se se insistimos em tapar os buracos do presente, ou se despertamos para a necessidade de construir uma nova estrada, um novo rumo.

Hoje muitos são os rostos que se nos apresentam, carregados, demasiados deles, de alcatrão nas suas costas, remendando-se conforme as necessidades, polindo a sua manta de retalhos para que os vejam como um novo caminho que não são. Hoje estão presentes não apenas os que governaram de forma desastrosa, como todos aqueles que tendo oportunidade de se opor preferiram remeter-se a um cúmplice silêncio.

Chegámos à altura de decidir se queremos relva aparada apenas hoje, estradas com cores retocadas e buracos remendados, bairros com limpezas de ocasião, comerciantes com palavras de incentivo, após amordaçamos pelo aumento de impostos.

Optamos pela ilusão ou ousamos optar pela evidência? Não há alcatrão suficiente, cantoneiros suficientes, empresas privadas contratadas avulso com dinheiro que não existia, rendas pagas em vãos de escada ou artimanhas afins que salvem governantes, empenhados, anos a fio, a escavar buracos, negados até quando na mão tinham a picareta.

Se por este nosso Portugal fora votarmos nos remendos que vemos hoje, se anuirmos a esta cabala patética de ilusão, então mereceremos quem elegermos. Se insistirmos em retoques numa estrada de trajeto bem conhecido, mereceremos mais 4 anos de um abandono suspenso apenas à conveniência.

Os retoques de hoje são o admitir das imensas falhas de ontem. Os retoques de hoje serão a ilusão de um amanhã melhor apenas para os cegos, aqueles que contra anos de evidência não largam a ilusão.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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