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Lei de emergência, Caos Político e Mobilização Social

Depois das manifestações de 30 de junho, as imensas vagas de greves que as precederam durante três meses, é quase certo que a população saia novamente à rua por reivindicações próprias: “pão, justiça social e liberdade.” Por Jacques Chastaing, A l'encontre
Manifestação pró-Morsi. Foto de VOA

Nesta hora exata, vendo bem a lógica geral, isto é, evitando a cólera social contra a Irmandade Muçulmana, e usando a violência para decretar uma espécie de lei marcial, é difícil saber o que se passou durante os massacres. Os militares e a Irmandade mentem uns contra os outros. E sobretudo, dispomos de pouca informação sobre o que se passa fora do Cairo ou de Alexandria.

Não podemos ter dúvidas acerca do aumento da violência do exército. Mas no Twitter já encontrei mensagens que, por exemplo, assinalam confrontos entre “residentes” exasperados e manifestações de irmãos muçulmanos que atacam pessoas insultando-as à sua passagem e linchando-os. Os irmãos arrancam os cartazes de Al-Sissi das lojas e dos carros. Deitam fogo às lojas e aos carros; quase que atingem as igrejas coptas.

Assim, em Port-Said, no dia 28 de julho, durante o funeral de um jovem da Irmandade morto dois dias antes, o cortejo que queimou lojas coptas, perto das igrejas, fez um morto e 28 feridos. Em reposta, a população saiu à rua e linchou ou tentou linchar alguns dos manifestantes. Consequentemente, o movimento da juventude de Port-Said decretou um recolher obrigatório contra a Irmandade e ainda o encerramento obrigatório das suas lojas. Sinais do mesmo tipo de eventos ocorrem em Helwan e no Cairo, nos bairros de Menofiya e, ontem, em Duweiga, Mansheya...

Isto parece lógico quando, por um lado, vemos uma grande parte da população a apoiar Sissi e, por outro lado, uma minoria violenta a manifestar-se. Até aqui constatámos que existia uma indiferença total da população perante a Irmandade. “Vão massacrá-los? Bem que as pediram.”

Poderá haver uma mudança de opinião com tantos massacres por parte do exército?

Nesse dia, vimos democratas do Movimento 6 de Abril do Tamarod denunciar a violência militar e, sobretudo, o uso da luta contra o terrorismo (luta que, pelo contrário, os sustém) se esta conduzir à restauração do antigo aparelho da Segurança do Estado, anunciado ontem. Contestam as limitações de todas as liberdades e dos direitos do homem. No entanto, parece que o governo vai em direção à criação da “lei de emergência.”1

De longe, apoiar Al-Sissi e ser indiferente à sorte da Irmandade, por um lado, e atacá-los violentamente, por outro, não é a mesma coisa.

Será que os “habitantes”, os “residentes” que são apresentados como atacantes da Irmandade, em diversos lugares, são incentivados pela geração pró-Mubarak?

Certamente, haverá coisas reais que correspondem a um profundo sentimento popular. Aquilo que se passou em Port-Said parece lógico, dado o ódio com que os responsáveis da Irmandade apelaram aos seus apoiantes para atacarem as Igrejas Coptas. Recentemente, tiveram lugar outros incidentes do mesmo tipo. Na praça Rabaa al-Adaweya onde a Irmandade se estabeleceu há mais de três semanas (é uma zona que lhes é hostil) compreendemos que os habitantes se tenham fartado. Com efeito, este é um campo entrincheirado; para entrar nele, ir trabalhar, ir às lojas, ir à farmácia, é necessário passar por vários postos de controlo suspeitos que, para uma mulher sem véu, são impossíveis de cruzar. Milhares de pessoas (pelo menos) permanecem aqui. Não há estrutura sanitária (WC, água corrente) e, portanto, fazem as suas necessidades nos jardins dos residentes, cantam toda a noite, disparam armas automáticas, etc. De repente, criou-se um comité de residentes do local, com página no Facebook, que exprime o seu descontentamento.

É portanto possível que a violência de ontem tenha sido provocada pelos confrontos entre os residentes que desejam evacuar a Irmandade. Teriam degenerado. Ou então provocadores de todos os lados deitaram achas para a fogueira.

Por isto é que estão leis de emergência e duas leis marciais em preparação, houve uma boa quantidade destas nos últimos anos. Embora jamais respeitadas pela população. Não vemos por que razão amanhã será diferente; mesmo se a ditadura militar e policial custaram, de facto, muitas vidas e muito sofrimento.

Não acredito que as greves e as lutas sociais parem por causa do pretexto da luta contra o terrorismo invocada por Al-Sissi. O importante e o decisivo está ali. Que vão fazer as pessoas que passam fome, que não têm um telhado decente, que já não podem comprar alimentos como deve ser, que devem fazer perante o encerramento das empresas, etc.?

Nos últimos dias, em 25 de julho, não obstante o apelo inicial do principal sindicato da oposição para acabar com as greves, juntamente com o atual presidente e Ministro do Trabalho, notamos apesar de tudo os títulos do jornais: “Nova vaga de greves e de sit-in” e de greves desde a Toshiba e Iron Steel no Suez, até à companhia de impressões Muharram em Alexandria (para exigir, entre outras coisas, a demissão do diretor), desde o Hospital Mont Sinai até aos funcionários do sector dos transplantes no Nouvelle Vallée (no sudoeste do país, capital da região: Al-Kharga), aos funcionários da Região Assouan, aos professores... Faltam informações. Com efeito, os jornalistas e uma parte dos militantes revolucionários democratas interessam-se pouco por este tipo de lutas.

De qualquer maneira, apesar de toda o entusiasmo em volta de Al-Sissi, a Irmandade Muçulmana e os seus confrontos, depois das manifestações de 30 de junho, as imensas vagas de greves que as precederam durante três meses, é quase certo que a população saia novamente à rua por reivindicações próprias: “pão, justiça social e liberdade.”2 Serão, no entanto, reforçadas por aquilo que se passa hoje, começar a estabelecer o seu próprio poder e os seus órgãos de “decisão”, os seus próprios comités dentro do maior número de domínios.

Publicado por A l'encontre em 28 de Julho de 2013.

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

1 Mathias Taylor e Daniel Vallot, RFI – em 28 de Julho, às 20h26 – escreveram: “Ahmad Wahdan é um membro fundador do partido Doustour, o mesmo de Mohamed El Baradei. Como outros no seio da coligação anti-Morsi, condenou a brutalidade da repressão exercida contra os militantes islamitas. “O Estado tem o direito de fazer face ao terrorismo mas respeitando a lei, os direitos do Homem e a Constituição. Se não o faz, então será como o regime de Mubarak e como o de Morsi.” Não obstante as suas reservas, os militantes anti-Morsi continuam, na sua maioria, a apoiar o exército egípcio e o general Al-Sissi. Mas certas organizações denunciam desde já a deriva autoritária do novo regime.” Aquilo que o general Sissi fez ao dizer que queria lutar contra o terrorismo, mostra que ele procura um pretexto para silenciar toda a oposição, explica Chérif Arhoubi, porta-voz do Movimento 6 de Abril, nascido da revolução anti-Mubarak. Não apenas a Irmandade Muçulmana, acrescentou ele, mas também todos os que se opuserem ou tentarem contestar.” E isto inquieta igualmente os militantes do 6 de Abril, é a quota de popularidade de que gozam o exército e o general Sissi.” Estes militantes, pouco ligados de maneira ativa às lutas sociais dos assalariados afirmam: “Será muito difícil, dentro dos próximos meses, mobilizar os egípcios contra instituição militar e contra um eventual retorno aos métodos da era Mubarak.” (Redação de A l’Encontre)

2 No dia 28 de Julho, os editores de Jadalliya escreviam na conclusão de um artigo sobre a “guerra contra o terrorismo” do novo governo e dos militares egípcios: “Qual será a sequela no Egito? Há poucas dúvidas de que a estrutura transitória sustentada pelos militares – como as precedentes – é estruturalmente inapta para fazer face à crescente desigualdade que, ao fim de muito tempo, nutre os conflitos entre sectores importantes da sociedade e o Estado egípcio. O poder transitório atual está funcionalmente direcionado para proteger as instituições estatais perante as reivindicações populares e as mudanças revolucionárias. Substituir simplesmente a Irmandade Muçulmana por uma nova coligação entre os militares dirigentes e os civis, mesmo sob a sombra das instituições ditas democráticas, não vai impedir que venha à tona o combate pelo pão, pela liberdade e pela justiça social. Consequentemente, pode-se simplesmente afirmar que não é senão uma questão de tempo até que haja um confronto aberto entre partidários de uma mudança profunda e a ordem política nas mãos dos militares. Contudo, mesmo que este confronto seja provável, a minoria que se opõe tanto aos militares como à Irmandade está perante desafios importantes. Os eventos da semana passada fornecem provas da via difícil que se abre perante eles. A revolução de 25 de Janeiro de 2011 enfrenta um combate pela sua existência num contexto dentro do qual o poder e a resistência estão mais intrincados do que nunca.” (Redação de A l’Encontre)

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Resto dossier

Egito, revolução e golpe de Estado

Na noite de 3/7/2013, o Exército anunciou a deposição do presidente Mohammad Morsi, contestado por grandes manifestações. O presidente foi detido, órgãos de comunicação ligados à Irmandade Muçulmana fechados e as forças repressivas mataram dezenas em manifestações pró-Morsi. Que aconteceu? Neste dossier, coordenado por Luis Leiria, procuramos contribuir para a compreensão do rumo que o Egito está a seguir.

Não em nosso nome!

Sim, a Irmandade causou sofrimento às massas quando exerceu poder; mas o Exército quer restaurar a “estabilidade” – ou seja o regresso de uma certa ordem e do regime. Quer acabar com a revolução, e usará a Irmandade para tal. Declaração dos socialistas revolucionários egípcios.

“Não deixem que o exército vos engane!”

Apelo de Fatma Ramadan, do comité executivo da Federação Egípcia dos Sindicatos Independentes (EFITU): A “permissão” [solicitada ao povo egípcio] pelo general Al-Sissi, é um veneno mortal. Não se deixem enganar substituindo uma ditadura religiosa por uma ditadura militar.

Graxa democrática para botas militares egípcias

O Ministério do Interior anunciou que vários órgãos de segurança que foram desmantelados depois do levantamento popular de 2011 serão restabelecidos. O governo também disse que pode voltar a adotar a Lei de Emergência, usada durante anos para reprimir a oposição política. Por Cam McGrath, da IPS

Direto do Egito: Uma traição para entrar na história

Desde o derrube do presidente Mohamad Morsi, no dia 2 de julho, a esmagadora maioria dos dirigentes com algum tipo de inserção na juventude ou nos círculos operários passou a apoiar ou integrar o atual governo dirigido pelo Exército. E pior, o processo de adesão ao regime ocorre em meio ao derramamento de sangue de dezenas de trabalhadores e camponeses apoiantes do presidente deposto, que estão a ser massacrados pelas Forças Armadas. Por Aldo Sauda, do Cairo

Lei de emergência, Caos Político e Mobilização Social

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“Forças Armadas do Egito não querem a democracia”

Em entrevista à Carta Maior, o egípcio Omar Ashour, professor da Universidade de Exter, analisa o impasse político que vive o seu país, após o golpe militar que derrubou o governo de Mohammed Morsi. Para ele, as forças armadas egípcias não aceitam um controlo democrático e estão dispostas a fazer o que for preciso para permanecer no poder. “O atual governo com civis com doutoramento e PhD foi nomeado pelos militares e só fará o que os militares disserem. Se houver um confronto eles serão afastados”, diz Ashour. Por Marcelo Justo, de Londres.

O Exército, a Irmandade Muçulmana e a Arábia Saudita

A saída de Morsi constitui incontestavelmente uma vitória para a Arábia Saudita e para os Emirados Árabes Unidos e uma derrota para o Qatar. O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan é outro que perde com a nova realidade política egípcia. Por Alain Gresh.

Egito e Síria: o grande dilema

Talvez vocês enfrentem o mesmo dilema moral que eu: Que pensar acerca da Síria? Que pensar acerca do Egito?

PC egípcio afirma que foi uma "revolução democrática", não um golpe

Para Salah Adli, secretário geral do partido, o movimento que derrubou o presidente Mohammad Morsi do seu cargo não foi um golpe de Estado militar, mas sim uma Revolução feita pelo povo para se desfazer de um regime fascista.