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O Exército, a Irmandade Muçulmana e a Arábia Saudita

A saída de Morsi constitui incontestavelmente uma vitória para a Arábia Saudita e para os Emirados Árabes Unidos e uma derrota para o Qatar. O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan é outro que perde com a nova realidade política egípcia. Por Alain Gresh.
Manifestantes comemoram o derrube de Morsi. Foto de S. Behn.

Para evitar o banho de sangue e a guerra civil, os militares vão conduzir o Egito por um período que não excederá um ano”. Na madrugada de 30 de junho, na sequência das manifestações contra o presidente Mohamed Morsi, um dos grandes diários sauditas, Okaz, desenvolvia num editorial o cenário de saída da crise no Cairo. Alguns dias mais tarde, Morsi era derrubado pelo Exército. Esta presciência não tinha nada de espantar: há meses que o alto comando egípcio se coordenava com Riade.

Os militares tinham obtido a garantia de que o reino viria em socorro do Egito em caso de eliminação da Irmandade Muçulmana, detestada pela família real1. No entanto, esta pôs uma condição: que o antigo presidente Hosni Mubarak fosse mais bem tratado. O reino, que tinha acolhido o antigo presidente tunisino Zine El Abidin Ben Ali, não suportava o tratamento infligido ao antigo raïs. O rei Abdallah foi um dos primeiros a felicitar os novos dirigentes do Cairo. Comprometeu-se a enviar cinco mil milhões de dólares de ajuda, mil em cash, dois mil em produtos petrolíferos e dois mil em depósitos bancários.

A saída de Morsi constitui incontestavelmente uma vitória para a Arábia Saudita e para os Emirados Árabes Unidos e uma derrota para o Qatar, que, além disso, viu o seu homem que estava à cabeça da Coligação Nacional síria ser afastado e substituído por um próximo de Riade. Tendo passado por uma transição suave com a subida ao trono do filho do emir, o Qatar irá reorientar a sua política? Em todo o caso, a sua rivalidade com o poderoso vizinho não vai desaparecer, mesmo se os dois países dependem da aliança estratégica com os Estados Unidos.

O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan é outro que perde com a nova realidade política egípcia. Condenou o golpe de Estado no Cairo. Podemos ver nessa atitude apenas a expressão de uma solidariedade entre formações islâmicas, entre o AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento) e a Irmandade Muçulmana; mas seria esquecer que todos os partidos políticos Turquia, da direita nacionalista às organizações curdas, desaprovaram a intervenção dos militares egípcios.

Em política externa, a chegada do presidente Morsi traduziu-se nalgumas inflexões. O raïs tinha tomado as suas distâncias em relação à Arábia Saudita e operado uma tímida abertura em direção ao Irão, sem ousar porém restabelecer as relações diplomáticas. Em relação a Gaza, tinha procedido a um alívio das restrições – insuficiente, segundo o Hamas, que controla o território – e conduziu uma diplomacia mais ativa e mais crítica quando da intervenção israelita de novembro de 2011. Mas a Presidência manteve o tratado de paz com Israel, obtendo assim as boas graças dos Estados Unidos – o que permitiu que uma parte da oposição e da opinião pública denunciasse a aliança estratégica entre a Irmandade e Washington. Morsi estava convencido, e informara disso numerosos dos seus interlocutores estrangeiros, que este apoio americano evitar-lhe-ia um golpe de Estado. Cálculo que iria revelar-se errado.

Nestes últimos meses, as tensões entre o Executivo e os militares manifestaram-se no campo da política regional, que o Estado-Maior considera como sendo da sua responsabilidade. Assim, o exército tinha tomado sozinho a decisão de submergir uma parte dos túneis que alimentavam Gaza. Ele tinha assim feito saber que desaprovava os apelos à jihad na Síria lançados em junho de 2013 e retomados por Morsi, que rompera as relações diplomáticas com Damasco2.

Até então, a política síria do raïs mantivera-se prudente: rejeitava qualquer intervenção externa e procurava associar o Irão à procura de uma solução política. A sua mudança de tom tinha mais a ver com a vontade de ganhar as boas graças dos salafitas – que fracassou, como prova a adesão do poderoso partido Nour ao movimento que o derrubou – que de uma verdadeira viragem estratégica.

Finalmente, um outro incidente contribuiu para acender o rastilho de pólvora. No início de junho reuniram-se com o presidente Morsi os dirigentes de partidos islâmicos para discutir a crise provocada pela decisão da Etiópia de construir uma barragem no Nilo3. Não sabendo que o encontro estava a ser transmitido pela televisão, certos dirigentes apelaram a uma intervenção armada. Um excesso que o Estado-Maior pouco apreciou.

Depois da queda de Morsi, os militares inundaram a imprensa de “confidências” acerca de uma alegada recusa de restabelecer a ordem no Sinai4, uma região instável que eles consideravam estratégica. Desde então, as operações multiplicaram-se e o exército parece ter regressado à sua estratégia desastrosa dos anos de Mubarak, quando a repressão em todos os aspetos, misturada a um desprezo pelos habitantes da região, muitas vezes considerados como cidadãos de segunda classe, apenas teve como resultado o reforço dos grupos jihadistas. Junta-se a isto uma nova viragem em relação a Gaza, com o regresso das restrições drásticas na fronteira de Rafah e uma campanha visando assimilar os palestinianos ao terrorismo.

Apesar da retórica anti-americana que ainda prevalece no Cairo, duas coisas são certas: o novo poder manterá o tratado de paz com Israel; continuará a cooperar com o Exército americano e a receber anualmente os 1.500 milhares de dólares de ajuda militar de que são beneficiários os oficiais egípcios5.

Agosto de 2013

Publicado no Le Monde Diplomatique

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1 Ler “Les islamistes à l’épreuve du pouvoir”, Le Monde diplomatique, novembro de 2012.

2 Ler “De l’impasse syrienne à la guerre régionale”, Le Monde diplomatique, julho de 2013.

3 Ler de Habib Ayeb, “Qui captera les eaux du Nil?”, Le Monde diplomatique, julho de 2013.

4 “Disputes between Morsi, military led to Egypt coup”, Associated Press, 18 de julho de 2013.

5 Ler Philippe Leymarie, “Des amis de trente ans”, Les blogs du Diplo, Défense en ligne, 10 de julho de 2013.

(...)

Resto dossier

Egito, revolução e golpe de Estado

Na noite de 3/7/2013, o Exército anunciou a deposição do presidente Mohammad Morsi, contestado por grandes manifestações. O presidente foi detido, órgãos de comunicação ligados à Irmandade Muçulmana fechados e as forças repressivas mataram dezenas em manifestações pró-Morsi. Que aconteceu? Neste dossier, coordenado por Luis Leiria, procuramos contribuir para a compreensão do rumo que o Egito está a seguir.

Não em nosso nome!

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“Não deixem que o exército vos engane!”

Apelo de Fatma Ramadan, do comité executivo da Federação Egípcia dos Sindicatos Independentes (EFITU): A “permissão” [solicitada ao povo egípcio] pelo general Al-Sissi, é um veneno mortal. Não se deixem enganar substituindo uma ditadura religiosa por uma ditadura militar.

Graxa democrática para botas militares egípcias

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Direto do Egito: Uma traição para entrar na história

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Lei de emergência, Caos Político e Mobilização Social

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“Forças Armadas do Egito não querem a democracia”

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