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Do Big Mac ao hambúrguer Frankenstein

Comida há, o que falta é justiça na sua distribuição. Não se trata de aumentar a produção, nem de engendrar hambúrgueres nos laboratórios, nem de mais agricultura transgénica. Trata-se, simplesmente, de que exista democracia na hora de produzir e distribuir os alimentos.
Foto Solo/Flickr.

Quando pensávamos que já tínhamos visto tudo no mundo dos hambúrgueres, uma vez mais a realidade surpreende-nos. Se há uns meses, alguns meios de comunicação ecoavam a descoberta de um hambúrguer do Mc Donald’s em perfeito estado de conservação catorze anos depois de ser servido, esta semana anunciou-se o lançamento do hambúrguer de laboratório, ao qual também podíamos chamar de hambúrguer Frankenstein, desenhado, da mesma forma que o "monstro” de Mary Shelley, em provetas.

Um hambúrguer que contém tudo: a sua produção não contamina, gasta pouca energia, quase não utiliza solo e, além de tudo, não contém gordura. A sua "carne” é resultado de extrair algumas células mãe do tecido muscular do traseiro de uma vaca. O que mais podemos pedir? Hamburguer light. Perfeita para o verão!

Apesar do seu preço não ser accessível, ainda, para todos os bolsos. Custa apenas uns 248 mil euros. Incluí-la no Happy Meal, parece, levará algum tempo. Porém, dizem-nos que com tal avanço científico, acabará a fome no mundo. As pessoas querem comer, e querem carne, pois carne lhes daremos, parece ser o raciocínio dos "pais” de dito engendro.

Então, vejo duas questões: Primeira: para nos alimentarmos, é necessário comer tanta carne? Antes de produzir mais carne, independentemente de sua origem, não seria melhor fomentar outro tipo de alimentação mais saudável, respeitosa dos direitos dos animais e sustentável? Porém, quem ganha com esse tipo de comida oriunda de gado bovino e suíno? Smithfield Foods, o maior produtor e processador mundial de carne de porco, é um dos grandes beneficiários. No seu currículo destaca-se a violação de direitos laborais, a contaminação ambiental etc. No Estado espanhol, a Smithfield Foods opera através de Campofrío.

Segunda questão: para acabar com a fome é necessário um hambúrguer de laboratório? Segundo a ONU, hoje produz-se suficiente comida para alimentar 12 mil milhões de pessoas, no planeta há 7 mil milhões; e, apesar dessas cifras, quase uma em cada sete pessoas passa fome. Comida há, o que falta é justiça na sua distribuição. Não se trata de aumentar a produção, nem de engendrar hambúrgueres nos laboratórios, nem de mais agricultura transgénica. Trata-se, simplesmente, de que exista democracia na hora de produzir e distribuir os alimentos.

Não existem soluções "milagrosas” para a crise alimentar. Os problemas políticos, como a fome, nunca serão solucionados com atalhos técnico-científicos. Não se trata de rechaçar a investigação científica. Pelo contrário. Temos que fomentar uma ciência ao serviço da maioria social, não subordinada aos interesses comerciais, nem económicos; e comprometida com a melhoria das condições de vida das pessoas. Porém, da revolução verde aos Organismos Geneticamente Modificados, prometeram-nos acabar com a fome. A crua realidade, no entanto, assinala o seu fracasso. Apesar de que, em geral, é ocultado o seu grande êxito: lucros milionários para a indústria agroalimentar e biotecnológica. O hambúrguer Frankenstein não será uma exceção.


*Original em espanhol em Público, 07/08/2013. +info: www.esthervivas.com. Tradução: Adital.

Sobre o/a autor(a)

Ativista e investigadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares. Licenciada em jornalismo e mestre em sociologia.
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