You are here

Falência de Detroit golpeia duramente o segundo banco da Alemanha

O banco alemão Commerzbank, o segundo maior banco da Europa depois do também alemão Deutschbank, está há algum tempo na corda bamba (ver gráfico). As ações do Commerzbank sofreram uma importante queda nos últimos anos e esta pode acentuar-se depois do colapso de Detroit, dado que poderá aumentar as perdas do banco alemão. Por Marco Antonio Moreno
Evolução da valorização do Commerzbank nos últimos 3 anos - gra´fico retirado de El Blog Salmón

O banco alemão Commerzbank, o segundo maior banco da Europa depois do também alemão Deutschbank, está há algum tempo na corda bamba (ver gráfico). As suas fortes apostas nas hipotecas subprime dos Estados Unidos entre 2002 e 2006, obrigaram-no a pedir o resgate ao governo alemão no ano de 2008. O Commerzbank não mudou a sua linha de negócios depois da crise ter estalado e continuou a apostar na construção naval, nas hipotecas, e em cidades como Detroit. Hoje é um dos bancos mais alavancados do mundo, e também a mais séria dor de cabeça das autoridades germânicas.

O Commerzbank investiu nos títulos de Detroit esperando uma recuperação da cidade que nunca chegou. A emblemática cidade do automóvel nos Estados Unidos, foi a segunda a declarar bancarrota total, depois da falência de Jefferson County, em Alabama, no ano 2011, com dívidas de 4.200 milhões de dólares e uma população de 659 mil habitantes. Detroit tem hoje 700 mil habitantes e viu cair a sua população de forma constante desde os quase 2 milhões de habitantes dos anos 50.

O insólito é que na mesma semana em que Detroit declarava a falência, dois dos grandes bancos dos Estados Unidos (Goldman Sachs e JP Morgan) anunciavam surpreendentes níveis de lucros muito semelhantes aos do período pré-crise. Isto confirma a profunda explosão que provocou a crise iniciada no ano 2007, que gerou um punhado de ganhadores e milhões de perdedores. Os perdedores são a grande maioria e localizam-se nos 99% da população, com um profundo desemprego e uma ostensiva diminuição na qualidade de vida; e os poucos ganhadores pertencem ao 1% mais rico e têm obtido lucros significativos. Isto não tem nada de sustentável e augura um futuro cada vez mais sombrio.

As ações do Commerzbank sofreram uma importante queda nos últimos anos e esta pode acentuar-se depois do colapso de Detroit, dado que poderá aumentar as perdas do banco alemão. O Commerzbank foi um dos muitos bancos que apostou fortemente nas hipotecas subprime dos Estados Unidos entre os anos 2003 e 2006, e também apostou na recuperação da outrora emblemática capital do automóvel. Durante décadas, Detroit foi o núcleo principal da Ford, da Chrisley e da General Motors, convertendo-se numa das cidades mais prósperas dos Estados Unidos. Nos anos 50, Detroit chegou a ter 1,9 milhões de habitantes e hoje a sua população é de 680 mil pessoas. Os tremores da crise subprime iniciados em 2007 tiveram sérias consequências na capital do automóvel e, como aponta The Economist, o governo alemão poderá vender a sua participação de 17% nesta semana. A imprensa assinala que o Commerzbank pode sair do índice DAX, o índice bolsista de referência da Alemanha, e deixar só o DeutscheBank.

O problema remonta ao ano 2005, quando Detroit procurava fórmulas para recapitalizar os seus minguados fundos de pensões dos trabalhadores municipais. O município pôs-se nas mãos do banco suíço UBS, que queria transformar-se numa potência bancária mundial e colocou 1.400 milhões de dólares em títulos da cidade em bancos de todo o mundo, entre eles o alemão Commerzbank, o franco-belga Dexia, o irlandês Depfa Bank e o próprio UBS. O banco irlandês foi adquirido no ano 2007 pelo alemão Hypo Real Estate (resgatado por sua vez pelo banco central alemão); o franco-belga Dexia (resgatado pelos governos de França e Bélgica)e o alemão Commerzbank (resgatado pelo governo alemão em 2008). Todos estes bancos investiram em títulos de Detroit e hoje o município pode oferecer apenas 30 centavos por cada dólar em ações. As perdas afetam hoje todos estes bancos.

O banco UBS também enfrenta sérias dificuldades dado que foi processado pela seguradora Syncora Guarantee, pelos derivados de 1.400 milhões de dólares com que o UBS segurou os fundos de pensões do município de Detroit. Como indica a BloombergBusinessweek, a seguradora procura bloquear a terminação destes derivados dado que a expõem fortemente num contexto em que as taxas de juro vão aumentar. Estes derivados foram subscritos pelo UBS para cobrir o risco de aumento na taxa de juro e o período de taxas baixas foi-lhe favorável. Mas a mão branda da Reserva Federal começa a chegar ao fim.

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Termos relacionados Internacional
Comentários (1)