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Cenas do quotidiano

A formação dos grandes processos decisórios escapa ao comum dos mortais. Foi a pensar neles que, numa hora tão grave para o país, publicamos o que adiante segue. A forma encontrada corresponde ao carácter do que aqui temos a honra de revelar.

CENA 1

Ao almoço na reunião do Bildeberg

Henry Kissinger: Quem é este puto novo?

Christine Lagarde: É um socialista democrático português

Richard Perl: O gajo também quer pertencer à aristocrafidúcia global?

Paulo Portas: É um importante elemento para a concertação e a criação do consenso necessário...

David Patreus: mas vocês ainda vão na conversa da Merkel?

Tozé Seguro : É ela que tem na mão a chave da Europa e estamos convictos de que, com a vossa ajuda, podemos alcançar uma austeridade boa que não continue tão violenta...

Christine Lagarde: Vocês têm-se portado bem.

Tozé Seguro, (olhando para Portas): bem, têm sido mais eles...

Francisco Balsemão (olhando para Durão Barroso): as coisas mudaram um pouco com a carta do Gaspar

Durão Barroso: aqui não há filhos nem enteados, o que é preciso é assegurar o cumprimento do programa para descansar os mercados e a banca.

Francisco Balsemão: esses já viram que o que interessa são os resultados

Paulo Portas (em surdina): eu tentei pôr as coisas a andar, mas o pessoal não percebeu

Francisco Balsemão: até o Cavaco já está a perceber

Durão Barroso: repito, o que é preciso é garantir em boa ordem o cumprimento do programa. Sem pôr em causa a coerência de cada força partidária, os mais capazes devem tomar as rédeas do governo.

Francisco Balsemão: Claro, mas parece-me que temos que fazer a vontade ao PS apesar de tudo o que tem sido dito. Desde Gaspar e da irrevogabilidade de Portas que a descredibilização da coligação, esta sim, é irrevogável.

Tozé Seguro: O PS é hoje o único partido que poderá assegurar o cumprimento dos objectivos acordados com a troika sem os exageros da direita, porque somos credíveis no interior e no exterior - aproveito para agradecer a simpatia e o carinho com que me acolheram neste clube da mais elevada elite - e damos as garantias mínimas de consenso social e, esperamos, político; isto apesar da política desastrosa do Passos Coelho e, desculpa lá Paulo, do Portas ter dado força à esquerda radical. É preciso que o senhor Presidente entenda isto e arranje maneira de dar saída.

CENA 2

Em Belém preparando a comunicação do PR ao país

Cavaco Silva (para os assessores): A Troika tem dado sinais de que o funcionamento exageradamente rigoroso das instituições prejudica a opinião dos mercados e dificulta o apoio à banca. A democracia é entendida como um entrave ao regular funcionamento dos mercados e não sem razão. Já em 1991, fui dos primeiros a demonstrar que é o mercado que garante a democracia. Embora Reagan e Taetcher já nos tenham deixado não devemos esquecer que foram eles que venceram em toda a linha os restos dos devaneios do tal de Keynes. Aos radicais da democracia sem sustentação no mercado, temos que lhes mostrar que, parafraseando João Soares, a democracia é razoavelmente respeitada.

Estou a falar-vos disto porque temos que dar uma volta na situação que está insustentável e eu perdi a paciência para aqueles dois cretinos ingratos. O Vítor Gaspar portou-se à altura. Agora temos de dar continuidade

Nunes Liberato: Senhor Presidente, temo que o único caminho vá ao arrepio de tudo o que temos defendido até agora...

Cavaco Silva: E então? Acha que queles dois animais têm ambiente, credibilidade e capacidade para continuar a levar a cabo a tarefa que até agora só deu pr’ó torto. Se com o Gaspar foi o que foi, com a Maria Luís não vamos mais longe. Aliás os sinais que tenho recebido nos últimos dias da troika é que o que interessa é a substância. A forma deixou de interessar. A Merkel garante a continuidade, possivelmente até aliando-se ao SPD, a grande referência da UE. A França mudou e não foi o fim do mundo. Pelo contrário, está tudo mais calmo. Na Espanha por razões aparentemente laterais o Rajoy pode ir ao ar...

Nunes Liberato: mas Senhor Presidente, o que eu quero dizer é que isto tem que ser com o PS e, para tal...

Cavaco Silva: O Tozé Seguro já debutou em Bildeberg e os sinais que de lá recebi são encorajadores. O Balsemão e o Barroso sentiram-se orgulhosos com a sua prestação. A delegação portuguesa, chamemos-lhe assim, portou-se muito bem, incluindo o cabrão do Portas . (rosnando: ele vai-mas pagar. Ele e o outro. O que eles fizeram não se faz ao pior inimigo.)

Nunes Liberato: o Senhor Presidente está disposto ao que for preciso para salvar o programa e obrigar ao cumprimento honrado e patriótico dos nossos compromissos, é isso?

Cavaco Silva: Tem dúvidas? Já pensei maduramente no que quero fazer. Tomem atenção: o Passos e o Portas neste momento valem zero. Ninguém os respeita nem ninguém travará os protestos contra as necessárias medidas que, como disse o Gaspar – quem diria que um tipo daqueles não seria capaz de se impor e acertar ao menos uma vez!... – o governo quer mas não pode implementar, até porque é um governo ingovernável. Um governo presidencial, que eu próprio já classifiquei em geral como de curta duração e sem possível respaldo seguro, só vai dar bronca porque ninguém é capaz de fazer qualquer coisa sem o apoio certo dos partidos. O Passos e o Portas estão dispostos a tudo, já apresentaram duas pretensas soluções, mas eu vou deixá-los pendurados porque é mais do mesmo e estes gajos merecem uma ensinadela que nunca irão esquecer e, quiçá, os irá levar á irreversibilidade da indigência política.

Nunes Liberato: Deixe-me adivinhar... vai deixar toda a gente de olhos revirados. Boa. O Presidente múmia, peço desculpa mas é apenas uma citação, dá uma ensinadela digna do cognome de“ O Professor” e aponta a nave rumo ao futuro.

Cavaco Silva: A salvação nacional! Os três do memorando vão ser obrigados a falar para salvar o país cumprindo o dito.

Nunes Liberato: Mas acha que dali sai alguma coisa? O PS depois das posições que tem tomado como é que vai entender-se com o PSD e o CDS?

Cavaco Silva: Essa é que é a grande jogada. E não vai ser à bruta. Vai ser com grande versatilidade mas com um fim inesperado e, ao mesmo tempo, inevitável.

Nunes Liberato, Ana Palha e Nuno Sampaio (estes dois últimos com as unhas quase todas roídas): Não podemos esperar mais nem somos capazes de adivinhar. Diga lá senhor Presidente, por favooooor.

Cavaco Silva: É assim uma espécie de proposta irrecusável, como diria o meu ídolo Corleone (para dentro: a jogada do BPN não o desmerece). Ganho em todos os tabuleiros.

Os outros: Diga,diga, Presidente.

Cavaco Silva: Vou pôr os três a conversar para salvar a nação até à saída da troika e imponho eleições a seguir. Os dois animais vão ficar a arquejar de ansiedade e de esperança, lambendo os beiços já gretados. O Tozé vai fazer a parte, mas não pode aceitar qualquer acordo com os tipos. E vai aproveitar para deixar cair as eleições agora em troca de eleições no outono de 2014 como eu proponho. Mostra flexibilidade em relação a mim mas mantém a intransigência - é obrigado a mantê-la senão fica igual aos outros; e a dissimulação e irrevogabilidade estão debaixo de fogo graças ao Paulinho das Feiras – quanto a um acordo sustentável com eles.

Os outros (todos à uma): excelente, genial mas... qual é a saída?

Cavaco Silva: Eleições antecipadas agora! Deixando claro que sou contra essa solução para cujas consequências catastróficas não me cansei nem canso de alertar, mas que é a única saída que a incapacidade de entendimento dos três da troika me deixa.

Os outros caem nos sofás donde se tinham levantado no ardor da exposição presidencial, lívidos, desunhados, arquejantes e lacrimosos.

Cavaco Silva: Qual é a admiração? O PS já deu os necessários sinais de docilidade institucional. Vai ter o presente envenenado: ganha as eleições com maioria relativa e vai ficar a governar para a troika com o consenso que os outros vão ser obrigados a dar-lhe , não têm outra hipótese. E vai atirar-me para os altos níveis de popularidade. Um governo legitimado, consenso nacional no cumprimento do programa como a Merkel e a Troika exigem desde sempre e nunca aqueles dois animais conseguiram com ou sem Gaspar. Não foram capazes sequer de se entenderem entre eles.

Nunes Liberato: Mas tem um grande senão... A esquerda radical pode ter uma votação surpreendente. Com o PS a negociar, perde força na esquerda...

Cavaco Silva: A ver vamos. Se a tríade, chamemos-lhes assim para facilitar – temos a troika e a tríade – chegasse a acordo eu punha o Seguro, ou, talvez melhor, alguém por ele aconselhado, à frente de um governo de Salvação Nacional.

Nunes Liberato: Mas... sem eleições? Eles não aceitam!

Cavaco Silva: Quem disse? Já mudaram o seu próprio calendário; agora já dizem que exigem eleições... em 2014! e vão tê-las se se portarem bem.

Nunes Liberato: O Alberto Martins garantiu que não integrariam nem apoiariam qualquer governo sem eleições.

Cavaco Silva ( de repente pálido e meditabundo, mastigando em seco): que grande confusão que eu vou arranjar! Mas mesmo assim é melhor do que continuarmos neste afundanço de credibilidade do governo... e da Presidência, que impede qualquer avanço no cumprimento do programa da troika. Os banqueiros estão cada vez mais ávidos e não me largam. Já ninguém nos respeita.Temos que sair por cima.

O Presidente e os assessores (Em coro): Eleições já.

Caem em si e ficam a olhar, encabulados, uns para os outros.

Cavaco Silva (mastigando em seco naquele seu sinal peculiar de que não vai tomar nenhuma decisão): primeiro temos que pôr toda a força e toda a prioridade na salvação da pátria. Depois em último recurso fazemos funcionar a democracia.

Lá fora, são horas e ouve-se o toque da requinta para o arrear da bandeira nacional.

Cena 3 e final

O pessoal da tríade, empenhadíssimo em salvar a Pátria, dias depois do discurso do Presidente

Alberto Martins: o PS não apoiará nem integrará nenhum governo sem eleições.

Mota Soares, (corando): mas vocês já revogaram a vossa exigência e disseram que só querem eleições em 2014, como o Presidente determinou. Que vamos fazer até lá?

Moreira da Silva: vamos ver como salvamos o país.

Mota Soares, (olhando implorativamente para Alberto Martins): Mas com quem?

Alberto Martins: a situação não é fácil, mas foram vocês que a arranjaram. Em vez de governarem deixando-nos fazer oposição, com as vossas tricas meteram-nos ao barulho.

Moreira da Silva: Já que estamos nesta temos de conseguir qualquer coisa. O primeiro-ministro não abdica...

Mota Soares: o vice-primeiro ministro que elaborou o guião de entendimento com a troika é quem está em condições de o levar a termo

Alberto Martins: o governo deve cair. (hesitando) Pois, já sei... temos a questão da salvação e das eleições...

Moreira da Silva: que vamos fazer até Julho de 2014?

Mota Soares: isso é o menos, a troika sabe. Mas quem vai pôr o pessoal a obedecer e a aceitar a continuação da tramoia? O presidente do partido ficou em maus lençóis embora ele saiba dar bem a volta às coisas

Moreira da Silva: O primeiro-ministro não sabe bem qual é o governo que está em exercício.

Alberto Martins: o PS não abdica de se opor firmemente à política do governo. Portanto a nossa conversa – sublinho que é entre partidos - tem que ter isso em conta e fazer de conta que isso não conta.

Moreira da Silva e Mota Soares (a uma só voz): entendemos perfeitamente. Vamos então em frente com o compromisso de salvação nacional.

Toca a campainha: entram o Poiares Maduro, Maria Luís Albuquerque e Moedas pelo Governo e o Jesuíno pelo PR. Todos com a bandeira nacional na lapela. Ao longe ouve-se a sirene dos sapadores bombeiros de Lisboa.

Cai o pano.

Na plateia, os bandos de assessores e consultores começam a esfarrapar-se e a arrancar os cabelos.

Cá fora, o povo grita eleições já.

Cavaco (por detrás das cortinas do palácio de Belém, mastiga em seco e olha em pânico para Maria): estamos tramados, já não se pode ser democrata.

FIM

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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