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Cúmplices do golpe

O apelo à cidadania é mais importante que antes: rejeitar o golpe de Cavaco é condição de caminho para uma alternativa de esquerda que trave o sofrimento popular.

O Presidente da República estipulou “3 pilares” para o último OVNI da política portuguesa: acordo de salvação nacional.

Os pilares, a saber, são: 1) adiamento de eleições para depois de junho 2014 (presume-se que depois da última avaliação da troika e do fecho do programa de (des)ajustamento; 2) o cumprimento do memorando até ao final, e dos termos das suas sucessivas revisões, o que implica um corte orçamental muito acima dos 4 mil milhões de euros que têm sido apontados como meta 3) um programa mínimo pós eleitoral para garantir a Berlim a continuidade das políticas de austeridade.

Designadamente, o próximo memorando de condicionalidades, a oferecer como garantia ao BCE para ser fiador, durante algum tempo, da dívida portuguesa nos mercados primários, se lá chegarem por essa altura. Os cortes orçamentais são brutais e as privatizações deixam pouca dúvida sobre a imunidade do que resta do setor empresarial do estado e mesmo da Caixa.

Não posso saber se descobrem o OVNI ou não, mas o facto de PSD,PS e CDS se juntarem em mesa redonda para o negociar, já diz muito. PSD e CDS foram contratados a prazo por Cavaco, e o PS fica precário na condição de suplente.

O governo “desremodelado” faria este programa da troika até ao fim, e o PS faria o programa a seguir, o tal dito cautelar. Com ou sem acordo, as premissas das reuniões são claras e o Presidente não as deixa esquecer. Mesmo o PS fez questão de deixar claro no comunicado da mesa de negociação que tinha identificado os ditos 3 pilares.

PSD e CDS não têm muito a justificar, isto está no roteiro embora estejam contrariados com a muda de diligências,de qualquer modo são cúmplices Para o PS o caso é muito complicado. O que Seguro mostrou foi a mesma cumplicidade com o golpe de Cavaco: um tripartido na ordem e sujeição das eleições a um arranjo combinado.

A atrapalhação de Seguro, tentando envolver o Bloco e o PCP numas conversações para as quais não tinham sido convidados, por razões óbvias, não disfarça nem o ato de se envolver com a direita, e muito menos a capitulação à pressão europeia, agora com pauta escrita pelo governador do Banco de Portugal.

Pode até o PS vir a descartar-se deste entendimento para neutralizar a imagem colaboracionista, mas ficámos a saber com o que podemos contar no PS: austeridade bem encostada ao Tratado Orçamental que aprovaram.

A direita espera ganhar folga e “abstenções violentas” para essa cruzada sem quartel que dá pelo nome de contra-reforma do Estado.

A esquerda mais moderada ou radical, face ao desastre nacional e social, não pode querer menos que eleições imediatas e um ponto final nos memorandos, reestruturando a dívida. Como eloquentemente a última semana demonstrou,entre o arco da troika e a oposição de esquerda só existe dissimulação, jogo para enganar incautos. A unidade de esquerda só passa por aqui.

O apelo à cidadania é mais importante que antes: rejeitar o golpe de Cavaco é condição de caminho para uma alternativa de esquerda que trave o sofrimento popular.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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