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Enfermeiros em luta: mudar de canal ou fazer parte

Dias 9 e 10 de Julho decidem os enfermeiros sobre muitos dos seus problemas, sobre muitas das meias soluções que marcam um trajeto em que se trabalha com mais qualidade científica e humana, mas em condições cada vez mais adversas e deficientes.

Os problemas não desaparecem; ou os resolvemos, limando as arestas até polir a mais perfeita solução, ou os esquecemos temporariamente, deixando nas mãos do acaso o decurso do problema, agravado ou amenizado, com uma aleatoriedade impossível de compreender.

O sono não apaga as preocupações que carregávamos antes de abraçar a almofada, da mesma forma que não se tornam ilusão as notícias desagradáveis apenas porque desligamos o televisor.

Saltamos demasiadas respostas num questionário em que todas as alíneas são obrigatórias, desligamos demasiadas vezes o computador quando surge a mensagem de erro. Fazemos um caminho de saltos para a frente que um dia nos levará a um estrondo mais ruidoso e a uma queda de maior aparato, dificultando o voltar a erguer.

Enganamo-nos não raras vezes com meias soluções; mudamos apenas de canal, aplica-se a inútil pancada no monitor do computador, dormimos apenas uma breve sesta. Soluções parciais amenizam apenas um problema, podam-lhe as folhas mais altas sem nunca cortar a raiz.

Dias 9 e 10 de Julho decidem os enfermeiros sobre muitos dos seus problemas, sobre muitas das meias soluções que marcam um trajeto em que se trabalha com mais qualidade científica e humana, mas em condições cada vez mais adversas e deficientes. Decidem os enfermeiros se com um barco mais robusto, fortalecido por mais conhecimentos, decidem continuar a navegar em mares cada vez mais revoltos ou se, ao invés, lutam por chegar à bonança.

65.000 enfermeiros lutam contra um aumento de carga horária para as 40h, agora que se adivinha para todos, mudando repetidas vezes de canal quando o programa mostrava somente 40h para alguns. Lutam por um ajuste salarial, depois de demasiadas pancadinhas num monitor que mostrava ajustes irrisórios para poucos, esquecendo anos de carreira e mérito profissional.

Lutam os enfermeiros por emprego justo e seguro, depois de demasiadas sestas sobre os seus direitos, sobre os riscos inerentes à prática de enfermagem, físicos, emotivos e sociais. Lutam os enfermeiros por um reconhecimento que nunca deram a si próprios, contentando-se com migalhas sem nunca lutar pelo pão.

As greves dos enfermeiros são, no entanto, um complicado exercício de ética e moralidade. Reféns da sua própria ética, reféns de uma invulgar paixão pela profissão, reféns de uma acomodação demasiado enraizada, as greves tornam-se meros exercícios de vocabulário, meras ostentações de autocolantes na lapela e poucas ações concretas.

Escondendo-se da afirmação pelas suas ações não aceitando um mérito mais do que devido, escondem-se também os enfermeiros da demonstração da sua falta; obrigados apenas a garantir o direito à saúde daqueles que cuidam, continuam os enfermeiros a garantir saúde com a qualidade habitual, cingindo as reclamações aos seus murmúrios.

Esquecem que os olhares de agradecimento pelos cuidados que prestam não são as vozes que se levantam na hora de receber o vencimento anedótico, na hora de deixar a família em casa à noite, na hora do acidente de trabalho, frequente para quem lida diariamente com doenças agressivas, riscos biológicos e ritmo desgastante. Esquecem-se que cada gesto prestado para além do mínimo aproxima dos bons cuidados mas afasta do reconhecimento urgente de que a enfermagem, de que os enfermeiros e enfermeiras que a ela se entregam são um tesouro para polir e não para esbanjar.

Enfermeiros e enfermeiras têm de estar com o seu Sindicato como este nunca esteve com eles; o Sindicato tem de estar com os enfermeiros mais do que nunca. Todos temos de estar por nós como nunca estivemos.

A greve, mais do que um direito, é uma opção; é um apagar a televisão para ir ao acontecimento em pessoa, é vasculhar os programas e circuitos do computador até que funcione ainda melhor, é ficar acordado enquanto não se poder tranquilamente dormir, sem sobressaltos ou receios de despertares súbitos.

Não lutamos por 35h, lutamos por manter empregos, por carga semanal justa que não esqueça o desgaste de trabalhar por noites, de batalhar num sistema de saúde doente, mas ainda assim digno, por uma remuneração justa que recorde a cada dia o esforço de conseguir uma licenciatura e nunca se entregar À estagnação, antes procurar a melhoria constante.

Apagar a televisão hoje, para aqueles que já fazem 40h é arriscar que amanhã o programa anuncie o seu despedimento. Desligar o computador hoje, para aqueles que já têm um ligeiro ajuste no vencimento, é descobrir que amanhã que o erro informático anuncia que passaram a ganhar menos. Adormecer hoje a meio de uma luta difícil, esperando apenas que outros fiquem por nós acordados, é arriscar não ter amanhã uma profissão dignificado ao acordar.

Amamos os que cuidamos, mas amar cuidar implica antes de tudo amar quem cuida.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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