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Mulheres da Vestus comemoram vitória

A alegria das trabalhadoras da Vestus, que desde a falência da fábrica de têxteis de Corroios em 2002 iniciaram uma luta prolongada pelos seus direitos, não tem tanto a ver com a verba recebida mas com o reconhecimento de que a sua luta valeu a pena.

No domingo, 30 de Junho de 2013, num restaurante na freguesia da Sobreda, juntaram-se num convívio cerca de cem pessoas para celebrar o pagamento das indemnizações devidas às trabalhadoras, há onze anos. A alegria das trabalhadoras da Vestus, que desde a falência da fábrica de têxteis de Corroios em 2002 iniciaram uma luta prolongada pelos seus direitos, não tinha tanto a ver com a verba recebida mas com o reconhecimento de que a sua luta valeu a pena.

Todas as trabalhadoras receberam uma verba abaixo daquilo a que tinham direito porque o rendimento da venda do imóvel e do recheio da fábrica não chegava para pagar as indemnizações devidas a to(a)s o(a)s trabalhadore(a)s e porque 25% do valor apurado ficou para custas judiciais e honorários, sendo o restante dividido pelas trabalhadores de acordo com anos de casa e os respetivos vencimentos. Como já tinha dito à Lusa (ver notícia no esquerda.net), uma das trabalhadoras da Vestus denunciou que não só imóvel como outros bens da fábrica foram “vendidos ao desbarato”.

Há 11 anos, 414 trabalhadoras, na sua maioria, ficaram sem trabalho e sem salário. Após o fecho da fábrica um pequeno grupo de trabalhadoras decidiu permanecer junto das instalações da fábrica para garantir que as máquinas e os equipamentos não seriam retirados dali antes dos seus direitos estarem assegurados. Durante três meses, algumas trabalhadoras com o apoio dos seus maridos e de alguns amigos permaneceram debaixo de um sobreiro em frente às instalações da fábrica e resistiram coletivamente, apoiaram-se mutuamente e iniciaram uma luta extraordinária de solidariedade com as vítimas de falências e de respeito pelos direitos do trabalho.

No início as trabalhadoras bateram-se pelo pagamento do Fundo de Garantia Salarial e o acesso ao fundo de desemprego. Muitas destas mulheres são mães e à data a preocupação de manter as filhas e os filhos a estudar deu-lhes força para lutar. Em Novembro de 2002 realizaram uma greve de fome durante 24horas frente ao Tribunal de Comércio de Lisboa.

Na resistência coletiva à porta da fábrica aprenderam a suportar as críticas e a desconfiança de quem não percebia a sua luta, mas foram firmes e avançaram para a construção de uma associação que procurou juntar mais trabalhadore(a)s vítimas do desemprego e lançaram uma petição que recolheu 6322 assinaturas e foi entregue ao então presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, para exigirem a alteração à lei das falências e o pagamento atempado do Fundo de Garantia Salarial, de maneira a garantir a defesa dos direitos do(a)s trabalhadore(a)s, com a atuação mais expedita dos tribunais, e a criminalização dos responsáveis por falências fraudulentas.

A luta foi prolongada e muitas operárias tiveram que encontrar outros trabalhos, tendo algumas conseguido trabalho em serviços de limpeza, em cafés e onde foi possível num distrito com uma taxa de desemprego crescente e em que foram encerrando grande partes das fábricas. Muitas não voltaram a arranjar trabalho. Quando o desemprego atingia também os seus companheiros viveram momentos de muito sofrimento mas a entreajuda entre todas e o apoio de pessoas que se juntaram solidariamente à luta ajudaram a ultrapassar os momentos de maior desespero.

Em 2012, cerca de 150 trabalhadoras juntaram-se novamente à porta da fábrica e numa conferência de imprensa denunciaram que o processo estava na mesa da juíza responsável pelo processo no Tribunal do Comércio há mais de um ano para assinar e dar despacho às indemnizações a que tinham direito. Dez anos depois de iniciarem a luta estavam indignadas e prontas para intensificar a luta em nome da justiça, em nome da realização dos seus direitos. Finalmente, em Junho de 2013, 11 anos após o encerramento da fábrica, começaram a receber as indemnizações.

No convívio na Sobreda estiveram mulheres lutadoras, com os seus maridos e companheiros de luta. Estavam também filhos e filhas, e os amigos que se fizeram na luta. Foram lidas algumas palavras no início que recordaram a luta, as companheiras que entretanto morreram sem terem recebido as suas indemnizações. As histórias foram contadas na primeira pessoa: eu estive lá, passei a noite debaixo do sobreiro, fui ao Tribunal, sofri, lutei, estou aqui e ainda tenho muito para lutar.

No dia 30 houve lágrimas, houve risos. Foi o culminar de uma luta que mostrou a fibra de que aquelas mulheres são feitas. A luta da Vestus ficará, para quem conheceu estas mulheres, como uma luta pela dignidade, como uma luta pelo direito ao trabalho, mas elas, as trabalhadoras da Vestus, serão também um exemplo de que como é possível, de como é importante, ser mulher, ser mãe e ser amiga, juntando forças e solidariedades, sem nunca desistir dos seus direitos enquanto trabalhadoras. Uma pequena vitória, mas um grande exemplo de coragem e dignidade.

Partilhar a sua história nos dias de hoje é de uma grande importância. A crise e o desemprego galopante, a miséria e o autoritarismo vão precisar de mais mulheres assim, de mais solidariedade e de uma semelhante capacidade de resistência pois o caminho não é fácil mas desistir não pode ser uma opção. Nos combates que temos que travar contra as opressões e a violência das políticas do governo e da troika lembremos a luta destas mulheres e procuremos dentro de nós a garra, a coragem e a persistência das trabalhadoras da Vestus.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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