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O voto (f)útil

Numa crónica no Público, Rui Feijó vem reivindicar para si o papel de cupido frustrado. O ex-vereador do PS na CM Porto recorre contudo a três elementos contestáveis.

Numa crónica no Público, Rui Feijó vem reivindicar para si o papel de cupido frustrado. Depois de alegadamente ter feito um grande esforço, nos últimos meses, para unir as esquerdas no Porto. No texto, Rui Feijó usa o sectarismo do PCP e o estafado argumento da suposta indisponibilidade unitária do Bloco de Esquerda como arma de arremesso político contra a esquerda e como justificação para o seu apelo ao “voto útil” no PS. O cupido é por isso agora um justiceiro desistente, a cavar um fosso entre as esquerdas. O ex-vereador do PS na CM Porto recorre contudo a três elementos contestáveis: ignora o passado recente das esquerdas no Porto, mente sobre a posição do BE e desiste da convergência futura à esquerda no Porto.

O diálogo à esquerda requer em primeiro lugar vontade e, em segundo, convergência. A vontade constrói-se na aproximação e a convergência faz-se em torno da política. Nos últimos anos, não houve vontade da esquerda na cidade do Porto e, nalguns casos, faltou a convergência em torno de muitas questões essenciais. São inúmeros os exemplos de tentativas, por parte do Bloco, de reunir a esquerda toda na oposição a Rui Rio, às quais o PS foi virando a cara. Mas não vale a pena falar do passado, apenas registar que, nessas tentativas de juntar a esquerda em posições comuns contra o governo da autarquia, também Rui Feijó e os seus companheiros faltaram por vezes à chamada – lembremos o referendo em torno dos jardins do Palácio ou a vergonhosa intervenção policial na Fontinha. Há 6 meses, e na sequência da decisão vinculativa do Congresso do PS de apresentar candidaturas próprias em todo o país, o PS lançou Manuel Pizarro como seu candidato, dando um sinal das suas intenções para o Porto. O surgimento de três candidaturas é, portanto, o resultado de falta de entendimento de que todos são responsáveis. Pensar numa aproximação é, antes de mais, não ignorar o ponto em que estamos.

Com o objetivo de alargar a candidatura autárquica às esquerdas sociais, que se opuseram à direita em várias causas concretas da cidade, o Bloco lançou a candidatura E se virássemos o Porto ao Contrário?, num formato de assembleia aberta que reuniu militantes do bloco, ativistas de vários movimentos e pessoas com diferentes percursos políticos. Uma dessas assembleias abertas, onde aliás estiveram Rui Feijó e outros apoiantes da candidatura do Partido Socialista, decidiu constituir uma candidatura (tal como já tinham feito PS e CDU) e depois contactar os restantes partidos para averiguar das possibilidades de “uma plataforma de convergência das esquerdas políticas e sociais da cidade”. E foi isso que a candidatura fez: apresentou-se publicamente e, no dia 21 de Maio, dirigiu uma carta ao PS e à CDU para uma reunião. A CDU respondeu no dia 28 – rejeitando a reunião. E o PS respondeu dia 20 de Junho, a sugerir a reunião para o dia seguinte às 9 da manhã. Veremos se esses diálogos permitirão que, no futuro executivo, haja convergência em torno de coisas importantes: suspender cortes de água e luz, romper com o modelo de reabilitação urbana da SRU, manter o Palácio ou Bolhão como equipamentos públicos, inverter a privatização de serviços. Esperemos que sim.

Ou seja, na verdade, a única candidatura que, ao longo de meses, contactou as outras e deu um passo no sentido de promover o debate e o encontro de pontos comuns à esquerda foi aquela que é promovida e apoiada pelo BE. Não se conhece por isso, da parte do PS, nenhum passo efetivo neste sentido, além de umas declarações na imprensa e de umas acusações contra todos. Para apoiar o PS, resta por isso, para o cronista, o derradeiro recurso: a teoria do “voto útil”, a mentira acusadora, e a ausência de conteúdo político. Tudo o que destrói os diálogos à esquerda. Rui Feijó tem todo o direito de apoiar o PS – posição que aliás não surpreende ninguém. Mas não devia omitir a verdade sobre os factos na sua crónica.

Sobre o/a autor(a)

Investigador na área de Sistemas de Energia
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