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Brasil: quem reagiu ainda está vivo

Ao contrário dos dias de jogo da seleção, desta vez a bandeira brasileira saiu às ruas em luta. Com reivindicações variadas, as manifestações atestam as muitas faltas com as quais o país ainda vive, mas sinalizam que algo vai mal em terras brasileiras. Por Xenya Bucchioni e Tulio Bucchioni.
“Que coincidência, sem polícia, não tem violência”, gritou-se em São Paulo. Foto de Morita/SelvaSP

De norte a sul, o Brasil assistiu a algo inédito na noite de ontem: mais de 220 mil brasileiros ganharam as ruas nas principais capitais do país e, também, em algumas cidades do interior. Os dados, no entanto, geram controvérsias já que, só no Rio de Janeiro, a manifestação pode ter alcançado o simbólico número de 100 mil manifestantes – marca da histórica Passeata dos 100 mil organizada contra a ditadura civil-militar, em 1968.

Independentemente da quantidade, as mobilizações se alastraram pela sociedade sob os gritos de “o povo acordou”. Difícil não traçar relações com as muitas primaveras que circulam pelo mundo. Isso porque, apesar dos protestos terem se iniciado contra o aumento da tarifa dos transportes públicos, frases e reivindicações de todo o tipo, presente em cartazes individuais, atestavam a descentralização das exigências – mas, no entanto, apontavam um diagnóstico bastante claro: o Brasil vai mal. Não à toa, à medida que as manifestações de São Paulo e do Rio de Janeiro avançavam nos seus trajetos, eram recebidas pelos trabalhadores com papeis brancos picados jogados do alto dos prédios. Algo que há muitos anos não se via no país.

Inicialmente ignorada pelos média tradicionais e pelos governantes, as mobilizações entraram para o rol das disputas políticas. Não faltam, agora, apoiantes e interessados em capitalizar o estrondoso ascenso das massas, aproveitando-se de aspirações difusas e esvaziadas como o grito “contra a corrupção”, que embora ateste uma prática condenável, não diz muito em termos de ações concretas. Pelo contrário, esbarra num sentimento antipartidário que em nada acrescenta aos direitos sociais amplamente exigidos nos atuais protestos Brasil afora.

Em plena Copa das Confederações, o ensaio do Brasil grande rumo à Copa e às Olimpíadas parece ruir. Durante os protestos, não faltaram alusões à FIFA e aos gastos decorrentes dos eventos desportivos que o país irá sediar. Em São Paulo, na estação Pinheiros, da polêmica linha 4 amarela – a única via privatizada do metro – , nem mesmo os jogadores craques de bola saíram imunes ao protesto: “Brasil vamos acordar, o professor vale mais do que o Neymar”, entoava a multidão.

No país do futebol, a tomada da cobertura do Congresso Nacional, em Brasília, parece simbolizar uma nova arquibancada – bem diferente daquela que se espera para os jogos do Mundial. Nesta, ao contrário das cotas minguadas destinadas à participação popular nos estádios, o que se vê é o livre acesso. No entanto, como tudo o que diz respeito ao povo, a ação truculenta da polícia militar entrou em cena para reprimir os protestos organizados nas cidades sede da Copa das Confederações. A ação da PM, no Rio de Janeiro, foi a mais chocante: houve confrontos com balas de verdade. Pelo Facebook, circulam imagens de polícias disparando durante a manifestação.

Fora da rota dos eventos desportivos, São Paulo continuou em manifestação, onde o que se ouviu foi o grito provocador “Que coincidência, sem polícia, não tem violência”. Isto é, até a chegada da multidão – calculada em mais de 80 mil – ao Palácio dos Bandeirantes. A partir daí, os manifestantes que tentaram ocupar o prédio foram dispersados com o auxílio de bombas de gás lacrimogéneo. Em luta, a cidade prepara-se para, esta terça-feira, o seu 6o Grande ato contra o aumento da passagem.

No dia 20 de junho, será a vez de o país se tornar palco principal do primeiro Ato Nacional. A chamada, agora, é para reunir um milhão de brasileiros no Rio de Janeiro e ultrapassar de vez os marcos de outrora. Primavera Tropical em ação?

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