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Brasil: há 21 anos que não se via nada assim

Mobilizações realizaram-se em 12 capitais de distrito e inúmeras outras cidades. Concentraram múltiplos descontentamentos, desde o preço dos transportes aos gastos com estádios em vez de usar o dinheiro na saúde e educação.
Há 21 anos que não se via tão grandes mobilizações no Brasil. Montagem de imagens do Cantinho das Idéias

O Brasil não via manifestações da dimensão das que ocorreram nesta segunda-feira desde 1992, quando enormes mobilizações dirigidas por jovens que pintavam os rostos com a bandeira do Brasil (os “caras pintadas”) provocaram a queda do presidente Fernando Collor de Mello.

Doze capitais de estado viram os jovens atravessar as suas ruas, e muitas outras cidades foram palco de protestos, de norte a sul.

100 mil pessoas no Rio de Janeiro, provavelmente o mesmo que em São Paulo, 50 mil em Belo Horizonte, 20 mil em Porto Alegre, 15 mil em Belém, 10 mil em Curitiba, 10 mil em Brasília foram as maiores mobilizações.

O rastilho que detonou tudo foi o aumento dos preços dos transportes de São Paulo, realizado por Fernando Haddad (PT), prefeito da cidade, e o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), e a brutal repressão que caiu sobre a manifestação de dia 13 de junho. Mas o efeito de contágio que foi multiplicando as manifestações em todo o país mostra que muitos descontentamentos vinham a crescer entre a população, e apanharam todo o sistema político de surpresa.

Podemos tudo! Essa é a sensação dominante”

Segundo os relatos das manifestações desta terça-feira, quase 90% dos participantes eram jovens. A maior expectativa era se voltaria a repetir-se a repressão ocorrida em S. Paulo no protesto de dia 13. Mas a imponente mobilização que começou no largo da Batata e atravessou a cidade, chegando à avenida mais importante, a Paulista, desta vez não foi reprimida, e apenas se via na rua a polícia de trânsito. O instituto de sondagens Datafolha calculou a presença em 65 mil pessoas, mas é provável que tenham sido mais, porque a manifestação acabou por se dividir em duas, indo uma parte para a avenida Paulista, outra para o palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado.

“A caminho, paramos debaixo de um viaduto próximo à marginal Pinheiros”, comentou, no Facebook, um jovem manifestante. “Sentamos, era noite. Podíamos tudo. TUDO. Podemos tudo! Essa é a sensação dominante. São Paulo ficou pequena; a marginal ficou pequena; as neuroses da cidade ficaram pequenas; a cidade dos carros é das pessoas. O mais maravilhoso é ver as colegas e os colegas antes tão céticos acreditarem que podem mudar a vida, que a mudança está aí e depende só de nós. Essa noite é das ruas, Brasil! A existência ganha muito mais sentido - sem tanta necessidade de terapia, imagino”.

O governador Geraldo Alckmin finalmente entendeu que estava politicamente encostado à parede depois da intervenção bárbara da sua polícia no dia 13 e aceitou negociar com o Movimento Passe Livre o trajeto da manifestação, permitindo até que ela decorresse na simbólica avenida Paulista, o centro financeiro da cidade e do país, e proibindo a PM de usar balas de borracha. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, “um clima de velório tomou conta do quartel do Comando Geral da PM” com a proibição do uso de balas de borracha, já que os coronéis da PM “temiam que a corporação fosse culpada pelos episódios de violência na semana passada durante as manifestações do Movimento Passe Livre (MPL)”.

A segunda passeata dos cem mil”

No Rio de Janeiro, a manifestação já está a ser chamada de “a segunda passeata dos cem mil”, com referência à manifestação histórica ocorrida na cidade em 1968. Prevaleciam os cartazes individuais com todo o tipo de dizeres, alguns bem criativos. "Sexo é amor, R$ 2,95 é sacanagem"; "Põe a redução da tarifa na conta da Fifa", "Enfia o dinheiro da copa nos seus Sus", "Fora Dilma e sua corja" e muitos outros. De acordo com o relato de uma manifestante, “não há quem dirija, nem quem tente dirigir [a manifestação]. O máximo de condução que existiu do conjunto era uma banda muito boa de instrumentos de sopro, que se tornou uma referência à frente da faixa principal, com seus hits 'vem pra rua, vem pra rua', dirigida aos trabalhadores dos prédios que jogavam papéis picados (há décadas não há passeatas que recebem papéis picados na Rio Branco) e 'quem não pula quer aumento' (ai que canseira...).

Outra manifestante relata: “Havia grupos que levavam cartazes com uma foto da Dilma no tempo da guerrilha e pediam: 'Dilma, manifeste-se'. Outra versão: 'Dilma, aprende com Mujica' (referência ao presidente do Uruguai). Muitos cartazes pediam mais investimentos em educação e contrastavam isso com os gastos para os estádios da Copa ("queremos escolas no padrão Fifa"). Alguns revelavam alta pretensão: 'Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil' ou 'Não é Turquia, não é Grécia, é o Brasil saindo da inércia'.

No final houve conflitos na frente da sede da assembleia legislativa do Estado, com um carro a ser incendiado, sem que esteja clara a origem dos distúrbios.

Nova manifestação esta terça em São Paulo

Em Brasília, os manifestantes realizaram um protesto na Esplanada dos Ministérios e no Congresso Nacional, conseguindo invadir a sua cúpula. Da marquise do Parlamento – as cúpulas côncava e convexa do Senado e da Câmara –, os manifestantes gritaram palavras de ordem e entoaram o Hino Nacional. A Polícia Militar do Distrito Federal, cujo governador é do PT, entrou em confronto com o grupo, embora não tenha conseguido conter o avanço até às imediações do prédio do Poder Legislativo.

Para esta terça-feira está de novo convocada uma manifestação na Praça da Sé em S. Paulo.

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