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Alexis Tsipras: "Chegou a hora de derrubar o Governo"

À mesma hora que os tribunais gregos mandavam o governo restabelecer o sinal da televisão pública, o líder do Syriza dirigiu-se a milhares de pessoas na praça Syntagma. Em clima pré-eleitoral, Tsipras afirmou que o corte do sinal da ERT foi um assalto à democracia e que o tempo de Samaras acabou.
Milhares de pessoas na Praça Syntagma assistiram ao comício do Syriza. Foto Left.gr

O Syriza marcou o "regresso à praça Syntagma" para o fim da tarde desta segunda-feira, enquanto decorria a reunião do gabinete de crise do governo da troika entre o primeiro-ministro Samaras e os seus aliados Evángelos Venizelos, do Pasok, e Fotis Kuvelis, do Dimar (Esquerda Democrática). A reunião foi interrompida pelo anúncio da decisão do Supremo Tribunal Administrativo, que deu razão à ação interposta pelo sindicato dos trabalhadores da empresa pública de televisão e rádio e ordena ao Governo o restabelecimento imediato do funcionamento da ERT. 

Na prática, trata-se de uma providência cautelar que obriga a repor no ar o sinal da tv e rádio pública até o tribunal apreciar o caso, o que poderá ocorrer até setembro. A notícia foi recebida com aplausos na estação e nas imediações, onde se concentravam muitas pessoas em solidariedade com a ERT e à espera do resultado da reunião dos líderes partidários do Governo. Mas ainda há dúvidas como será reposta na prática a emissão da ERT, já que o tribunal não revogou os despedimentos dos seus funcionários.

À saída da reunião, os líderes do PASOK e do Dimar garantiram que a coligação não estava em risco, embora mostrassem mal-estar por esta decisão ter sido tomada por apenas um dos três partidos da coligação. Segundo o blogue Keep Talking Greece, o primeiro-ministro Samaras, da Nova Democracia, propôs novamente aos seus parceiros o restabelecimento da ERT com um número mínimo de funcionários até estar completo um plano de reestruturação, incluindo agora o convite à BBC para consultora desse plano. Em troca, ofereceu-lhes a remodelação governamental que vêm reclamando nas últimas semanas, prometendo-a para depois do congresso do seu partido no fim do mês. Ao que parece, o único acordo saído da reunião foi o de voltarem a discutir o assunto esta quarta-feira.

"Você está acabado. Boa noite, Sr. Samaras". 

Pouco antes do anúncio do tribunal, Alexis Tsipras dava o tiro de partida para a pré-campanha eleitoral num comício com milhares de apoiantes no centro de Atenas. O líder do Syriza diz que o encerramento da ERT foi a última gota para a paciência do povo grego. "Quer esta noite encontrem uma solução ou não, estão acabados", afirmou Tsipras.

As maiores críticas foram para o seu opositor nas últimas eleições: "Sr. Samaras, você está desesperadamente só, mas não completamente… A Aurora Dourada concorda com a sua decisão e você parece não se preocupar". Alexis Tsipras também questionou a autoridade de Samaras e do seu ministro com a tutela da Comunicação para criticarem a meritocracia na ERT, quando foram eles a fazer muitas das polémicas nomeações para a tv pública.  

"A televisão pública só se apaga quando há uma invasão ou quando a democracia é congelada", prosseguiu Tsipras, garantindo que "a maioria do povo não vai ficar parada a ver a democracia ser violada pelos media privados" numa campanha eleitoral sem serviço público de televisão. Sem a ERT no ar, nenhum dos canais privados fez a cobertura em direto deste comício, um dos maiores a que Atenas assistiu nos últimos anos.

"Samaras é o primeiro-ministro que demoliu a democracia, ele é perigoso para a democracia", alertou o líder do Syriza antes de concluir: "Depois de ter amordaçado a ERT e a liberdade de expressão, você está acabado. Boa noite, Sr. Samaras". Com um governo do Syriza, "a ERT reabrirá e será pública, pluralista e independente", garantiu Tsipras.

"Metade do nosso coração está na ERT, a outra metade está em Taksim"

Alexis Tsipras recordou a campanha eleitoral em que ficou a poucos votos de se tornar primeiro-ministro da Grécia. "Diziam que se o Syriza ganhasse, o país ia colapsar. Prometeram a paz social e deram-nos repressão", recordou, alertando que "os dias que aí vêm não serão fáceis. Eles irão desorientar-vos e vai ser duas vezes pior que em junho passado".

Todo o discurso do líder do Syriza foi voltado para a necessidade de derrubar o quanto antes o Governo manchado com o caso da ERT e pelos efeitos da austeridade na sociedade grega. "Derrubemos o governo da destruição e reconstruamos o país sobre bases sólidas", propôs Tsipras, acrescentando que "o Syriza quer, pode, e irá fazê-lo" com a ajuda da maioria do povo grego. 

"Senhora Merkel, o seu preferido vai embora e não encontrará outro como ele", avisou o líder do Syriza, deixando outro recado à chanceler alemã: "A Grécia não será a sua colónia". "Um governo do Syriza não permitirá que haja crianças a desmaiar de fome nas escolas", e "irá impedir os bancos de ficarem com as casas das pessoas", prometeu Tsipras.

"Cidadãos de Atenas, a nossa voz mistura-se com a dos insurgentes da praça Taksim, dos indignados de Espanha, dos manifestantes em Portugal. É uma Primavera Mediterrânica", prosseguiu o líder do Syriza dirigindo-se aos milhares de apoiantes presentes na Praça Syntagma. "Temos o poder de mudar as coisas não apenas na Grécia, mas na Europa", defendeu Tsipras, convicto que uma mudança do poder político de Atenas produzirá efeitos políticos devastadores para os condutores da austeridade a partir de Berlim e Bruxelas. "A democracia vencerá, os memorandos serão derrotados", resumiu o líder da oposição.

Após o discurso de Tsipras, os altifalantes deram a notícia que todos queriam ouvir: a justiça tinha travado o encerramento da ERT. A praça uniu-se no aplauso e ouviu o apelo para que a concentração continuasse em frente à televisão pública grega.  

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