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Emigrados, explorados e desiludidos

Vêm do leste e do sul de Europa com destino à Suíça. Lá os empregados domésticos cuidam das famílias e das suas crianças. Não se trata de falta de postos de trabalho, mas sim de falta de respeito e consideração, como conta a história desta espanhola de 22 anos.
Cartaz contra a atribuição de cidadania suiça a imigrantes do partido de extrema-direita SVP

Por doze dias e meio receber apenas 32.55 francos (aproximadamente 26 euros): Evelia Cervantes não teve a melhor experiência em Zurique.

Evelia Cervantes envergonha-se desta história, mas mesmo assim quer contá-la. Ela sente-se explorada. É a história de uma jovem espanhola que viajou até à Suíça cheia de esperança para trabalhar. Em vez da “bela vida” encontrou pessoas que “preferia não ter encontrado” e viveu desilusões, umas atrás das outras.

Cervantes integra a “onda de emigrantes” que o Bundesrat quer travar através da “cláusula da válvula”. A sua história começou numa pequena cidade, com um pouco mais de 10 000 habitantes e a meia hora de Barcelona. Cervantes cresceu aí com a sua mãe e irmã. Durante os seus estudos em Barcelona ia arranjando dinheiro. Depois da formação universitária como detetive privada quis ir para a polícia. No entanto não passou na prova de admissão e encontrava-se sem emprego.

O seu namorado e ex-colega da universidade, na mesma situação, encontrou uma solução: Mudou-se para junto dos seus avós em Zurique e começou a estudar Direito. Cervantes queria acompanhar o namorado. Na Suíça a qualidade de vida deve ser elevada, todas as pessoas estão contentes, acreditava Cervantes. Em plataformas na internet procura por um lugar como au-Pair (uma família de acolhimento com crianças para prestar ajuda em algumas tarefas domésticas e cuidar dos seus filhos). Aí encontra um anúncio de Paula e Mathias Schmid. Ela professora primária, ele instrutor de condução. O casal tem dois filhos, os dois com menos de dois anos. A família Schmid. Vivem numa casa com terraço e jardim em Limmat, Zurique.

Cervantes viaja a primeira vez para a suíça para conhecer a família. Os Schmids prometem 1500 Francos (cerca de 1200€) por mês mais os gastos advindos da escola de língua, em troca deverá encarregar-se dos dois filhos. “Eu tinha que fazer de empregada doméstica e limpar, disseram-me os Schmid”, conta Cervantes, era a concretização de um sonho. Aprenderia alemão vivendo com o namorado na Suíça. Isso foi por altura do Natal de 2011. Meio ano mais tarde, viajando cheia de esperança para a Suíça, arruína-se o sonho.

 Cinco francos por hora

Evelia Cervantes é um caso em muitos. No ano passado, de acordo com o Gabinete de Estatística (BsF), 4511 pessoas emigraram da Espanha para a Suíça, entre os quais muitos jovens onde um em cada dois não encontra trabalho em Espanha. Com uma taxa de desemprego a superar 27%, a Espanha lidera o pódio. Uma autorização de trabalho na Suíça só recebe quem tem um emprego, Cervantes estava ciente disso quando em Julho recebeu o contrato para “estágio de tarefas domésticas e cuidados de crianças”. 1190 Francos mensais (958€), dos quais 390 seriam descontados para “Refeições e lanches”. Restavam 800 Francos, salário bruto – muito menos que o prometido pela família Schmid no Natal.

Cervantes, apesar de tudo, assina o contrato: “caso contrário, eu não teria a autorização de residência”. Quando apresentou o contrato na Câmara Municipal, o funcionário pergunta-lhe como tencionaria sobreviver com esse salário. Ela há-de conseguir, afinal iria viver com o namorado. O trabalho na casa dos Schmid tornar-se-ia insuportável em pouco tempo. Por cinco francos à hora cuidava dos filhos e limpava a casa. “Eu disso nem me importava”, conta Cervantes, “mas eu sentia-me inferiorizada. Ou Mathias ou Paula estavam sempre a observar-me. Aparentemente, as crianças não gostavam de mim e um deles estava sempre a morder ou a mandar murros”. Quando as crianças dormiam e não havia mais nada para limpar, ao salário eram descontados “horas de férias”. Assim, no final do primeiro mês só receber 500 Francos (400€), o que é inferior aos 800 Francos normalmente pagos aos au-pair e muito distante dos 2912 Francos de salário mínimo para contratos de trabalho padrão de empregados de limpeza.

“Condições de Exploração”

Christine Michel, líder sindical da área diz “aqui trata-se de um exemplo claro em que contorna um contrato de trabalho, disfarçando a prestação de serviços por um estágio”. Surpreendida, não está de todo: “As condições de exploração dos chamados cuidados de migração, onde uma emigrante é empregada para cuidar de responsabilidades familiares, são, infelizmente, a regra”. Sarah Schilliger, socióloga na Universidade de Basileia, confirma isso mesmo: “Apesar de au Pair ser comumente entendido como um intercâmbio cultural, na verdade, as mulheres jovens são muitas vezes recrutados como trabalhadoras domésticas flexíveis”. A procura é grande, segundo o BfS trabalhavam em 2012 cerca de 59 000 pessoas neste sector. Schilliger está convencida que os números reais são superiores: “O valor real é enorme, porque muitas vezes os trabalhos não são declarados. É cada vez mais comum encontrar imigrantes ilegais que trabalham em condições de trabalho precárias”.

Este setor não é o único com grande procura por pessoal, um estudo da Travail.Suisse mostra que no ano 2030 estarão por preencher cerca de 400 000 empregos. Esta crescente oferta pode ser colmatada por emigrantes, relata Denis Torche, líder da política de migração na Travail.Suisse.

Por isso, é também errado o sinal do Bundesrat que quer travar com a cláusula da válvula a imigração da União Europeia. Contudo, trata-se também de barulho, já que a referida política terá uma duração máxima de 12 meses. Isso também o diz Céline Kolprath do Serviço Federal de Migração: “trabalho necessário continuará a ser recrutado”. Isso acontecerá: os migrantes são populares pelo seu reduzido custo salarial, diz Schilliger. Os responsáveis pelas condições de trabalho precárias não são apenas as famílias: “falta apoia estatal e condições de cuidado acessíveis. Cada vez mais as famílias arranjam directamente um acordo com o migrante.”

 A WOZ desconhece a razão pela qual Paula e Mathias Schmid procuram um au-pair e o exploraram. Apesar de várias tentativas, permaneceram incontactáveis toda a semana.

De desilusão em desilusão

Evelia Cervantes não consegue encontrar essa razão. Depois de apenas dois meses despediu-se, não se defendendo da tentativa dos Schmid lhe ainda retirarem metade do financiamento do curso de alemão. Cervantes conta que por doze dias e meio prestados recebeu… 32.32 Francos. Cervantes só queria sair dali e começou a trabalhar pouco tempo depois num café em Winterthur. O seu patrão obrigou-a a trabalhar com um grande decote: “Vende-se melhor”. Em certos dias Cervantes trabalhou 12 horas sem intervalo. O seu superior pressionara-a, e humilhava-a diante dos clientes. Salário sempre atrasado. Após sete meses despediu-se e abdicou de parte do seu salário. Ela não quer voltar a esse café, jamais, e sente-se ameaçada pelo seu antigo patrão: “uu espero que nucca mais o venha a ver, eu tenho medo dele”, conta Cervantes.

“Eu acho que não tive muita sorte” diz Cervantes sobre o seu tempo na Suíça. Ela imaginava essa experiência de forma muito diferente. “Eu só queria trabalhar onde pudesse ter sucesso”, acrescenta “Eu também tenho a minha parte de culpa”. Talvez devesse ter escolhido a família de acolhimento com mais cuidado: “Mas não contava com isto”.

No entretempo Cervantes encontrou um novo emprego na loja Zara: “Estou feliz por finalmente ter o meu horário tabelado e um salário correspondente”. Cervantes trabalha a 60% e recebe no máximo 2500 Francos brutos por mês.

Artigo originalmente publicado no semanário suiço Wochenzeitung

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