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Greba

Esta é a palavra basca para greve. Greba orokorra traduz-se por greve geral. E é o que vai acontecer a 30 de maio nas comunidades de Euskadi e Navarra.

Primeira nota: a convocatória traz o rosto das centrais bascas ELA e LAB, de outros sindicatos com expressão dentro e fora do País Basco como a CNT e CGT. Lamentavelmente, UGT e Comissiones Obreras, as maiores centrais a nível do estado espanhol, não acompanham a greve geral basca. Porém, o facto assinalável é que largas dezenas de movimentos sociais, comités de desempregados, comités de bairros, associações estudantis, movimentos de mulheres, grupos de defesa de despejos de casas, grupos antiracistas e imigrantes, entre outros acompanham a convocação. Repare-se que o manifesto de luta foi discutido e firmado entre os sindicatos e os outros movimentos sociais. Quer a ELA, quer a LAB, não se sentiram diminuídas por andarem de braço dado com movimentos de ativismos vários.

Segunda nota: a luta dos trabalhadores bascos dirige-se contra os cortes de salários e pensões, ataque aos serviços públicos, despedimentos mais fáceis e mais baratos. Afinal, é a conhecida receita de austeridade, empobrecimento popular, transferência de riqueza para o capital. Mas o mais extraordinário nesta mobilização é que a questão número um do conflito é a nova lei sobre a contratação coletiva, parecida com a lei portuguesa que impõe a caducidade dos contratos coletivos na ausência de um novo instrumento de negociação coletiva. A questão é reconhecida amplamente, não como uma mera questão sindical mas como uma questão de civilização. Ao eliminar administrativamente cláusulas de direitos que representam décadas de lutas e conquistas, a lei anti laboral quer pôr a bandeirada a zero na luta de classes. A politização do problema mostra um grau de cidadania mais avançado que transporta da centralidade do trabalho a urgência social constituinte.

Terceira nota: esta é a terceira greve geral basca contra o governo Rajoy, depois de outras três contra o ex-primeiro ministro Zapatero. Impressiona mais a combatividade que a natureza massiva das lutas. Porque há uma consciencialização de que a luta é um processo, não apenas um protesto isolado ou uma corrida curta. Talvez por isso, a plataforma da convocação popularize ao mesmo tempo uma carta de direitos dos povos na UE, dando uma consequência política às sucessivas ações.

Quarta nota: nos contactos que mantive em Gasteiz-Vitória com os dirigentes sindicais e com deputados envolvidos na ação geral pude constatar o conhecimento apurado que exibiam sobre a situação política, partidária e sindical em Portugal, certamente mais atento desde a intervenção da troika. Em todo o caso, a articulação ibérica, aproximada pelas realidades objetivas dos ataques aos direitos sociais por parte dos governos conservadores e do diretório Merkel, reclama maior cumplicidade dos vários intervenientes progressistas, que recorde-se já coincidimos na greve geral de 24 de novembro.

É certo que dificulta esse enlace as discrepâncias existentes entre espaços nacionalistas e o quadro espanhol, que nega aspirações de autodeterminação na Catalunha, País Basco e Galiza. Mas isso não invalida progressos que superem solidões que só enfraquecem os sujeitos políticos da esperança socialista.

À rua, como chama o cartaz da greve. A palavra de ordem define o território da insubmissão.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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